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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

QUE HORAS ELA  VAI CHEGAR?



O filme se baseia numa história comum em nosso cotidiano. Uma empregada doméstica numa residência burguesa, que deixou a filha em Pernambuco aos cuidados de uma irmã. Mas a filha fica moça e resolve prestar vestibular para ingressar na USP.
Estaria tudo certo se a empregada doméstica tivesse a sua própria casa para receber a filha. Mas não. Ela mora no emprego desde que chegou do Nordeste ajudando a criar o filho do casal, pois a mãe trabalha fora e o pai, um rico burguês que recebeu uma herança, não faz absolutamente nada, tampouco cuidar do filho.
A dona da casa concorda que a filha da empregada venha morar em sua casa por um tempo suficiente para que ela se arranje. A partir daí as relações com a empregada começam a mudar. Antes ela era vista como uma pessoa da família, que ajudara a criar o filho do casal. Ela era ótima, pois não criava problemas e servia a família quase como um serviçal dos tempos coloniais.
Com a filha, avessa aos padrões de comportamento burguês, começa a quebrar as regras da casa, como comer o sorvete preferido do filho, sentar a mesa do café da manhã e entrar na piscina. Entrar na piscina foi demais para os patrões, que viram nisso uma invasão do seu espaço senhorial. A cena lembra um pouco a história vivida por uma cantora negra nos EUA que ousou entrar na piscina do clube de madrugada. No dia seguinte a piscina foi esvaziada e lavada, pois um ser considerado “inferior” ousou banhar-se no mesmo local dos seus sócios brancos.
Aos poucos a empregada que era tratada com todas as mesuras possíveis para uma empregada, principalmente, porque ela conhecia o “seu lugar”, começa a perceber as relações de classe, desencadeada com a presença da filha.  O lugar dela era da área de serviço para trás. Nos demais espaços da casa sua presença era permitida apenas para limpar ou servir.
O filme retrata do ponto de vista sociológico, o conflito de classe existente no cotidiano da vida familiar, não só das elites, mas também da classe média, cujos membros precisam trabalhar e dependem de alguém para cuidar da casa e dos filhos. A empregada se sente realmente da família, até o momento em que ultrapassa os limites estabelecidos pela família. A partir daí é convocada a se colocar no “seu lugar”.
Esse problema é mais comum do que se possa imaginar, pois após a empregada participar da vida familiar, funcionar muitas vezes como confidente, dando opiniões etc e tal, há o momento em que recebe uma bronca por um serviço mal feito ou por uma indiscrição. Nesse momento as relações de classe emergem como uma ruptura nas relações até então amigáveis. A partir daí se torna impossível à empregada continuar trabalhando na casa, pois se rompem as relações cordiais, que Sérgio Buarque de Holanda define, nas entrelinhas de “Raízes do Brasil”, como falsas, frutos  de interesses e relações de favores.
O filme, muito bem interpretado por Regina Casé merece ser visto, mesmo considerando que nem todo o elenco está à altura da protagonista. É também um filme divertido se não fosse também trágico.


CIGARRO DE PALHA


José, chefe de comitiva de boiadeiros, levava uma boiada para o Mato Grosso, quando deu uma parada para ver um boi que tinha se desgarrado. Foi aí que  apareceu o cavaleiro bem falante, que o abordou:

- O senhor teria fumo?

- Tenho, sim senhor, respondeu, oferecendo ao viajante.

- O senhor por acaso teria um canivete?

-Pois não, aqui está.

O homem picou o fumo caprichosamente, devolvendo o canivete e o tolete de fumo para José e mais uma vez perguntou:

- Não querendo abusar, o senhor teria palha?

- Tenho sim senhor, respondeu, entregando a palha ao homem.

Depois de enrolar o cigarro, o viajante ainda fez um novo pedido.

- O senhor me faria o obséquio de emprestar o fogo?

- Pode deixar que eu acendo, respondeu, pegando a binga e colocando o cigarro nos lábios.

Acesso o cigarro, José deu uma tragada e acenou para o viajante dizendo:

- Pode deixar que eu fumo pro senhor. E partiu a galope pela estrada se juntando aos demais da comitiva.


