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domingo, 18 de junho de 2017

Brasileiro profissão esperança



Ser brasileiro
Não é apenas uma nacionalidade
Ser brasileiro
Não é apenas uma cultura, um idioma,
Ser brasileiro
Não é apenas samba, carnaval e futebol
Ser brasileiro
Não  é  só  trabalho, não é só dinheiro
Ser brasileiro
É esperar o tempo das coisas
Coisas boas e ruins
É ter uma oração pra cada tristeza
É ter uma oração pra cada alegria
É ver poesia em cada palmo de estrada
É esperar o amanhã como se espera um filho
Ser brasileiro é esperança

Brasileiro: profissão esperança

UM ESTRANHO HOMEM



Ele surgiu do nada no meio da confusão. Suas roupas eram estranhas, parecendo um beduíno, carregando um saco com seus pertences. De repente viu policiais batendo nas pessoas com cassetetes, jogando bombas de gás lacrimogênio ou atirando balas de borracha. Sua primeira reação foi interceder para que as pessoas não se machucassem, mas acabou apanhando também. De nada adiantou se explicar que estava tentando ajudar as pessoas que estavam sendo castigadas sem motivo.
- Vocês não sabem quem eu sou? Estou aqui para uma missão muito importante que meu pai me encarregou. Vocês não podem bater nessas pessoas. Ninguém tem direito de castigar o próximo.
O policial não pensou duas vezes e deu-lhe um tremendo safanão que ele caiu há alguns metros. Machucado pela queda continuou não entendendo nada. Nunca havia sido tratado assim, a não ser... Mas logo depois foi recolhido pelos policiais e levado para uma viatura algemado. Ficou pasmo com a situação, nunca imaginou que desta vez sua missão fosse tão rápida que não tivesse nem mesmo tempo para explicar a que veio. “Atirem a primeira pedra aqueles que nunca erraram”, gritava dentro do camburão.
Esse cara deve ser um fanático maluco. Deve ser de uma seita evangélica achando que vai salvar a humanidade, comentou um policial. Os outros riram e também não deram importância para o clamor do homem.
Na delegacia ele ficou junto com outros detidos na manifestação. A maioria era de jovens estudantes que não estavam intimidados com a situação. Conversavam normalmente, trocando ideias sobre como deveriam agir na próxima vez e contavam que seriam libertados em breve, pois não havia acusação formal contra eles. Os jovens acharam estranho aquele homem com aquelas roupas exóticas, um tipo de manto sobre o corpo e calçando uma velha sandália de couro cru. Perguntaram-lhe quem era e o que estava fazendo na manifestação, mas ele estava tão cansado e machucado que não teve forças para responder.
A noite chegou e nada dos jovens serem libertados. Todos famintos e esgotados e nem sinal do delegado que iria pegar os depoimentos e depois fichá-los e libertá-los. Alguns dormiram e outros continuaram discutindo questões políticas e estudantis, planejando como seria a próxima manifestação, sempre acreditando que seria arrasadora, que abalaria  os pilares do estado. Como o homem estranho havia acordado, um dos estudantes perguntou quem era ele e o que estava fazendo na passeata. Ele repetiu a mesma ladainha que fez diante dos policiais, mas já se retraindo com medo de que fossem também atacá-lo.
- Calma, calma, não vamos machucá-lo. Somos amigos, disse um dos estudantes. Estamos fazendo um movimento para derrubar o governo. São uns fascistas que estão no poder e querem ferrar com o povão.
- Vocês não devem lutar contra o governo. Lembrem-se: A César o que é de César. A Deus o que é de Deus”. Eu não sou daqui, não pertenço a este lugar.
- Como assim? Você é um estrangeiro ilegal? Tem passaporte? Como entrou no país? Perguntou um estudantes, observando que ele tinha um sotaque levemente estranho, apesar de falar bem o português.
- Vocês não me entenderam. Eu não sou daqui. Sou de outro lugar. Estou aqui em uma missão, o meu pai...
Nisso um dos estudantes começou a cantar uma ciranda do folclore baiano, gravada pelo Caetano Velloso: “Eu não sou daqui, marinheiro só, eu não tenho amor, marinheiro só...” E todos caíram na gargalhada.
