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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

UMA CACHAÇA DA BOA


Já estava perto do horário de almoço, quando chegou ao balcão do bar um homem de uns quarenta anos, se muito. Bem educado, perguntou pro Manoel, proprietário do bar se ele tinha uma cachaça da boa, daquelas de alambique pequeno, artesanal. “Mas tem que ser da boa mesmo, pois na minha terra é que tem cachaça de verdade. Sou lá de Minas, Salinas, a terra da cachaça, conheces”?
Manoel não conhecia Salinas, mas tinha uma cachaça de um fornecedor pequeno, mas de excelente qualidade, explicou orgulhoso. “Só ofereço pra quem entende, não é pra qualquer gajo”, disse no seu sotaque lusitano pegando uma garrafa na prateleira.
- Se é boa mesmo, então pode servir que eu quero provar, disse o estranho.
Ao encher o cálice, o aroma da cachaça impregnou o ambiente, deixando o homem entusiasmado. Nisso ele oferece a bebida para uns três frequentadores do bar, que prontamente aceitaram a oferta, diante do olhar incrédulo do Manoel.
- Pode servir, por favor. E faço questão que o senhor também brinde com a gente. Mais um copo para o senhor.
Manoel que não era dado a beber no trabalho ficou desconfortável, mas diante da insistência do cavalheiro aquiesceu. Brindaram e saborearam a boa cachaça, cuja garrafa custava três vezes o preço da comum. Terminado o brinde, o homem simplesmente agradeceu ao dono do estabelecimento e saiu sob o olhar estupefato de Manoel que ainda ameaçou gritar para sujeito.
No dia seguinte, na mesmo horário lá estava o homem novamente. Encostou a barriga no balcão, cumprimentou a todos e perguntou para Manoel: “Ainda tem daquela cachacinha boa”? Manoel pensou duas vezes na resposta e já ia dizendo: “Tem, mas pra quem pode pagar”, mas ficou só no pensar. Com os bofes remoendo respondeu secamente: “Ainda tenho cá, mas é muito mais cara”.
Pois então sirva pra nós e faço questão que o senhor também tome um trago, pois é merecido. Manoel engoliu a seco e repetiu o mesmo ritual do dia anterior servindo para os outros fregueses e para si mesmo. O homem levantou o brinde e bradou: “Saúde pra todos”. Agradeceu e já ia saindo do bar quando Manoel o alcançou e disse lá alguns impropérios. O homem, muito educadamente pediu que ele se acalmasse e que não havia necessidade de exaltação.  Mesmo assim, não pagou e seguiu seu caminho para o desgosto do velho português.
Mas no terceiro dia, eis que novamente o cavalheiro aparece à porta do estabelecimento, tira o chapéu, cumprimenta a todos e pede novamente a prestigiada cachacinha. Manoel se preparou para o pior. Hoje esse sujeito não me escapa, pois, pois.. pensou lá com seus botões. A cachaça foi servida ao homem, que ofereceu para uns três ou quatro, que aceitaram prontamente. Afinal não era sempre que tinham a oportunidade de saborear uma iguaria como aquela.
Faltava apenas oferecer ao Manoel, quando o homem disse bem humorado: “Pro senhor não, pois quando bebes ficas muito bravo.”.
E mais uma vez saiu em direção à porta, sem pagar a conta.






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