A POLÊMICA DA FEIJOADA


A feijoada é o prato da preferência nacional, não importa a classe social, a origem, a cor, a idade. Todos apreciam uma feijoada. Bem quase todos. Eu mesmo não sou um fã ardoroso do cozido de feijão com paio, linguiça, carne, toucinho, pé, joelho e outras partes do porco. Aliás, um suíno, parente do javali europeu que o nosso herói gaulês, Asterix e seu inseparável companheiro Obelix, preferiam assado na brasa.
Para harmonizar uma feijoada os brasileiros preferem a indispensável cerveja bem gelada, mas há controvérsias. Um amigo somelier prova, com bons argumentos, que o melhor acompanhamento para a feijoada, um prato de sabores fortes, é um bom Cabernet Sauvignon. A cerveja fermenta no estômago e deixa o comensal estufado, segundo ele. Mas há também aqueles que não dispensam uma caipirinha antes e durante a orgia gastronômica.
A origem da feijoada gera muita discussão. Meu querido amigo, o maestro Orlando Marcus Mancini, teimoso como ele só, diz que foram os escravos africanos que inventaram a feijoada durante os trezentos anos de escravidão, pois os senhores de engenho jogavam fora as partes menos nobres dos suínos abatidos e os escravos as recolhiam e despejavam em um caldeirão  com feijão.  Contra essa versão, a historiadora Mary Del Priori em seu belo livro Histórias da Gente Brasileira, diz que os senhores de engenho não gostavam de criar porcos porque ficavam muito selvagens. Gilberto Freyre, antropólogo e autor de Casa Grande e Senzala afirmava que os portugueses trouxeram o seu cozido de feijão com pedaços de carne de porco, paio, linguiça, pés etc e o adaptaram às condições dos trópicos. Logo se deduz que os senhores não deixavam nada para os escravos, que tinham que se contentar com a pouco nutritiva farinha de mandioca e algum calango ou outro bicho do mato que caçavam nas raras horas vagas.
Em verdade se comia muito mal no período colonial. Plantava-se muito pouco além da lucrativa cana de açúcar e, muitas vezes, faltava alimento para a subsistência dos próprios escravos. Em razão disso houve até um decreto de sua Majestade da metrópole portuguesa obrigando os fazendeiros a destinarem uma parte das terras e mão de obra para o plantio de alimentos para a subsistência , pois sem uma boa alimentação a produtividade dos engenhos caia, colocando em risco a economia colonial. Quem tinha dinheiro importava alimentos da metrópole, mas as condições de conservação eram péssimas e muitas vezes os suprimentos estragavam gerando problemas intestinais muito sérios.
Há também outra polêmica quanto ao estado natal da feijoada. Os cariocas afirmam que o Rio de Janeiro foi o berço dessa invenção da culinária, pois os escravos, depois da libertação em 1889, foram morar nos arredores da cidade maravilhosa trazendo essa iguaria a tira colo. Mas há aqueles que defendem que foi na Bahia que a feijoada ganhou as características atuais e depois a levaram para o Rio de Janeiro.
Mas há um detalhe que muitos se esquecem. Há uma versão da feijoada em cada país com as suas peculiaridades. Na França, o cassolet é uma feijoada branca com carne de porco, frango, coelho, linguiça e outros adereços. Em Portugal, conforme já mencionei, é o cozido português muito parecido com a feijoada, mas com feijão branco. Enfim, em todos os lugares do mundo onde se consome feijão, alguém sempre vai lembrar-se de colocar alguma coisa junto para melhorar o seu poder nutricional e deixar o cozido mais saboroso. O historiador francês Le Pen, afirmou que o feijão salvou a Europa da fome. A leguminosa, descoberta nas Américas foi levada e cultivada em solo europeu gerando fartura e melhorando a qualidade nutritiva da alimentação das classes menos favorecidas.
Polêmicas a parte, o feijão cozido com pedaços de porco, sejam de onde for, linguiça, paio e toucinho, acompanhado com molho de pimenta, couve refogada, farofa e arroz branco agrada a grande maioria dos brasileiros, seja no almoço ou no jantar, com cerveja gelada, caipirinha e até com vinho é comida para ninguém botar defeito.


