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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

PAI REVISITADO

Sinto saudade
Dos bons e maus momentos
Que vivemos juntos
De quando ele era um herói
Daqueles invencíveis!
De quando não era nada
Apenas um velho fraco
Sem esperanças
Sem futuro

Sinto saudade
Daquilo que ele foi
E daquilo que não foi
Daquilo que queria ser
E daquilo que pensava ser

Sinto saudade
Das mãos ásperas
Da barba por fazer
De sua força
E de suas fraquezas

Sinto saudade
Do que poderia ter sido
E do que não foi
Daquilo que pensei que era
E daquilo que pensei que não era

Sinto saudade
De suas mãos seguras
Desafiando o tempo
Os perigos
As incertezas

Sinto saudade
E sinto dor
A dor da ausência
A dor que se finge ter
Mas que ainda sinto
Não a dor que sufoca
Mas a dor que enternece
Que molha os olhos
Que umedece a alma





MINHA CASA

A minha casa
É onde eu passo as noites
Noites de sono
De insônia
Em cada parede
Em cada tijolo
Em cada madeira
Uma história
Uma poesia
Concreta
Cimento, pedra
Tijolo e água.
As mãos do meu pai
Em cada espaço
E seu suor ainda escorre
Umedecendo as paredes
os ossos
os olhos
o passado e
o futuro
E todas as noites
Do tempo passado
Para lá retorno
Um retorno de tempo presente
de dor
de nostalgia
de amor.
Oscar Niemeyer

Traça suas linhas curvas
Na linha do horizonte
Buscando no finito
As linhas do tempo
Que traçam curvas sinuosas
E perigosas.

Mas o arquiteto
Que também é poeta
Traça com palavras
Com traços
Com espaços
Esparsos
O concreto da sintaxe
Na pedra.

O tempo é inexorável
A vida luta contra ele
Mas em vão...
O tempo infinito
E a vida tênue
Mas o arquiteto desliza
Nas curvas que cria
Desafiando o espaço
E o tempo.

O arquiteto
Arrasta-se em seu corpo
Traçando as suas linhas
Na curva sonolenta
Do tempo
Perseguindo o horizonte
Sempre um plano
Uma reta inacabada.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