Logo depois entrou um policial e chamou o homem estranho para ser identificado e liberado. Diante do delegado reclamou que foi agredido sem que tivesse ao menos ameaçado o guarda. Achou uma injustiça o que fizeram com ele e com os jovens que também foram presos. O delegado fez de conta que não ouvia as reclamações e ordenou ao escrivão para que tomasse as digitais do homem e providenciasse a fotografia. Em seguida perguntou pelo seu nome, endereço, profissão. Ele não entendeu nada do que foi perguntado. Disse que veio direto para a rua e ainda não sabia onde ficaria. Talvez numa rua qualquer. Um cantinho protegido da chuva e dos bichos seria suficiente para ele.  Nome? Por que haveria de dizer seu nome? Quem és tu? Perguntou. És o César?
- Aqui não tem ninguém que se chama César. Vai falando logo que eu não tenho tempo a perder. Nome?
- José
- José de que?
- Bem, sou José de Belém.
-Escrivão!  Escreva aí: José de Belém. Profissão?
- Sou pedreiro e carpinteiro.
- Está liberado, mas se você aparecer de novo por aqui vou botá-lo em cana por uns meses para aprender a não desacatar autoridade policial.
Ele continuou não entendendo nada. Pegou sua sacola e saiu em direção à rua. Agora estava tudo calmo, tranquilo, apenas as pessoas circulando e todas com muita pressa. Tentou em vão abordá-las. Queria conversar, mas ninguém lhe dava atenção. Cansado, sentou-se sob uma marquise e ficou observando o movimento. Era uma igreja. Tentou entrar, mas as portas estavam fechadas. Como uma igreja pode estar com as portas fechadas? Falou pra si mesmo.
Estava escuro e o movimento da rua foi diminuindo só restando uns mendigos que reclamaram que ele estava ocupando um lugar que já tinha dono.
- Como? Não há dono da casa do Senhor, respondeu irritado.
Os mendigos riram e se afastaram para outro local, onde colocaram uns papelões para passar a noite. Ele continuou ali estranhando aquele lugar onde ele foi parar. Não conseguia entender porque Deus o deixou ali, sem nenhuma explicação. Sabia que o Pai escrevia certo por linhas tortas, mas deveria ter algum sinal para que entendesse a sua missão. Mas conformou-se, repetindo: Deus sabe o que faz, Deus sabe o que faz...
No meio da madrugada os mendigos voltaram e ao perceberem que o estranho homem estava dormindo, foram ver o que havia em sua sacola. O barulho o acordou e, por instinto, tentou reagir, mas eram três mendigos e estavam com pedaços de pau que usaram para bater no homem até deixá-lo desacordado. Ele sentiu uma grande dor nas costas e na cabeça por causa das pancadas. Tentou acordar, mas sentiu suas forças esvaírem.
Abriram a mochila e encontraram um livro em um idioma que desconheciam, uma pequena caneca de estanho e um crucifixo de madeira. Junto um manuscrito enrolado, também num outro idioma. Como não viram nada de valor, largaram tudo e se afastaram para evitar problemas, pois o homem poderia ter morrido.
Pela manhã ele foi encontrado já frio e sem vida. Um judeu que passava por ali viu o livro e o manuscrito e resolveu dar uma olhada. Ele leu o manuscrito escrito em aramaico:
“A todos os homens de boa vontade”:
O portador deste é meu filho que estou enviando à terra para uma nova missão. Por favor, cuidem bem dele, pois não quero que ele sofra como da última vez”. Assinado: Jeovah. Depois de ler guardou o manuscrito, pensando em aproveitá-lo em seu antiquário, assim como o livro, o crucifixo e a caneca de estanho. “Ganhei o dia hoje, pensou o comerciante”.
Horas depois um camburão recolheu o estranho homem como indigente, levando-o para o IML, onde analisariam a causa mortis e ficaria aguardando algum parente reclamar. Ninguém reclamou. Nenhum parente, nenhum amigo deu por falta dele. Depois de algum tempo, foi sepultado numa vala comum, com outros indigentes, que as dezenas são sepultados todos os dias.
O comerciante de antiguidades colocou as peças em exposição colocando um bom preço por elas, pois pareciam autênticas e em bom estado.