FEITO EM CASA


Tornou-se um costume lá em casa criar um porquinho nos fundos do quintal, apesar das leis municipais proibirem a prática em área urbana. Mas meu pai fazia ouvidos de mercador mantendo um chiqueirinho com uma boa drenagem de água para criar um leitão à base de milho. A grande preocupação era manter o local sempre limpo e desinfetado para que nenhum vizinho reclamasse e acabasse por gerar uma multa e um prazo de 48 horas para se desfazer do bichinho.
Os porquinhos chegavam bonitinhos, engraçadinhos, mas acabavam crescendo e muito, tornando-se enormes, chegando a pesar mais de cem quilos. Nos primeiros dias ficava solto no quintal e nos divertíamos correndo atrás do animal. Mas logo ele era confinado e nosso trabalho consistia em limpar o local e abastecer o cocho com água e alimento.
Mas sempre chegava a hora triste, quando bicho, já enorme e arrastando a barriga no chão seria sacrificado para o deleite dos apreciadores de carne suína. Um dia antes meu pai combinava com um ou dois amigos para empreender a tarefa, que, diga-se de passagem, ele bem que gostava, pois se sentia como se estivesse na fazenda.  Os preparativos envolviam a afiação das facas e a preparação da lenha para o fogo. O porco parecia perceber que havia chegado a sua hora e começava a gritar bem antes do momento fatal. Isso me deixava angustiado e, não raro, tive crises psicossomáticas como febre alta e vômito. Ficava de longe e preferia não olhar, mas sabia exatamente o que aconteceria. Com um ou dois amigos segurando o porco, meu pai enfiava um longo punhal no coração do infeliz e em poucos minutos já estava morto. A segunda parte consistia em lavá-lo com água fervente e raspar a pelagem antes de abrir a carcaça.
Do porco se aproveitava tudo, menos, é claro, o grunhido. As vísceras como fígado, coração, rins etc eram iguarias disputadas. A pele era usada para fazer torresmo. Os pernis eram defumados para fazer presunto.  Os intestinos eram limpos e utilizados para fazer linguiça e chouriço. O restante da carne cortada em postas que eram fritas na própria banha do porco e assim conservadas por meses, uma antiga técnica de conservação de alimentos trazida pelos europeus antes das geladeiras.
Para mim tudo aquilo era um horror só, pois detestava carne suína e era obrigado a comê-la no almoço e no jantar e não via a hora de acabar aquela lambança para voltar ao franguinho ou a carne bovina. Em toda essa história, a única coisa que me dava prazer era o pão de torresmo, feito na padaria do bairro, sob encomenda, com a participação post-mortem dos nossos porquinhos. Com manteiga no café da manhã, era uma iguaria.
Os vizinhos e os amigos mais chegados eram presenteados com uma porção de carne, além de alguns passarem em nossa casa para fazer uma boquinha com o churrasquinho preparado pelo meu pai e seus amigos. O meu pai não bebia, mas sempre havia a cerveja gelada trazida pelos convidados.
Com o tempo essa tradição do interior, levada para a cidade por meus pais acabou. O custo do milho e algumas reclamações de vizinhos mal humorados e a fiscalização da prefeitura desanimaram o hábito; assim, a carne suína, a preferida do meu pai, passou a ser comprada no açougue ou no supermercado, encerrando mais um dos hábitos caipiras que os migrantes do interior traziam para a cidade grande.



Caminhas entre os mortos e com eles conversas...