São Paulo em prosa e verso

São Paulo em prosa e verso

São Paulo tem seus encantos. Muitos podem não concordar, mas é uma cidade sedutora em suas contradições arquitetônicas, sociais e culturais. Pode-se comer um bom prato árabe, uma magnífica macarronada ou inconfundíveis pizzas. Já ouvi de italianos que as melhores pizzas do mundo são feitas em São Paulo. Haveria motivo maior para nos orgulharmos desta cidade imponente, aristocrática, miserável, paradoxal e global, tudo ao mesmo tempo? Mas não é uma cidade para iniciantes. É preciso, antes de mais nada, saber olhar a cidade nas suas “entrelinhas”, saborear a sua intimidade meio italiana, meio nordestina, meio africana e, sobretudo meio portuguesa, pois é a presença ibérica que predomina, que dá o seu tempero final no cadinho de culturas.
Para ver São Paulo é preciso mais do que andar pelas suas ruas, praças, avenidas. Talvez seja preciso pegar um cinema, comer uma pizza com alguns copos de chopes bem tirados e sair perambulando, sem hora para chegar nem voltar. Se tiver companhia, vai ser bom, mas com você mesmo talvez seja até melhor. Um pouco de introspecção, falando baixinho, remexendo na memória de outros tempos. Quem sabe entrar em um daqueles bares da Avenida São João e ainda encontrar os personagens da canção do Vanzolini, na bela e nostálgica Ronda? Também vale a pena percorrer a Avenida Ipiranga e parar alguns momentos na esquina com a São João e assobiar a canção do Caetano e sentir um clima de poesia, de decadência urbana, de desassossego e de desesperança. A Praça da República, repleta de pessoas procurando algum sentido para a noite, alguns procurando algum sentido para a vida, outros apenas um cantinho para dormir ou esperando encontros nunca marcados. Prostitutas, homossexuais, crianças abandonadas, pregadores religiosos, vendedores ambulantes, traçam um perfil humano e desumano de uma cidade de exclusões.
Depois de perambular por horas e horas, sem medo de ser feliz, sem orgulho, olhando as pessoas nos olhos, recusando as ofertas de corpos a preços vis, valeria a pena terminá-la na velha Estação da Luz. Sob o pretexto de aguardar a abertura da bilheteria, seria recomendável se espreguiçar num daqueles belos bancos de madeira maciça e cochilar até a chegada do primeiro trem do subúrbio. O Trem das Onze do Adoniram é uma boa pedida para acompanhá-lo, mesmo que não vá para o Jaçanã, cuja estação não existe mais. Para ficar mais emocionante, imagine que sua mãe está a sua espera, ansiosa e preocupada, rezando dezenas de ave-marias para protegê-lo dos perigos demais desta cidade.
Como alternativa que, sem dúvida, proporcionaria um êxtase inesquecível, continue caminhando e fique sobre o viaduto do Chá até que os primeiros raios de sol comecem a surgir no horizonte. Você verá que poucos estarão nas ruas, principalmente se for um domingo, mas rapidamente um turbilhão de gente estará pronta para movimentar a grande cidade despertada para o amanhecer. Você sentirá o renascer da metrópole, o pulsar da vida que se esconde atrás da neblina e da fumaça que embriaga os sentidos. A imaginação é sua e você pode, se for alguém persistente, ver ao longe, numa das avenidas, uma banda se aproximando com os seus metais. Quem sabe uma Carolina apareça numa das janelas de um sobrado esquecido entre os arranha-céus, para ver a banda passar! Tudo é possível em São Paulo, até o improvável, o utópico, o absurdo.
Quem disse que esta cidade não tem poesia? Tem e muita, mas é preciso olhar com os olhos da noite, com os olhos da madrugada e do amanhecer. É preciso, antes de tudo, estar preparado para vê-la. Como já disse, São Paulo não é para principiantes, como os visitantes apressados em busca de negócios ou turistas em busca de novidades, querendo consumir tudo o mais rapidamente possível. Nossa cidade precisa ser seduzida, bem “cantada” para que role alguma coisa encantadora, como uma noite de amor, com muita poesia. A nossa São Paulo não é também para aqueles que aqui nasceram (ainda que arvorem seus direitos) e que não perdem um fim de semana ou um feriado prolongado para fugir dela. Pobres e infiéis amantes, que não sabem o que perdem, pois buscam em braços alheios aquilo que têm em casa. Para conhecer essa paulicéia desvairada, tão bem cantada por Mário de Andrade, é preciso ser um pouquinho antropólogo e confundir-se com ela, conhecer suas virtudes, seus pecados, suas dores, suas crenças, seus valores, suas línguas (e são muitas!) e suas culturas. Nada de preconceitos bobos, esteja aberto como uma criança solta no campo – para o que der e vier.

Renato Ladeia, 25 de janeiro de 2008

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

São Paulo: ecoam passos na memória

São Paulo: ecoam passos na memória.


Não nasci na cidade de São Paulo, mas é como se tivesse nascido. Vindo do interior com dois anos de idade e tenho a vaga impressão de que abri meus olhos pela primeira vez diante daquela imensidão de prédios. Ali é o Martinelli, meu filho! Olha que grande! Dizia meu pai orgulhoso de estar na maior cidade do Brasil. Atravessávamos o viaduto do Chá e víamos aquele vale imenso para meus olhos de menino. Tomávamos o bonde que cortava ruas arborizadas e naquela época ainda pouco movimentadas, onde homens e mulheres elegantes transitavam apressados. São Paulo não pode parar! Era o lema seguido por todos. A ideologia do movimento contínuo em busca do progresso. Os forasteiros também eram cooptados rapidamente e saiam freneticamente em busca do “ouro”. Italianos, portugueses, japoneses, mineiros, paranaenses, nordestinos de todos os matizes se transformavam rapidamente em paulistanos no ritmo de trabalho, no desejo de vencer, no jeito de andar, ao adotar um time de futebol e na cerveja preferida.

O velho Mappin onde compramos nossa primeira televisão, uma Invictus que raramente saia do conserto, era uma referência. As prestações eram sagradas e todos os meses lá estava eu com meu pai para fazer o pagamento. Subíamos a General Carneiro, passávamos pela Rua Direita com a sua elegante Casa Kosmos e atravessávamos o viaduto do Chá. Uma enxurrada de gente vindo de todos os lados e a mão firme do meu pai me guiava, enquanto meus olhos se perdiam entre os prédios e lojas. Nada tão encantador como o teatro municipal, com sua arquitetura imponente, mais parecendo um grande palácio. Não menos encantador aos meus olhos era a velha estação da Luz, com sua arquitetura inglesa do final do século XIX. Meus olhos se deliciavam impressionados com as escadarias, com os enormes bancos de madeira maciça, os corrimãos de ferro e os funcionários com seus uniformes que pareciam impecáveis (ou não eram?).

