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terça-feira, 15 de janeiro de 2013


CIA. FÁBIO BASTOS, APENAS UM RETRATO DE PAREDE, MAS DEIXOU SAUDADES


Rubens Novaes e Beth

Dentro das condições da época a empresa era um local bom para se trabalhar. Nos anos 60 chegou a distribuir ações da empresa para os funcionários como bônus de final de ano, uma inovação em termos de gestão de pessoas.  O principal negócio da empresa era a importação de implementos agrícolas, tratores e demais produtos para a pecuária leiteira. Fabricava também alguns produtos complementares para o setor. Era uma grande importadora de tratores, mas quando a Valmet e a Ford começaram a fabricá-los  no Brasil, a Fábio Bastos perdeu um grande filão de mercado. Posteriormente, a Alfa-Laval, empresa sueca do setor de máquinas para a indústria de laticínios também se instalou no Brasil, fato que agravou a crise da empresa.  Fundada no Rio de Janeiro nos anos 40 do século passado pelos irmãos Garcia Bastos, a empresa se espalhou pelo Brasil e tinha filiais nas principais capitais, além de escritórios de vendas espalhados por várias cidades de São Paulo, Paraná e Minas Gerais. 
A empresa tinha lá os seus encantos e alguns mitos dos fundadores faziam parte do imaginário dos antigos funcionários. Os mais velhos falavam dos tempos da fundação da filial São Paulo, na Rua Florêncio de Abreu sob o comando do Francisco Garcia Bastos, irmão do Fábio Bastos.  Diziam que ele ia, pelo menos duas vezes por semana, de bicicleta até o armazém da empresa na Avenida Presidente Wilson, no Ipiranga. Na minha época, já nos anos 60, ele vinha de  Aero-Willys com motorista.
Havia figuras lendárias na empresa, como o Altair Garcia Nogueira, diretor comercial e primo do Francisco. Era arrogante e extremamente sovina. Dá para acreditar que ele mandou reformar um liquidificador na empresa para dá-lo de presente de casamento para a filha? Pois é, naquela época estas coisas ainda aconteciam. O aparelho ficou em exposição por alguns dias, como obra da competência dos operários da firma. Mas a conta pelo serviço foi enviada para ele, mesmo sendo diretor.  Pelo menos uma vez por semana ele ia para a unidade do Ipiranga, onde eu trabalhava. Ficava horas ao telefone fazendo pesquisa sobre preços de peças de reposição para seu Aero-Willys. Contava-se na empresa que ao chegar em casa, um empregado lavava os pneus do carro antes de guardá-lo na garagem.  Mas Nogueira era um sujeito culto e sofisticado que sempre viajava para Paris e visitava o Louvre e por isso, gostava de ficar ouvindo suas conversas com o nosso chefe sobre suas aventuras na cidade Luz.
Um dia apareceu um jovem de vinte e poucos anos para fazer um estágio na fábrica e oficina. Era o Paulo de Mendonça Bastos, filho do Francisco, Vice-Presidente da empresa. Com carta branca do big boss, o Oscar de Freitas, nosso gerente deu-lhe um macacão e ordens para colocar as mãos na graxa. O Paulo era um típico filhinho de papai, como se dizia na época. Vinha com seu próprio carro, um DKW Vemag  todo incrementado que não saia da oficina. Ficou alguns meses aprendendo como era difícil ganhar a vida, pois o pai não queria que seus filhos fossem playboys desocupados. O Francisco tinha outro filho, Francisco G. Bastos Filho, jovem de temperamento mais difícil. Contava o Gentil, motorista do pai, que ele havia fugido para morar com uma mulher bem mais velha e de vida suspeita. O pai não teve dúvidas e foi buscá-lo, acabando o romance. Soube pelos jornais, poucos anos depois, que ele morrera em São Francisco, EUA, possivelmente de um ataque cardíaco, pois era muito jovem.
Para mim, apesar de ser uma empresa um tanto antiquada,  foi uma experiência importante em minha vida pessoal e profissional. Lá trabalhei com o Rubens Novaes, o contador da empresa. O Rubens era uma pessoa culta e de grande caráter. Com ele aprendi a ler os clássicos da literatura que me emprestava e conferia se eu realmente havia lido. Passaram pelas minhas  mãos, exemplares de Hugo, Flaubert, Zola, Joyce, Dostoievski, Thomas Mann, Fitzgerald, Cervantes entre outros. Quando não havia muito trabalho e o gerente não estava, passávamos horas conversando sobre literatura, política, religião e vida pessoal. Contava causos do seu tempo de criança na velha Vila Carrão com os seus imigrantes portugueses, italianos e espanhóis. Ri muito quando ele contou a história do motorneiro do bonde cuja mulher o traia quando saia para o trabalho. Num dia, ao saber por um passageiro a traição da mulher, largou o bonde no meio da avenida e foi fazer o flagrante. A rua toda parou para ver, ouvir e dar passagem, como diria o Chico sobre a chegada da banda.  Contava-se sobre como conheceu sua esposa, a Elizabeth, por quem se apaixonou a primeira vista pelos seus cabelos louros e olhos azuis.
Tratava-me como um filho que precisava ser lapidado para não cair em maus caminhos. Aos quatorze anos, como quase todos os garotos da época, comecei a pitar um cigarrinho escondido dos meus pais. Graças a ele, com sua retórica antitabagista, abandonei, praticamente antes de começar, o vício.
Com apenas quinze anos, ficava deslumbrado com as discussões durante o horário de almoço. Havia um operário chamado Paulo Ribeiro, que era comunista de carteirinha, mas acabou sendo promovido a encarregado e mudou o seu discurso. Como diria Drummond: “Há uma hora em que os bares se fecham e as virtudes se negam". Normalmente o Rubens não me deixava ficar com os operários, pois não considerava um bom ambiente para um jovem escriturário. Com o pretexto de dar uma volta para fazer a digestão e tomar um pouco de sol, levava-me quase todos os dias  para um passeio após o almoço. Visitávamos sempre o Museu do Ipiranga, apesar do curto tempo de que dispúnhamos. Mas ao longo de três anos em que lá trabalhei, deu para conhecer vários detalhes do museu.
Quando completei dezoito anos, fui dispensado da empresa, como era comum na época por causa do serviço militar. Foi com lágrimas nos olhos que me despedi dos amigos que lá deixei, principalmente, o Rubens Novaes, a quem devo muito do que sou hoje. Tempos depois soube, pelo próprio Rubens, que a empresa estava em séria crise, com muitas pessoas sendo dispensadas.  A empresa entrou em concordata, fechando as suas portas e com elas toda uma história empreendedora. Foi triste saber que antigos funcionários, que começaram as suas carreiras desde jovens na empresa, como Seu Sete, Georges, Roberto Amaro, Ismael Brait, Euclides entre outros, ficaram, de repente, sem emprego e sem a velha identidade.
Lembro-me de muitas outras coisas sobre a a Fábio Bastos, mas tenho saudades, além das pessoas que lá conheci, de uma máquina de escrever Underwood, portátil, onde eu escrevia, além das cartas, memorandos etc, meus trabalhos escolares e também alguns versos ingênuos.