Quando criança os mortos me assustavam e com eles tinha pesadelos que terminavam com um grito no meio da noite.  Hoje, com tantos entes queridos e amigos mortos perdi o medo e também a esperança de que eles voltam para puxar as nossas pernas como as histórias que as minhas irmãs mais velhas contavam para assustar os irmãos mais novos.
Minha mãe volta e meia sonhava com mortos: pai, mãe, irmãos e pelo menos com duas irmãs tinha sonhos frequentes. Uma dela se matou por ver seu amor proibido pela família e a outra se mudou para o Mato Grosso e nunca mais a viu. Com a última ficou uma pendência não resolvida. Era o remorso pela falta do perdão e de despedida. A que se matou era quase a sua mãe. Por ser a mais velha e minha mãe a mais nova, era quem cuidava dela enquanto a mãe cuidava da casa e das suas costuras. Quando minha mãe começou a ter demência senil, os seus encontros com os mortos ocorriam mesmo quando estava acordada. Quando ia visitá-la, às vezes, ela dizia: “Seu pai esteve aqui, conversamos bastante sobre nossa vida juntos e os filhos. Ele está preocupado com fulano e não é para estar?” Em outras ocasiões falava sobre o encontro com a irmã que nunca mais viu. Eram sempre momentos de perdões, arrependimentos e lágrimas.
Quando sonho com os mortos, estamos no cotidiano de nossa outrora vida familiar. Às vezes durante o sonho lembro de que eles estão mortos, mas na maioria das vezes nem me lembro disso. Mas isso acontece quase sempre na casa onde morávamos e na penumbra da noite. Meus sonhos sempre ocorrem à noite ou, raramente, no entardecer. Nunca pesquisei a causa, mas deve ser porque dormimos sempre à noite. Sonho com coisas absurdas, coloridas, músicas, discussões filosóficas, políticas ou literatura.
Tive um tio, casado com a irmã de minha mãe que era da seita Testemunhas de Jeová, que acreditava que depois do Armagedom, a grande batalha do bem contra o mal, os fieis ressuscitariam e voltariam à vida na terra e gozariam a eternidade felizes, sem guerras, tristezas, mortes, fome etc. Meu pai, um tanto cético, questionava, mas como a fé não deixa espaço para questionamentos, meu tio deslizava seguro de que o seu passaporte para o retorno da eternidade estava garantido.
A grande verdade é que o ser humano não se conforma com a morte, quando cessa a nossa história de vida e ficamos apenas nas lembranças dos parentes e amigos por algum tempo. Aqueles que fazem história vão para os livros, praças e ruas e podem ser lembrados por mais tempo, mas não pela eternidade, pois é muito pouco, pois sou pouco otimista de que teremos vida na terra nos próximos 100 ou 200 anos.
E foi no poema Elegia 1938, que o poeta Drummond escreve: Caminhas entre os mortos e com eles conversas/ Sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito. E assim, a morte se torna companhia para os poetas, filósofos e teólogos, sempre com a pergunta: “Haverá vida depois?”. Nossos mortos nunca responderam e os seres humanos só encontram conforto nas palavras dos livros religiosos. Para os que creem, isso basta. Para aqueles que não creem resta o conforto da ciência: “Viveremos para sempre no DNA dos nossos descendentes, desde que os tenhamos”. Com bom humor Millor Fernandes assim se manifestou sobre a descoberta de múmias de três mil anos descobertas no Egito: “A morte pode não ser eterna, mas que dura muito tempo ninguém pode duvidar”.


UMA CACHAÇA DA BOA


Já estava perto do horário de almoço, quando chegou ao balcão do bar um homem de uns quarenta anos, se muito. Bem educado, perguntou pro Manoel, proprietário do bar se ele tinha uma cachaça da boa, daquelas de alambique pequeno, artesanal. “Mas tem que ser da boa mesmo, pois na minha terra é que tem cachaça de verdade. Sou lá de Minas, Salinas, a terra da cachaça, conheces”?
Manoel não conhecia Salinas, mas tinha uma cachaça de um fornecedor pequeno, mas de excelente qualidade, explicou orgulhoso. “Só ofereço pra quem entende, não é pra qualquer gajo”, disse no seu sotaque lusitano pegando uma garrafa na prateleira.
- Se é boa mesmo, então pode servir que eu quero provar, disse o estranho.
Ao encher o cálice, o aroma da cachaça impregnou o ambiente, deixando o homem entusiasmado. Nisso ele oferece a bebida para uns três frequentadores do bar, que prontamente aceitaram a oferta, diante do olhar incrédulo do Manoel.
- Pode servir, por favor. E faço questão que o senhor também brinde com a gente. Mais um copo para o senhor.
Manoel que não era dado a beber no trabalho ficou desconfortável, mas diante da insistência do cavalheiro aquiesceu. Brindaram e saborearam a boa cachaça, cuja garrafa custava três vezes o preço da comum. Terminado o brinde, o homem simplesmente agradeceu ao dono do estabelecimento e saiu sob o olhar estupefato de Manoel que ainda ameaçou gritar para sujeito.
No dia seguinte, na mesmo horário lá estava o homem novamente. Encostou a barriga no balcão, cumprimentou a todos e perguntou para Manoel: “Ainda tem daquela cachacinha boa”? Manoel pensou duas vezes na resposta e já ia dizendo: “Tem, mas pra quem pode pagar”, mas ficou só no pensar. Com os bofes remoendo respondeu secamente: “Ainda tenho cá, mas é muito mais cara”.
Pois então sirva pra nós e faço questão que o senhor também tome um trago, pois é merecido. Manoel engoliu a seco e repetiu o mesmo ritual do dia anterior servindo para os outros fregueses e para si mesmo. O homem levantou o brinde e bradou: “Saúde pra todos”. Agradeceu e já ia saindo do bar quando Manoel o alcançou e disse lá alguns impropérios. O homem, muito educadamente pediu que ele se acalmasse e que não havia necessidade de exaltação.  Mesmo assim, não pagou e seguiu seu caminho para o desgosto do velho português.
Mas no terceiro dia, eis que novamente o cavalheiro aparece à porta do estabelecimento, tira o chapéu, cumprimenta a todos e pede novamente a prestigiada cachacinha. Manoel se preparou para o pior. Hoje esse sujeito não me escapa, pois, pois.. pensou lá com seus botões. A cachaça foi servida ao homem, que ofereceu para uns três ou quatro, que aceitaram prontamente. Afinal não era sempre que tinham a oportunidade de saborear uma iguaria como aquela.
Faltava apenas oferecer ao Manoel, quando o homem disse bem humorado: “Pro senhor não, pois quando bebes ficas muito bravo.”.
E mais uma vez saiu em direção à porta, sem pagar a conta.