Depois, já adolescente, percorria as ruas do centro, passando horas nas livrarias, principalmente na Brasiliense, na Barão de Itapetininga, onde, em pé, conseguia a proeza de ler um ou mais capítulos de algum livro interessante, até que os vendedores me intimassem a desocupar o espaço. Os croquetes na Salada Paulista, na Avenida Ipiranga, imortalizada por Caetano Velloso, eram imbatíveis, mesmo saboreando-os em pé, sem nenhum conforto. A Esfiha aberta, regada a limão num restaurante na São João, era o prenúncio dos fast-foods a lá árabe, programa imperdível aos sábados depois do cinema. A velha cidade dos cines Gazetinha, Belas Artes, Bijou, possibilitou encontros inesquecíveis com Buñel, Costa Gravas, Bergman, Kurosawa entre outros.

E o futebol! Quantas lembranças! Nas belas tardes paulistanas ensolaradas de domingo, atravessávamos a cidade para chegar ao Pacaembu. O coração batendo forte e só acreditava mesmo depois de estar sentado nas arquibancadas podendo avistar o grande tapete verde onde poderia ver o craque do século, o Pelé jogar contra meu pobre e sofredor Corinthians. Eram momentos inesquecíveis e hoje tenho coragem de confessar: torcia pelo Pelé fazer as suas jogadas de mestre, mesmo contra o meu time. Todas as vezes que fui assistir Santos x Corinthians, graças ao meu padrinho que vinha do interior todos os meses só para ver o rei jogar, o meu time perdia e eu não sabia se ficava triste ou alegre. Mas como nunca fui alegre nem triste, valia mesmo a aventura.

Anos depois, em plena ditadura, lá estava eu de novo participando de comícios, passeatas e bradando contra a ditadura insensível, contra o medo. As palavras de ordem, o pavor da polícia secreta, amigos mortos, amigos torturados e esperanças perdidas. Era uma cidade que exalava terror e sempre havia a impressão de que os homens do temível Deops estavam em todas as esquinas farejando como cães de caça, algum possível inimigo do regime. Era quase um clima kafkiano, pois as pessoas se sentiam perseguidas, acuadas, espionadas. Às vezes alguém, no meio da praça, começava a falar alto criticando os militares. Cuidado! Diziam os mais experientes. São agentes disfarçados para atrair incautos. A cidade parecia triste aos meus olhos, mas não era aos olhos de todos. Aos olhos distantes, não comprometidos, ela seguia seu rumo, em direção ao progresso contínuo. Um prefeito, desses nomeados, ousou dizer: “São Paulo precisa parar”. Ele encerrou sua carreira política mais cedo pelo “sacrilégio”. Mas a ditadura passou e nossa cidade continuou seu caminho. Só não sei se ficou mais democrática, mas talvez mais libertária, mais anárquica, mais doida, mais desvairada.

Hoje com milhões de carros despejados em suas ruas, a cidade tornou-se mais dura, mais mecânica, mais impessoal, mais suja, mas ainda é possível descobrir alguma beleza que insiste em fazer-se notar apesar de tudo. Num destes dias, perdido no centro velho, olhando do prédio da Unesp, na praça da Sé, pude experimentar o êxtase de ver, ainda que sutilmente, uma bela paisagem, mesmo que machucada por anos a fio. A cidade parecia dizer ao menino que ainda a tinha na memória: “Eu estou aqui. Tenho pouco a lhe dar, pois me tiraram quase tudo. Mas o que me resta, ainda é de todos, e eu não me importo em dividir”.

Ainda ecoam passos na memória, sons que se perdem nos labirintos, como a música Quarto Centenário, que eu, menino do interior, perdido na cidade grande, ainda ouço. Música que parece renascer para os meus sentidos como o dia da redenção da pequena vila que se tornou o ponto de encontro de milhões de seres humanos. Pessoas vindas de todas as partes do mundo, com inúmeras línguas e culturas, contracenando numa intensa torre de babel como num teatro cotidiano. Enfim, uma cidade que se pretende democrática, excludente, humana, desumana, solidária, egoísta, pacífica, violenta, global e paradoxal.

Brincando de poesia

POESIA, PRA QUÊ?


Afinal para que serve a poesia? Ninguém tem respostas definitivas, mas ela é necessária, é fundamental para que possamos sobreviver ao caos do mundo. É necessária porque é uma reflexão do cotidiano sob uma perspectiva muito pessoal, subjetiva. E através dessa reflexão é possível ver o mundo sobre outra perspectiva. A perspectiva de quem busca a beleza, o amor e a solidariedade humana.

