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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

PAI REVISITADO

Sinto saudade
Dos bons e maus momentos
Que vivemos juntos
De quando ele era um herói
Daqueles invencíveis!
De quando não era nada
Apenas um velho fraco
Sem esperanças
Sem futuro

Sinto saudade
Daquilo que ele foi
E daquilo que não foi
Daquilo que queria ser
E daquilo que pensava ser

Sinto saudade
Das mãos ásperas
Da barba por fazer
De sua força
E de suas fraquezas

Sinto saudade
Do que poderia ter sido
E do que não foi
Daquilo que pensei que era
E daquilo que pensei que não era

Sinto saudade
De suas mãos seguras
Desafiando o tempo
Os perigos
As incertezas

Sinto saudade
E sinto dor
A dor da ausência
A dor que se finge ter
Mas que ainda sinto
Não a dor que sufoca
Mas a dor que enternece
Que molha os olhos
Que umedece a alma





MINHA CASA

A minha casa
É onde eu passo as noites
Noites de sono
De insônia
Em cada parede
Em cada tijolo
Em cada madeira
Uma história
Uma poesia
Concreta
Cimento, pedra
Tijolo e água.
As mãos do meu pai
Em cada espaço
E seu suor ainda escorre
Umedecendo as paredes
os ossos
os olhos
o passado e
o futuro
E todas as noites
Do tempo passado
Para lá retorno
Um retorno de tempo presente
de dor
de nostalgia
de amor.
Oscar Niemeyer

Traça suas linhas curvas
Na linha do horizonte
Buscando no finito
As linhas do tempo
Que traçam curvas sinuosas
E perigosas.

Mas o arquiteto
Que também é poeta
Traça com palavras
Com traços
Com espaços
Esparsos
O concreto da sintaxe
Na pedra.

O tempo é inexorável
A vida luta contra ele
Mas em vão...
O tempo infinito
E a vida tênue
Mas o arquiteto desliza
Nas curvas que cria
Desafiando o espaço
E o tempo.

O arquiteto
Arrasta-se em seu corpo
Traçando as suas linhas
Na curva sonolenta
Do tempo
Perseguindo o horizonte
Sempre um plano
Uma reta inacabada.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