UM CRIME QUASE PERFEITO

Todas as sextas-feiras ele fazia serão. Ligava para Margarete e dizia que tinha uma reunião de final de semana para acertas os detalhes para a segunda feira. Além disso, sempre dizia, “vou para o happy hour com o pessoal do escritório”. Em verdade, era tudo conversa fiada. Margarete sempre acreditava ou fazia de conta, pois por mais que procurava se enganar, o cheiro de perfume de mulher nas roupas dele era indício de que havia algo mais do que um inocente happy hour com a turma do escritório. Mas ela era uma mulher conformada com a vidinha que levava. Não faltava nada em casa. Podia comprar suas coisinhas, ir ao cabelereiro, fazer as unhas e ainda tinha a sua mãe que morava com eles e os filhos. Nestor era um bom marido e não havia do que reclamar.
Na sexta-feira ele chegava por volta das onze e meia. Tomava um banho rápido e caia na cama, pois no sábado, bem cedinho, tinha o compromisso de ir com a família para a chácara em Ibiúna. Era uma rotina. Levantavam cedinho, mulher, crianças e a sogra no carro e pé na estrada. Mas neste sábado alguma coisa parece que estava dando errado. Viu um sapato de salto alto embaixo do banco do passageiro.
Começou a suar frio. Será que a Doroty, sua secretária, tinha bebido demais e esquecera o sapato no carro. Não é possível que ela tenha aprontado essa comigo, pensou com seus botões. Ela estava mesmo alta e estava com um sapato na mão. Será possível que a cretina largou o outro pé no carro? Calma, calma Nestor. Nada de desespero, que não vai resolver o problema. Maquinou uma solução. Distraiu a Margarete, pegou o sapato e o colocou do seu lado e ficou esperando uma oportunidade para distrair o pessoal, quando viu uma fazenda com o gado pastando num lugar bucólico.
- Olha que interessante esse lugar!  Disse apontando para o lado direito.
Todos olharam e ele, matreiramente, jogou o sapato pela sua janela. Ainda bem que ninguém viu, pensou. Doroty que se vire sem o sapato. Tudo bem eu compro um par novo para ela. O importante é que ninguém viu. Sentiu-se aliviado. Era outro homem. Nunca, nunca mais vou permitir que ela faça isso comigo novamente. Acho que nem vou mais sair com ela. Vou acabar com esse relacionamento. A Margarete não merece isso.  Onde já se viu deixar a marca do crime em meu carro! Não queria magoar a Margarete, pois era uma boa esposa, recatada e do lar. Não era nem ciumenta. Um amor de mulher. Devia dar graças a Deus...
- Não vamos dar uma parada Nestor? O posto já está perto. Avisou Margarete.
- Claro, claro, querida. Vamos parar sim.
Nestor estacionou o carro e desceu. Deu uma espreguiçada e olhou o horizonte enquanto o pessoal saia do carro. Nisso ouviu sua sogra gritando.
- Cadê meu sapato? Onde está meu sapato? Eu tirei aqui no carro. Estava aqui, nos meus pés.