Ninguém precisa da poesia no sentido pratico, mas necessita para manter um equilíbrio com o mundo material, desumano e competitivo. Necessita para se relacionar com a vida através das fantasias, do faz de conta.

Esse trabalho não tem a pretensão de desvendar os mistérios mais recônditos da vida, mas apenas proporcionar aos poucos leitores e de preferência as crianças, um pouco de ternura, de carinho e de amor pela fase mais importante da existência. É nesta fase da vida que o ser humano se identifica com as coisinhas mais simples, com a natureza, com as formas, com a beleza do cotidiano.


Espero que as crianças gostem do trabalho e o divulguem, reescrevam os textos da forma que acharem melhor. Caso não apreciem os poemas aproveitem o papel e desenhem. e pintem com lápis de cor.


Um beijão.

Renato Ladeia



VENTO ATREVIDO



VENTO atrevido
Bateu no telhado
Saiu pela porta
Todo amassado.

Vento atrevido
Bateu na careca
Mexeu nos bigodes
Do velho engraçado

Vento atrevido
Levou o mosquito
Balançou a teia
Levou um pito.

Vento atrevido
Não fuja de mim
Me leve para longe
Para lá do sem fim.









PERNILONGO




PERNILONGO vá embora
Não deixe meu sono
Perder a hora..

Pernilongo saia daí
Vá pra sua casa
Fazer xixi.

Pernilongo que foi que eu fiz
Saia já
Do meu nariz.

Pernilongo não faça zumbido
Bem em cima
Do meu umbigo.

Pernilongo não faça zum zum
Bem em cima
Do meu bumbum.







MANÉ CARPINTEIRO


MANÉ Carpinteiro
Cadê seu enxó?
Que cortou meu pinho
Num talho sem dó.

Mané Carpinteiro
Cadê seu serrote?
Que cortou meu cedro
Num profundo corte.

Mané Carpinteiro
Cadê seu formão?
Que cortou minha embuia
Por nada, em vão.

Mané Carpinteiro
Cadê sua mão?
Que corta sem pena
Sem muita razão.





A CHUVA CAINDO...
A CHUVA caindo
No pé da roseira
No pé da Rosinha
A noite inteira.

Os pingos da chuva
Na cumeeira
A aranha acorda
A família inteira.

Tecendo a teia
Pra pegar mosquito
Menina que susto!
E solta um grito.

A chuva caindo
No quintal do vizinho
Passarinho piando
Molhou seu ninho.

A chuva caindo
Molhou meu pé
Telhado quebrado
Cadê o Zé?

Zé Carpinteiro
Fugiu do trabalho
Dormiu no terreiro
Jogando baralho.

A chuva caindo
Molhou meu sossego
Não há ventania
Não tenho mais medo.







EU ERA MAIS EU



EU era mais eu
E lá íamos os dois
Pela rua afora
Preso a sua mão
Forte como um leão.

Eu era mais eu
E lá íamos nós
Desafiando o vento
Tentando aprender
Os mistérios do tempo.

Eu era mais eu
E fui sozinho
Buscar meu caminho.

Eu era mais eu
Com ele
Mas ele se foi
sozinho
Deixando o menino
Que ainda busca
Seu próprio caminho.










IBERÊ OU CAUÊ?

Para Iberê e Cauê Thenório

CADÊ o menino?
Tão triste assim.
Cadê seu canto?
É do sem-fim.

Cadê o menino?
Fugiu de mim.
Cadê seu sonho?
Está no jardim.

Cadê o menino?
Ele está lá
Tocando a flauta
Pra sabiá.

Cadê o menino?
Não está aqui
Fugiu pro sol
Num bem-te-vi

Hei menino!
Cadê você?
O passarinho
Falou seu nome
É Iberê ou é Cauê.













MARIANE




QUERO sonhar
Nos sonhos seus
As marcas do meu tempo
Que a vida não curou.

Quero sonhar
Todos os sonhos seus
Quero buscar
Na luz dos olhos seus
As estrelinhas
Que ainda não apagaram em mim
E que ainda vão brilhar
Mais do que tudo, enfim.













ARCO-ÍRIS



NA vidraça
Gotas de chuva
Brilham pra mim.

O vento fustiga
Meu pé de manacá
Meus olhos chamam
Vem cá, vem cá...
arco-íris
Venha me pintar.

As cores do arco-íris
Atravessaram a vidraça e
Coloriram meus sonhos
Do lado de lá
Bem atrás
Do pé de manacá..