quinta-feira, 4 de maio de 2017

O CORTIÇO EM SÃO CAETANO


Na minha rua havia um cortiço. Não era nada parecido com o do romance do Aluízio Azevedo, mas tinha lá as suas peculiaridades. O que chamamos de cortiço, regra geral, é uma casa dividida em cômodos com várias famílias ocupando e compartilhando apenas um sanitário e o quintal. É claro que daí surgem os conflitos. Crianças jogando bola nas roupas penduradas no varal, brigas pela utilização do mesmo espaço, conflitos entre crianças e vai por aí.
Quando eu era criança havia pelo menos quatro famílias morando no local. Dona Encarnacion, com quatro ou cinco filhos ocupando apenas um cômodo. Seu marido a abandonara e só aparecia uma vez por mês para ver os filhos e levar a parca pensão. Coitada da Encarnacion era uma vida difícil.  Havia, também, uma antiga moradora do endereço, uma espanhola chamada Maria que vivia amasiada com um Cearense. Tinha uns quatro filhos do primeiro marido e mais uns três do segundo e ocupava dois cômodos. Diariamente ela saia pela cidade para esmolar. Voltava com um ou dois sacos repletos de roupas que nunca utilizava e as colocava no lixo. Era conhecida como Maria Louca, pelas suas extravagâncias, criando encrencas com toda a vizinhança por causa dos filhos. Ela tinha um filho mais velho, chamado Juarez, briguento como ele só. Durante as peladas sempre nos desentendíamos e era briga na certa. Eu sempre levava a melhor, mas ele atirava pedras para se vingar e o jeito era correr antes de levar uma na cabeça. O Juarez e os irmãos eram crianças de rua e meus pais não gostavam que nos brincássemos com eles, mas ninguém levava isso muito a sério. Minha mãe tinha pena das crianças e sempre que percebia que estavam famintos, oferecia um prato de comida. Uma vez meus pais chegaram à noite e encontraram o Juarez dormindo em nossa varanda. Estava um frio de rachar e minha mãe o acomodou em casa com direito ao café da manhã.
Um senhor que lá morava era o mais atípico. Vestia-se com elegância, sempre com camisas bem passadas e gravatas bem ajustadas no colarinho.  Saia todas as noites e nos fins de semana circulava pelos bares do bairro. Sabia-se que trabalhava na Volkswagen, mas nunca comentava o que fazia por lá.  Todos se perguntavam para onde ia o seu Donutti? Sua mulher, dona Clarice, era uma coitada. Além de trabalhar fora, fazia a dupla jornada, cozinhando e lavando para a família. O casal tinha três filhos, sendo o Vanderlei o mais velho que se juntava com a turma nas peladas da rua. Para complicar, a família hospedava o irmão solteiro da dona Clarice, que provavelmente dormia na cozinha, já que a casa tinha apenas um quarto e cozinha. Ficava imaginando o desconforto do moço, que também se vestia com elegância, sempre de paletó e gravata. Dizem que trabalhava em um banco e que falava inglês fluentemente. Depois de algum tempo passou a dar aulas de inglês à noite e saiu da casa da irmã, aparecendo por lá eventualmente para uma visita rápida.
Morou lá também uma família de negros. O José Luiz era muito alto e magro e se parecia com um Neuer (povo africano da África Central que o antropólogo inglês Radcliff Brown estudou). É claro que na época nunca havia ouvido falar no Radcliff.  Ele era muito esperto e hábil em catar balões e pipas quando caiam em nossa rua. Era uma família muito fechada e sabia-se muito pouco sobre eles. Todos tínhamos medo do Zé, pois além do tamanho, era muito rápido com os pés e mãos.  Mas ficaram pouco tempo na casa e logo se mudaram para outro bairro o que nos deu alívio, pois nos livramos do habilidoso catador de balões e pipas. 
O dono do cortiço era um judeu que passava todos os meses para receber os aluguéis. Vinha em um velho Chevrolet dos anos cinquenta, dirigido pelo filho. Parava o carro em frente a casa e o filho chamava os inquilinos para o acerto de contas. Como era raro aparecer um carro por lá, a molecada parava a pelada na rua para admirar o carrão que só víamos nos filmes americanos nas matinês de domingo.  Às vezes algum dos moradores não tinha dinheiro e o velho judeu saia furioso do carro balançando a sua enorme pança e gritando impropérios. O filho procurava acalmá-lo e depois de algumas negociações, iam embora.
Tempos depois o judeu vendeu a propriedade e os inquilinos precisaram se mudar. A primeira foi a dona Clarice com o seu marido elegante. Em seguida mudou-se a Maria Louca, depois de se separar do seu Júlio, um cearense que parecia um índio e arranjar outro marido que tinha uma propriedade em outro bairro. Dona Encarnacion, com todos os seus filhos mudou-se para a mesma rua, mas morreu de câncer logo depois. Ela tinha uma filha chamada Julia, uma garota bonita, com pernas morenas e roliças que deixava a mostra em seus vestidos curtos. Nos meus nove ou dez anos, já fazia planos para levá-la à matinê, mas nunca deu certo, pois faltou coragem para fazer o convite e eu achava que ela toparia, pois me devorava com seus olhinhos de ressaca.
Com o fim do cortiço, acabou-se também a minha infância, as peladas de rua e as brigas intermináveis sobre se foi ou não foi gol, se foi bola na mão ou mão na bola ou quem era o melhor time do campeonato: Corinthians ou Palmeiras ou o Santos? O mais chato mesmo foi a falta que senti da Júlia, a menina das pernas roliças que provocava meus hormônios e eu ainda não entendia muito bem por quê.