São Paulo em prosa e verso

São Paulo em prosa e verso

São Paulo tem seus encantos. Muitos podem não concordar, mas é uma cidade sedutora em suas contradições arquitetônicas, sociais e culturais. Pode-se comer um bom prato árabe, uma magnífica macarronada ou inconfundíveis pizzas. Já ouvi de italianos que as melhores pizzas do mundo são feitas em São Paulo. Haveria motivo maior para nos orgulharmos desta cidade imponente, aristocrática, miserável, paradoxal e global, tudo ao mesmo tempo? Mas não é uma cidade para iniciantes. É preciso, antes de mais nada, saber olhar a cidade nas suas “entrelinhas”, saborear a sua intimidade meio italiana, meio nordestina, meio africana e, sobretudo meio portuguesa, pois é a presença ibérica que predomina, que dá o seu tempero final no cadinho de culturas.
Para ver São Paulo é preciso mais do que andar pelas suas ruas, praças, avenidas. Talvez seja preciso pegar um cinema, comer uma pizza com alguns copos de chopes bem tirados e sair perambulando, sem hora para chegar nem voltar. Se tiver companhia, vai ser bom, mas com você mesmo talvez seja até melhor. Um pouco de introspecção, falando baixinho, remexendo na memória de outros tempos. Quem sabe entrar em um daqueles bares da Avenida São João e ainda encontrar os personagens da canção do Vanzolini, na bela e nostálgica Ronda? Também vale a pena percorrer a Avenida Ipiranga e parar alguns momentos na esquina com a São João e assobiar a canção do Caetano e sentir um clima de poesia, de decadência urbana, de desassossego e de desesperança. A Praça da República, repleta de pessoas procurando algum sentido para a noite, alguns procurando algum sentido para a vida, outros apenas um cantinho para dormir ou esperando encontros nunca marcados. Prostitutas, homossexuais, crianças abandonadas, pregadores religiosos, vendedores ambulantes, traçam um perfil humano e desumano de uma cidade de exclusões.
Depois de perambular por horas e horas, sem medo de ser feliz, sem orgulho, olhando as pessoas nos olhos, recusando as ofertas de corpos a preços vis, valeria a pena terminá-la na velha Estação da Luz. Sob o pretexto de aguardar a abertura da bilheteria, seria recomendável se espreguiçar num daqueles belos bancos de madeira maciça e cochilar até a chegada do primeiro trem do subúrbio. O Trem das Onze do Adoniram é uma boa pedida para acompanhá-lo, mesmo que não vá para o Jaçanã, cuja estação não existe mais. Para ficar mais emocionante, imagine que sua mãe está a sua espera, ansiosa e preocupada, rezando dezenas de ave-marias para protegê-lo dos perigos demais desta cidade.
Como alternativa que, sem dúvida, proporcionaria um êxtase inesquecível, continue caminhando e fique sobre o viaduto do Chá até que os primeiros raios de sol comecem a surgir no horizonte. Você verá que poucos estarão nas ruas, principalmente se for um domingo, mas rapidamente um turbilhão de gente estará pronta para movimentar a grande cidade despertada para o amanhecer. Você sentirá o renascer da metrópole, o pulsar da vida que se esconde atrás da neblina e da fumaça que embriaga os sentidos. A imaginação é sua e você pode, se for alguém persistente, ver ao longe, numa das avenidas, uma banda se aproximando com os seus metais. Quem sabe uma Carolina apareça numa das janelas de um sobrado esquecido entre os arranha-céus, para ver a banda passar! Tudo é possível em São Paulo, até o improvável, o utópico, o absurdo.
Quem disse que esta cidade não tem poesia? Tem e muita, mas é preciso olhar com os olhos da noite, com os olhos da madrugada e do amanhecer. É preciso, antes de tudo, estar preparado para vê-la. Como já disse, São Paulo não é para principiantes, como os visitantes apressados em busca de negócios ou turistas em busca de novidades, querendo consumir tudo o mais rapidamente possível. Nossa cidade precisa ser seduzida, bem “cantada” para que role alguma coisa encantadora, como uma noite de amor, com muita poesia. A nossa São Paulo não é também para aqueles que aqui nasceram (ainda que arvorem seus direitos) e que não perdem um fim de semana ou um feriado prolongado para fugir dela. Pobres e infiéis amantes, que não sabem o que perdem, pois buscam em braços alheios aquilo que têm em casa. Para conhecer essa paulicéia desvairada, tão bem cantada por Mário de Andrade, é preciso ser um pouquinho antropólogo e confundir-se com ela, conhecer suas virtudes, seus pecados, suas dores, suas crenças, seus valores, suas línguas (e são muitas!) e suas culturas. Nada de preconceitos bobos, esteja aberto como uma criança solta no campo – para o que der e vier.

Renato Ladeia, 25 de janeiro de 2008

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

São Paulo: ecoam passos na memória

São Paulo: ecoam passos na memória.


Não nasci na cidade de São Paulo, mas é como se tivesse nascido. Vindo do interior com dois anos de idade e tenho a vaga impressão de que abri meus olhos pela primeira vez diante daquela imensidão de prédios. Ali é o Martinelli, meu filho! Olha que grande! Dizia meu pai orgulhoso de estar na maior cidade do Brasil. Atravessávamos o viaduto do Chá e víamos aquele vale imenso para meus olhos de menino. Tomávamos o bonde que cortava ruas arborizadas e naquela época ainda pouco movimentadas, onde homens e mulheres elegantes transitavam apressados. São Paulo não pode parar! Era o lema seguido por todos. A ideologia do movimento contínuo em busca do progresso. Os forasteiros também eram cooptados rapidamente e saiam freneticamente em busca do “ouro”. Italianos, portugueses, japoneses, mineiros, paranaenses, nordestinos de todos os matizes se transformavam rapidamente em paulistanos no ritmo de trabalho, no desejo de vencer, no jeito de andar, ao adotar um time de futebol e na cerveja preferida.

O velho Mappin onde compramos nossa primeira televisão, uma Invictus que raramente saia do conserto, era uma referência. As prestações eram sagradas e todos os meses lá estava eu com meu pai para fazer o pagamento. Subíamos a General Carneiro, passávamos pela Rua Direita com a sua elegante Casa Kosmos e atravessávamos o viaduto do Chá. Uma enxurrada de gente vindo de todos os lados e a mão firme do meu pai me guiava, enquanto meus olhos se perdiam entre os prédios e lojas. Nada tão encantador como o teatro municipal, com sua arquitetura imponente, mais parecendo um grande palácio. Não menos encantador aos meus olhos era a velha estação da Luz, com sua arquitetura inglesa do final do século XIX. Meus olhos se deliciavam impressionados com as escadarias, com os enormes bancos de madeira maciça, os corrimãos de ferro e os funcionários com seus uniformes que pareciam impecáveis (ou não eram?).