PAPAI NOEL



CONTA pra mim
Quem é o velho
De barbas brancas
Sorriso maroto
E olhar de garoto.

Quem é o velhinho?
Se eu soubesse
Ah! não contaria...
Pois há segredos
Que só as crianças
E um velhinho
Podem entender.









BRIGA NO JARDIM


SEU Mané, o jardineiro
Plantou um alecrim
Ao lado da laranjeira
Vizinha do Seu Jasmim.

Que falta de respeito
Reclamou o seu Jasmim
Aqui não quero planta
Com cheiro tão forte assim.

Laranjeira já em flor
Sua força quis valer
Briga não quero aqui
Pois laranjas quero ter.

Seu Mané preocupado,
Na briga logo deu fim
Mudou as plantas birrentas
Para o fundo do jardim.






A VIZINHA


MINHA vizinha
Tão bonitinha
Se chamava Mariazinha
Tinha as pernas tortas
Os olhos esbugalhados
e focinho de tainha.

Mas ela tinha
Um vestidinho
azul de bolinhas,
cabelos longos
e trancinhas.

Seu olhar
Era triste e doce
Eu suspirava
pela vizinha
Que era magrinha
Que era vesguinha
Que era pintadinha
Tinha piolho de galinha
E nunca, nunca
olhava pra mim.







O HOMEM MAU

UM homem mau
Que gostava de passarinhos
Não sorria
Não cantava
Só xingava...

Ele amava
Bem-te-vis, rolinhas e sabiás
Mas não queria crianças
Perto do seu pé de araçá.

As crianças
Amavam os passarinhos
E tinham medo
Do velhinho
Que era feinho
Que era chatinho.










BOLA NA RUA


O SOL torrava
O meio dia na rua
Pelos pés descalços
A bola deslizava
No mundo da lua.

O mundo era isso
Bola no pé
Bola no gol
E tudo se encantava
A bola voava
A gente também.
Voava pra longe
Pra muito além
da bola no pé
Pra um grande reinado
Onde todos
Eram Pelé.












MEU AVÔ


MEU avô
Fumava cachimbo
Usava chapéu
Tocava viola
Fazia desenho
Troçava com a Dora
Vivia no céu.

Um dia
Pegou a mala
Pôs o chapéu
Pegou o cachimbo
Pôs fogo no fumo
Pegou a viola
E foi pro beleléu
Pra lá do céu.







CARTEIRO ZÉ


CASA amarela
Um dois três
Feijão na panela
Bolo no forno
Olho na janela.

Cachorro latiu
Vá ver quem é
Chame a mamãe
Chame a Zezé.

A carta chegou
Bem no café
Carteiro festeiro
Chamado zé.
Gritou no portão
Dizendo: olé!






O CHAPÉU DO VOVÔ

O CHAPÉU do vovô
Criou asas e voou.

O menino que viu tudo
Logo se calou.

O chapéu do vovô
Criou pernas e andou.
O menino que sonhou
Tampouco acordou.

Mas a gatinha gigi
Logo se escondeu
Pois fez xixi
Na cama que o menino deu.








FOGUEIRA

FOGUEIRA estalando
A carne assando
Menina assanhada
Cintura rebolando.

O fogo queimando
Menina pensando
Olhando pra nada
O mundo girando.

Namora na esquina
Mamãe xingando
Sol muito quente
Cabeça esquentando.

Fogueira que queima
O pau da aroeira
Chama meu amor
Atrás da amoreira.




AQUARELA

TINTA amarela
Que pintou a janela
Pinte o sol
E a cara dela.

Tinta rosa
Que pintou a certeza
De que a alegria
É melhor do que a tristeza.

Tinta carmim
Pinte o jardim
Pinte meu sonho
Juntinho de mim.

Tinta azul
Pinte o vento
Que passa correndo
Rumo ao sul.

Tinta verde
Pinte a floresta
Pinte um sonho
Do pouco que resta.






A BORBOLETA AZUL

A BORBOLETA azul
Na careca do vovô
pousou
Ele dorme um sono bom
E com a borboleta
já sonhou.

A borboleta azul
Voou pro telhado
Mas no sonho do vovô
Brincou um bocado.

Os sonhos do vovô
E da borboleta azul
Espreguiçam
na tarde imensa
A tarde azul
.....................
Que não tem mais fim.








PAU BRASIL
Cadê o pau?
Cadê o índio?
Cadê o rio?
Cadê você?

O Pau Brasil
O fogo queimou
O índio, a febre matou
O rio, alguém sujou.