quarta-feira, 3 de maio de 2017

A TURMA DO PRIMÁRIO


Estudar depois do primário era praticamente um privilégio nos anos sessenta, pois não havia colégios públicos na periferia de São Caetano do Sul. O único ficava no centro e além da concorrência, ainda era preciso ter QI (ou quem indicou), termo usado na época para indicações políticas. Assim, quem terminava o primário ou ficava em casa ou arranjava um subemprego até completar catorze anos, idade permitida para trabalhar com carteira assinada. Foi o que aconteceu com vários dos meus colegas do Grupo Escolar Padre Luiz Capra. Poucos deles, como Elias Ladislau Pinto, Antonio Avelino, Arnaldo, Nelson Cabral de Lima, Ademir Duó, Piccinini, Roberto Ravagnani, Valter Corotti Trigo, Vagner Benedetti, Valter Belini entre outros foram estudar em um colégio particular, chamado Barão do Rio Branco.
Mário Corbalan Gomez foi um dos meus colegas de curso primário que não foi para o ginásio. Era um garoto bonachão, simpático e sempre sorridente. Ele era o filho mais novo de uma família de espanhóis e sua mãe já devia ter mais de quarenta anos quando ele nasceu.  Como morava a dois quarteirões de minha casa estávamos sempre nos encontrando; ora na rua, ora na igreja ou nas peladas num terreno baldio. Sua mãe às vezes ia chamá-lo durante as peladas gritando em um espanhol que só ele entendia. Depois do curso primário cada um seguiu rumos diferentes. Eu também fui fazer o ginásio no Barão do Rio Branco, graças a uma bolsa de estudos conseguida por contatos políticos do meu pai.  Quanto ao Mário, foi trabalhar com seus irmãos que tinham um caminhão para transportes ou coisa do gênero.
Com quinze anos também comecei a trabalhar, mas diferentemente do Mário, consegui um emprego em um escritório como aprendiz. Às vezes nos encontrávamos no ônibus quando voltávamos do trabalho. Eu com roupas limpas e mãos macias e ele com roupas sujas e mãos calejadas pelo trabalho duro de ajudante de motorista. Confesso que sentia algum orgulho por estar numa situação melhor do que a dele, mas ao mesmo tempo tristeza pela vida não oferecer as mesmas oportunidades para todos os meus amigos, principalmente para os companheiros de infância. Nesses momentos me lembrava de que mesmo tendo poucos recursos, meus pais faziam um grande sacrifício para que eu e meus irmãos pudéssemos ter uma vida melhor e a bem da verdade nem sempre correspondíamos.
                Chegou à época do serviço militar, quando pensei que seria o momento de reencontrar os velhos amigos da escola primária, onde aprendemos as primeiras letras com a professora Teresa Rami, uma mulher elegante, mas muito rígida com seus alunos. Mas qual! O Tiro de Guerra da cidade escolheu apenas os jovens que haviam estudado pelo menos o curso ginasial para o engajamento militar, quanto os demais, foram dispensados por excesso de contingente.  Era na realidade uma forma de exclusão social, não que fosse maravilhoso fazer o serviço militar estudando e trabalhando, mas era uma forma de fazer parte de um grupo, de participar de um ritual de passagem.
                Nesta época encontrei novamente o Mário no ponto de ônibus e ele comentou que estava desempregado. Como eu trabalhava no departamento de pessoal de uma empresa me ofereci para tentar lhe conseguir uma colocação. Passei-lhe o endereço da empresa, mas ele não apareceu, talvez por timidez.
  Dois dias depois quando voltava do serviço militar juntamente com o Ravagnani e Valter Belini, vimos uma movimentação estranha na casa do Mário e viemos saber que ele havia morrido afogado em uma represa em São Bernardo.  Entramos para dar os pêsames à família e lá ficamos por alguns minutos. Assim, três soldadinhos rasos prestaram a última homenagem a um ex-colega de escola desempregado que por falta de ocupação foi se divertir na perigosa represa que já havia levado e continuaria levando várias vidas de garotos das redondezas.  Antes de sair quebramos um protocolo da hierarquia militar e batemos continência diante do caixão de um civil que não havia sido convocado para o exército por não ter ido além do curso primário. Do pobre Mário só restou uma fotografia com toda a turma, tirada um pouco antes de concluirmos o curso primário. A sua história terminou cedo, bem  antes do tempo.