Depois, já adolescente, percorria as ruas do centro, passando horas nas livrarias, principalmente na Brasiliense, na Barão de Itapetininga, onde, em pé, conseguia a proeza de ler um ou mais capítulos de algum livro interessante, até que os vendedores me intimassem a desocupar o espaço. Os croquetes na Salada Paulista, na Avenida Ipiranga, imortalizada por Caetano Velloso, eram imbatíveis, mesmo saboreando-os em pé, sem nenhum conforto. A Esfiha aberta, regada a limão num restaurante na São João, era o prenúncio dos fast-foods a lá árabe, programa imperdível aos sábados depois do cinema. A velha cidade dos cines Gazetinha, Belas Artes, Bijou, possibilitou encontros inesquecíveis com Buñel, Costa Gravas, Bergman, Kurosawa entre outros.

E o futebol! Quantas lembranças! Nas belas tardes paulistanas ensolaradas de domingo, atravessávamos a cidade para chegar ao Pacaembu. O coração batendo forte e só acreditava mesmo depois de estar sentado nas arquibancadas podendo avistar o grande tapete verde onde poderia ver o craque do século, o Pelé jogar contra meu pobre e sofredor Corinthians. Eram momentos inesquecíveis e hoje tenho coragem de confessar: torcia pelo Pelé fazer as suas jogadas de mestre, mesmo contra o meu time. Todas as vezes que fui assistir Santos x Corinthians, graças ao meu padrinho que vinha do interior todos os meses só para ver o rei jogar, o meu time perdia e eu não sabia se ficava triste ou alegre. Mas como nunca fui alegre nem triste, valia mesmo a aventura.

Anos depois, em plena ditadura, lá estava eu de novo participando de comícios, passeatas e bradando contra a ditadura insensível, contra o medo. As palavras de ordem, o pavor da polícia secreta, amigos mortos, amigos torturados e esperanças perdidas. Era uma cidade que exalava terror e sempre havia a impressão de que os homens do temível Deops estavam em todas as esquinas farejando como cães de caça, algum possível inimigo do regime. Era quase um clima kafkiano, pois as pessoas se sentiam perseguidas, acuadas, espionadas. Às vezes alguém, no meio da praça, começava a falar alto criticando os militares. Cuidado! Diziam os mais experientes. São agentes disfarçados para atrair incautos. A cidade parecia triste aos meus olhos, mas não era aos olhos de todos. Aos olhos distantes, não comprometidos, ela seguia seu rumo, em direção ao progresso contínuo. Um prefeito, desses nomeados, ousou dizer: “São Paulo precisa parar”. Ele encerrou sua carreira política mais cedo pelo “sacrilégio”. Mas a ditadura passou e nossa cidade continuou seu caminho. Só não sei se ficou mais democrática, mas talvez mais libertária, mais anárquica, mais doida, mais desvairada.

Hoje com milhões de carros despejados em suas ruas, a cidade tornou-se mais dura, mais mecânica, mais impessoal, mais suja, mas ainda é possível descobrir alguma beleza que insiste em fazer-se notar apesar de tudo. Num destes dias, perdido no centro velho, olhando do prédio da Unesp, na praça da Sé, pude experimentar o êxtase de ver, ainda que sutilmente, uma bela paisagem, mesmo que machucada por anos a fio. A cidade parecia dizer ao menino que ainda a tinha na memória: “Eu estou aqui. Tenho pouco a lhe dar, pois me tiraram quase tudo. Mas o que me resta, ainda é de todos, e eu não me importo em dividir”.

Ainda ecoam passos na memória, sons que se perdem nos labirintos, como a música Quarto Centenário, que eu, menino do interior, perdido na cidade grande, ainda ouço. Música que parece renascer para os meus sentidos como o dia da redenção da pequena vila que se tornou o ponto de encontro de milhões de seres humanos. Pessoas vindas de todas as partes do mundo, com inúmeras línguas e culturas, contracenando numa intensa torre de babel como num teatro cotidiano. Enfim, uma cidade que se pretende democrática, excludente, humana, desumana, solidária, egoísta, pacífica, violenta, global e paradoxal.