Cadê o Brasil?
Cadê o país do pau?
Alguém roubou
Alguém secou
Alguém queimou.

Cadê minha sabiá?
Que não tem palmeira
Nem pau
Pra cantar.
Cadê minha estrela?
Que era para a vida inteira.
Cadê o país viril?
Cadê o Cruzeiro do Sul?
Cadê meu céu de anil?
E o meu povo varonil?


O TREM

O TREM vai, vai, vai
Café com pão,
manteiga não...
Vai embora
Vai embora
Lenha na fornalha
Fogo se espalha.

Passa boi
Passa invernada
Passa boiada
Passa estação
Passa velho
Passa gavião
Passa rio
Passa riacho
Passa mata
Passa passarada
Passa nada.

Dorme menino
Dorme
Que já vem,
Que já vem
Que já vem...

ENTÃO EU QUERO...
(Para Paulinho Henrique S.Silva)
PAPAI cadê o serrote?
Não sei, mas está sem corte.

Cadê o martelo?
Está com seu Carmelo.

Cadê o enxó?
Pus no saco de filó.

Cadê a chave de fenda?
Esqueci na venda.

E o arco-de-pua?
Perdi na rua.

E a pá?
Esqueci de limpar.

E a enxada?
Não está afiada.

E o formão?
Emprestei pro seu João.

Então conta uma história
Não posso,
perdi a memória.

Então canta uma canção
Não posso,
quebrei o violão.
Então eu quero dormir e pronto.


MAGIA

QUANDO o eu era
Meio mágico
Meio Óz.
Uma sabiá
Atravessava minha vidraça
Sem quebrar...
Pousava em minha mão
E cantava e falava...
Coisas que nem penso
Contar ou cantar.
Coisas de passarinhos
Coisas de menino.
Tínhamos segredos.
Eu lhe contava
Minhas mágicas secretas
Ela ouvia, pensava
Cantava, cantava.
Depois voava, voava
Além da vidraça
Além da rua
Além dos sonhos
Além da lua.






O CAVALINHO BRANCO

O CAVALINHO branco
Galopa, galopa
(pacatau, pacatau)
Pela estrada sem fim.
Vai cavalinho manco
Bicho papão
Está atrás de mim.

Cavalinho branco
Mansinho como ele só
Faz poeira na estrada
Cansado que faz dó.

Voe, voe cavalinho
Atravesse o arco-íris
Vai cavalinho, vai fundo
Há um pote de ouro
No outro lado do mundo









O VAGA-LUME


O VAGA-LUME
sorrateiro
Estava espreitando
Meu sonho.

Piscou, piscou
Vagou, vagou
E iluminou
A noite adentro.

O menino
não dorme com luz
A mãe vem
ver de perto.
A verde luz.

Vaga, vaga luz
Os sonhos vagalumem
No caminho da sombra
Vagando os lumens
Para além dos sonhos.





CADÊ O TOM?

CADÊ o Tom?
Está no piano
Procurando o tom
Pra tocar Gabriela
Que tristonha
Está na janela..

Cadê o Tom?
Foi ver matitaperê
Cantando no jequitibá
Para o menino Cauê..

Cadê o Tom?
Pegou a viola
Foi pra fora
Tocar Sabiá
Que já voou
Pro lado de lá.

Cadê o Tom?
Está no telhado
Tocando flautim
Pirulin, Pirulin, lin, lin.

Cadê o Tom?
Foi com o anjinho
Tocando flautim
Subiu no telhado
Viajou com o sem-fim.

Cadê o Tom?
Já foi pra lá
Mas vai voltar
Para ver de novo, sua sabiá.







TIO BOIADEIRO
Meu tio tocava boi
Tocava boiada
Tocava berrante
Tocava toada
Lá longe
Na invernada.

Cavalo bravo
Passo picado
Trote ligeiro
Moça bonita
Olhar perdido
No terreiro.

Capa gaúcha
Bota e espora
Chapéu
bombacha
Já foi embora.

MENINO JESUS

Na minha rua
Havia um menino Jesus
Era pobrezinho e feio.
Em sua casa não havia luz.

Na minha rua
Que ficava no Belém
Um faminto menino
O Jesus,
Não tinha pai,
Nem mãe, também.

Na minha rua
Morava
O Jesus menino
E o padre não queria
Que ele tocasse o sino.

Na minha rua
Caiu um balãozinho
Como uma estrela
Queimando a casa inteira
Do nosso Jesus,
o menininho.

Na minha rua
No alto fogaréu
O nosso menino subiu
Para o céu azul
E nunca mais ninguém viu
O nosso menino,
que se chamava Jesus.






