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quinta-feira, 17 de abril de 2014

A OLIVEIRA DO CEILÃO


Cansado dos negócios da carne no seu sentido literal, quando via diariamente cadáveres de bois, porcos e galinhas, um velho amigo dos tempos idos resolveu partir para a vida bucólica do campo. Passou nos cobres a sua rede de açougues, que apesar de bastante rentável, dava muito, muito trabalho, pois não tinha fim de semana ou feriado para o merecido lazer. Todo dia é dia de carne na mesa das pessoas.
               Perambulando pelo interior viu muitas propriedades, algumas maravilhosas, mas que não cabiam em seu bolso. Até que um dia descobriu em Pinhalzinho, perto de Bragança, um bucólico sítio, com boa nascente e boa terra. Era uma antiga fazenda de café, com o seu velho terreiro sustentado por uma muralha de pedra cujas origens remontam os tempos da escravidão. Lá encontrou até uma pequena senzala, onde o primeiro proprietário mantinha sua escravaria. O velho casarão ele decidiu demolir, mesmo contrariando a Guta, sua mulher, que teria preferido restaurar a antiga sede de fazenda em nome da preservação da memória histórica. Ao ouvir conversas de que ali morreram muitos escravos e que o cruel proprietário cortava as mãos dos fujões, não sossegou enquanto não viu as paredes colocadas abaixo, juntamente, com as lembranças de sofrimentos.
               Outra coisa que encantou o casal foi descobrir uma velha oliveira do Ceilão, carregada de belas azeitonas. As frutas são um pouco mais compridas do que as européias e a árvore bem maior. A Guta imediatamente visualizou dezenas de vidros de conservas de azeitonas nas prateleiras da cozinha.
               Fechado o negócio colocaram as mãos à obra. Construíram uma boa casa para acomodar a família que estava crescendo, além de uma grande área de lazer com churrasqueira, fogão a lenha e salão de jogos. Aproveitando a bela nascente, botaram abaixo um bambuzal e construíram um belo lago para a criação de peixes e também para a garotada dar uns mergulhos nos dias de verão. O fim do bambuzal deu alguns problemas, pois um antigo empregado descontente com a demissão denunciou o desmatamento do bambuzal, o que acabou rendendo uma multa ambiental. De nada adiantou tentar provar para o fiscal que eles haviam plantado muito mais árvores do que existiam originariamente no terreno.
               E as azeitonas do Ceilão? Guta com todas as suas habilidades tentou, em vão, transformá-las nas apetitosas conservas para enriquecer os pratos que preparava. As frutas depois de cozidas de acordo com os padrões lusitanos apodreciam. Desanimada, abandonou o projeto. A oliveira do Ceilão continua lá e seus frutos não atraem pássaros ou bichos rasteiros e apodrecem inutilmente durante todos os outonos. Guta uma educadora de profissão e doceira por distração, preferiu preparar doces variados e deliciosos que serve para os amigos que se empanturram após as lautas refeições, mas continua frustrada por não aproveitar as azeitonas do Ceilão.
               Escrevendo para um velho amigo que residiu alguns anos no Ceilão, eis que resolvemos o problema da Guta. O velho Dedo Thenório um aventureiro errante que a duras penas aprendeu o idioma local e também a sua botânica, deu-me o prazer de enviar uma receita para o aproveitamento das falsas azeitonas, que prazerosamente encaminhei à amiga Guta. As tais azeitonas falsas podem ser preparadas através de deliciosas compotas doces ou salgadas.

               Enquanto a Guta vai preparando as suas compotas, seu zeloso marido tenta tocar uma harpa paraguaia, que comprou em uma de suas viagens à tierra Guarany.  O problema é que o rapaz não consegue tirar mais do que um truumm, truumm, o que está tirando o sono da família e da vizinhança. Dois velhos amigos, para consolá-lo, até compuseram uma guarânia em sua homenagem, enaltecendo a sua história de vida. O ex-pintor, ex-professor, ex-sociólogo, ex-açougueiro continua tentando tirar algum som agradável do instrumento e com isso até os pássaros se afastaram do seu belo recanto.