BRIGA NA RUA

Com música do Edson Zéca


O homem cava um buraco
na rua.
Um cão vadio,
Achando graça,
Joga terra no buraco.
O homem
Sem paciência,
Joga terra no cão.
O cão nervoso
Late, late
O homem grita,
O cão rosna.
Aparece o menino
Que põe panos quentes
Na confusão.










SEU GENARO


O velho carcamano
Que morava no fim da rua
Tropeçou, quase caiu.
Andava no mundo da lua.

O chapéu voou longe
Lá fui eu pra pegar.
Caiu no quintal da Bruxa,
Eu é que não entro lá.

Seu Genaro, carequinha,
Ficou preocupado.
O chapéu veio da Itália
Quem trouxer ganha um agrado.

Balas e chocolates
Seu Genaro prometeu,
Mas seu lindo chapéu
O cachorro já comeu.









PIPAS NO AR


OS PAPAGAIOS,
pipas e capuchetas,
Coalhavam o céu azul...
Coloridos no ar, dançavam.

O mundo era assim...
Todos voavam, voavam...
E os pensamentos não iam além
Das pipas amarelas.

Mas que voavam, voavam...





















SEU PEDREGULHO


0 PEDREIRO
Quebra pedra.
Põe pedra sobre pedra
E massa sobre pedra.
É pedra sobre pedro,
Que é o seu nome.

Pedro, Pedro Pedregulho,
Filho do Seu Pedrão.
E tem uma filha
Que se chama Pedra
Ou Pêdra?

















A CARROÇA



A carroça rangeu
Na rua do Rangel.
Um barulhinho chato
Que deixou a gente danada,
Acordou as crianças
E também a cachorrada.

A nossa rua
virou um pandemônio,
Até xingaram
a mãe do carroceiro
Que nada entendeu
Pois era Japonês.

Ainda bem...
Pois era nome feio
Dito em bom português.











A LUA


Na lua, São Jorge
Sempre lutando
Com o terrível dragão.
Quando o homem foi à lua,
Não encontrou o santinho,
Tampouco o dragão.
Trouxeram
um monte de pedras,
Que triste decepção.





















A ERA DO RADIO



Antes da televisão
Ouvia histórias pelo rádio.
Não me lembro das vozes,
Mas me lembro,
E como!
Das imagens que eu criava.
E minha cabeça viajava
Muito mais longe
Bem pra lá da televisão.





















QUE REMÉDIO!


Eu brincava, brincava.
Fazia pontes e cidades.
Meu caminhãozinho
Deslizava...

Enfrentava terríveis estradas
E o tempo passava, passava.
Mas a hora do almoço
Sempre era antes do tempo,
E a Emulsão de Scott
(Óleo de Fígado de Bacalhau)
Trazia-me para o mundo real.


















A CASA DO PADRE


A casa do padre
Ficava
Na rua que subia,
Mas não descia...

Tinha no quintal
Um cata-vento
E muitas flores.
Eu matutava,
matutava...
Sinistros acontecimentos.

A casa do padre
Espalhava mistérios
Em minha imaginação.













NO CAMINHO DA ESCOLA



“No caminho da escola
Tinha um atalho,
Tinha um bosque,
Tinha passarinho
Tinha um rio”.

Menino!
Isso não é uma composição
Disse a Dona Mariana
Que deu zero na lição.


















NA IGREJA



Na igreja eu sonhava
Minha mãe rezava.
Eu via Jesus na cruz
E imaginava:
“Quanta maldade!
E com tantos amigos,
Como foram deixar? “

























ESTILINGUE


Os estilingues do bairro,
De certeiras pontarias,
Acertavam
Pobres passarinhos,
Os meus quebravam vidraças
Dos meus vizinhos

Os meninos do bairro
Eram heróis
Eu levava sovas
Não entendia nada,
Pois gostava mais
Da passarada





VENTANIA

Com música do Dédo Thenório

O VENTO passa depressa
Não fala pra onde vai.
Levanta a saia da Rita,
Derruba o chapéu do papai.

Foi assim, fazendo arte
Tomou o rumo do trem,
Foi pra lá do fim do mundo,
Só volta no ano que vem.




















]



PEDREIRO


Pedro quebra pedra,
Tal pedra, tal forma.
Ele constrói igrejas
De pura pedra.

José quebra pedra
Quebra por quebrar
Não sabe pra que quebrar
Pedra.
Não é pedreiro,
Mas quebrador de pedra.


















BAILES


NAS longas noites de verão
Eternas noites...
Sempre havia bailes na vila.

Meu pai tocava sanfona,
Tocava a noite inteira.
Minha mãe dançava, dançava...
O tempo passava, passava...
E a noite não terminava nunca.






















CINEMA


QUENTES tardes de domingo,
Pipocas e olhos pregados na tela.
O mocinho galopava,
galopava
Para além da tela,
Para além do domingo azul.

O domingo ficava ali,
Esperando a próxima semana.
Quem sabe o Batman
enjaularia a mulher gato?
Era muito, muito sonho
Pra um menino







O TEMPO
PASSA tempo
Passa hora
Passa sol
Passa noite
Passa chuva
Passatempo
Passa hora
O relógio
despertando
Minha mãe
está chamando
Passa o trem
Passa escola
Passa a vida
Passa história
Passa boi
Passa boiada
Passa o fato
Passa tudo
Passa nada
Passa mato
Passa estrada
Passatempo
Passa hora
Foi ontem
Foi agora
Toda a vida
Está passando
Não fiz nada
Até agora.


O CACHORRO

O CÃO
LAMBE A MÃO
LAMBE O OSSO
LAMBE O CHÃO
QUE COISA
QUE PORCO, NÃO?
BALANÇA O RABO
QUANDO RI
ÁBAIXA A ORELHA
FAZ PIPI
NA RODA DO CARRO
Xiii!!!

BEM-TE-VI

BEM-TE-VI
MAL TE VI
ME ENCANTEI
NO JARDIM
SO PRA MIM
NA PALMEIRA
VEM CANTAR
AQUI!









O GATO

QUE PREGUIÇA
OLHA O GATO
NA CADEIRA
DE TRELIÇA
COÇA A ORELHA
COÇA A BARRIGA
LAMBE AS PATAS
MAS QUE VIDA!

BEIJA-FLOR

PARADO NO AR
BEIJA A FLOR
MAS NÃO BEIJA
COM AMOR
COM O BICO
FURA A FLOR
CHUPA O MEL
E VOA
SACIADO
O DANADO













TATU BOLINHA

O TATU BOLINHA
COM UM TOQUE
DO DEDINHO
VIROU UMA BOLA
PEQUENINA

O TATU BOLINHA
TEM MEDO DE GENTE
MAS É UM BICHO
DIFERENTE
COM UM TOQUE
DO DEDINHO
ELE FICA
TODO ENROLADINHO






Renato Ladeia
rladeia@uol.com.br






ERA UMA VEZ...



ERA uma vez um menino mau, mas não mau a ponto dos passarinhos fugirem dele. Mas era mau o suficiente para quebrar vidraças, tocar o sino da igreja fora de hora, não ir à missa aos domingos e sonhar durante as aulas.
Um dia o menino mau se perdeu na floresta encantada e perguntou aos passarinhos onde ficava o caminho de volta. Os passarinhos não responderam, pois ele não sabia a linguagem deles. O menino vagou, vagou até chegar ao outro lado da noite, onde vaga-lumes clareavam a solidão da floresta. Cansado, deitou-se sob uma árvore, à sombra da luz dos vaga-lumes e sonhou, sonhou tanto que seu sonho se espalhou pela floresta e envolveu a todos, inclusive os passarinhos sonolentos.
Durante o sonho, os passarinhos romperam a barreira que separava os seres humanos dos seres pássaros e lhe contaram todos os segredos do mundo. Ao acordar, o menino mau contou ao padre, à senhora das vidraças e à professora, os segredos que há entre o que é bom e o que é mau.
As vidraças continuaram sendo quebradas, o sino da igreja continuou sendo tocado fora de hora e a professora, cheia de compreensão, pedia silêncio à classe para não acordar o menino. ERA UMA VEZ...









NOSSO HERÓI



NÓS tínhamos nosso próprio herói. Ele era destemido, forte como um touro. Era invencível. Não usava máscaras e não voava como pássaro, mas pisava firme como um rei. Não andava armado, mas tinha muita astúcia, sabedoria no olhar e destreza nas mãos.

Nada nos faltava. Nosso herói transformava água em leite e terra em pão. Com um passe de mágica nossas lágrimas viravam doces, sorvetes e chocolates..

Mas nosso herói castigava seus inseparáveis companheiros quando eles estavam fora da lei ou então falava tão duro e forte que o mundo estremecia.

À noite, após um dia fatigante, nosso herói pegava-nos ao colo e nele adormecíamos e sonhávamos fantásticas aventuras pelo país do nunca, que era tão real, tão verdadeiro, como seu olhar.