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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O BAURU DO GOUVEIA

Alguns sabores da vida a gente nunca esquece, principalmente aqueles da juventude. Não eram sabores sofisticados de bons restaurantes, mas coisas simples que matavam a fome no sábado ou domingo à noite depois dos programas bons e ruins. Na Vila Gerty, São Caetano do Sul, perto da Praça da Figueira, havia um bar simples, meio sujo, meio mal frequentado, mas que servia um bauru delicioso: o bar do Gouveia. A receita era simples: pão quente na chapa, mozarela, presunto, rodelas de tomate e um delicioso molho vinagrete à portuguesa que dava o toque final. Era de lamber os beiços.
O Bar do Gouveia era o típico bar da crônica do Antonio Prata sobre os bares simples e rústicos frequentados por gente meio intelectual, meio de esquerda, só que na minha época nunca conheci por lá alguém meio intelectual e meio de esquerda. O que existia mesmo era gente meio proletária, meio classe média baixa. Meio de esquerda, confesso que já fui e algumas vezes para lá arrastei meus amigos meio de esquerda que, como eu, liam Marx, Luckaz, Gramsci e Sartre sem entender muita coisa. Eles acharam o bar o máximo e um deles chegou ao requinte de considerá-lo como um típico bar “proleta” e bem porreta, como um excelente local para uma discussão sobre o que fazer após tomarmos o poder.  Outro, “especializado” em Trotski, e hoje ativista do movimento católico Canção Nova, chegou a propor que fosse designado para as reuniões clandestinas do seu grupo. O Alemão, bem mais relaxado, achou o bauru muito bom e estava mais interessado em forrar o estômago, sem se preocupar com política.  Mas como o pessoal era somente meio de esquerda ou mais propriamente falando, da esquerda festiva, o bar não alcançou o status de reduto revolucionário.
O Gouveia, um sisudo senhor português que de intelectual e de esquerda não tinha absolutamente nada, era de pouca conversa, mas caprichava no bauru e nos salgadinhos que servia.  Ouvia-se muitas histórias sobre o seu Gouveia, atribuídas a ele pela sua procedência lusitana. Verdadeiras ou não, divertia o pessoal durante o ritual gastronômico.  O bar era dividido entre um compartimento de “fast-cachaça” e o outro depois de uma divisória de madeira trançada onde eram servidos os quitutes em mesas de fórmica, sem toalha e sem nenhum charme. O que eu chamo de “fast-cachaça” é aquele serviço rápido em que o sujeito pede uma cachaça, jogo um pouco para o Santo e engole o resto num trago só, larga o dinheiro no balcão e continua andando até o próximo bar. Mas tinha o filho do Gouveia que quebrava o gelo, dando uma atenção especial para a turma. O Luís era da nossa idade e fazia algumas concessões, como uma fatia a mais de presunto ou mozarela. Era só pedir discretamente e ele, longe do olhar controlador do velho, fazia as pequenas liberalidades.
Outro ponto de final de noite em São Caetano do Sul, naqueles saudosos tempos de adolescência, era uma lanchonete que servia cachorro-quente com batatas fritas, daquelas industrializadas. Infelizmente não consegui lembrar o nome da lanchonete.  Com uma coca, um hot-dog e muita mostarda, a moçada enganava o estômago antes dormir. Mas ali era tipicamente classe média, onde rapazes e garotas frequentavam depois de uma sessão no Cine Lido, na Rua Manoel Coelho. O sabor do hot-dog não era dos melhores. Era um gosto sem graça que não deixou saudades como o bauru do Gouveia.
Hoje quem passa pela Praça da Figueira vai encontrar uma praça de verdade, pois nos anos sessenta era somente uma velha figueira cercada por um pequeno canteiro, onde o Jânio Quadros, Ademar de Barros e outros políticos fizeram seus discursos de campanha nos anos sessenta.  Em cima do bar do Gouveia havia um apartamento onde morava um amigo da época, o Douglas Leandrini, que não sei por onde anda e cujo pai era delegado no bairro e dono do prédio. Ele mesmo não frequentava o bar por motivos óbvios. Ao lado do bar funcionava o açougue do Belizário, filho de outro português que tinha um belíssimo Chevrolet Belair que só saia da garagem para dar uma voltinha no bairro.
O prédio foi demolido e apesar da boa urbanização do local com uma praça com bancos e árvores o local perdeu o seu charme, sem os deliciosos baurus e aqueles papos alienados de adolescentes. O Brasil da época vivia numa ditadura cruel que a maioria das pessoas nem percebia. O Brasil de hoje mudou muito, mais democrático, mas mais violento e cada vez mais corrupto. Hoje eu teria receio de passar a pé por ali de madrugada como era hábito na época. Mas se o Gouveia ainda funcionasse, imagino que seria uma loucura conseguir uma vaga para estacionar e saborear o delicioso bauru. Com certeza o bar estaria reformado e teria perdido definitivamente o jeito de bar simples, meio proletário e meio classe média.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012


FÉRIAS NO INTERIOR E OUTRAS HISTÓRIAS

Ao ler uma crônica do José de Souza Martins sobre as férias no interior, tive a sensação de que perdi o trem. Explico: há tempos pensei em escrever uma crônica com o mesmo tema e o velho Professor Martins me passou a perna, no bom sentido, é claro. Acontece que ele, como eu, morava em São Caetano do Sul, o C do ABC e também passávamos as férias no interior e tomávamos o mesmo trem em direção à Estação da Luz e de lá para o paraíso. Ele para Pinhalzinho, perto de Bragança Paulista e eu para Lavínia, na Noroeste de São Paulo.  A estação antiga tinha um ar romântico talvez por conta do estilo que os ingleses, fundadores da São Paulo Railways, trouxeram para o Brasil.
Tenho boas lembranças do sociólogo cronista, além dos seus livros e artigos, como a palestra que ele apresentou na Fundação Santo André nos anos 70 sobre a música caipira. Depois de uma análise teórica sobre a diferença entre música caipira e música sertaneja - que muita gente pensa que é a mesma coisa - e suas origens de natureza antropológica, sociológica e econômica, ele ainda deu de brinde, para a plateia, algumas modas de viola, num modesto toca-discos portátil, acompanhadas de uma  análise sociológica e antropológica. Lembro-me que foi emocionante ouvir o cateretê Boi de Carro, em que o Tonico e Tinoco comparam a vida do boi de carro usado e abusado nas lides da fazenda com a vida do peão, que são descartados no ocaso de suas existências. O boi de carro ia para o matadouro e o velho peão ia viver de favores, caso encontrasse alguém disposto a tal.
Mas voltemos às férias do interior. O ritual era o mesmo descrito pelo Martins. Pegávamos o trem por volta das sete horas da noite, com meu pai carregando as malas mais pesadas, minha mãe contando os filhos (eram cinco) com medo de deixar alguém para trás. Os preparativos eram sempre fascinantes. O tempo não passava até a hora de embarcar em direção ao interior. Pegávamos o trem que ia até Bauru, onde fazíamos a baldeação para o embarque em outra composição que ia até Andradina, divisa com Mato Grosso, que naqueles tempos ainda não era do sul. Íamos sempre de segunda classe ou classe econômica. Os bancos eram de madeira e doía o traseiro, mas tudo valia a pena, pois as nossas almas de crianças não eram pequenas.
Chegávamos a Bauru quase de madrugada e quase em seguida embarcávamos num outro trem até Lavínia, uns sessenta quilômetros depois de Araçatuba, a cidade onde os reis do café e do Gado se defrontavam disputando poder. A música Rei do Gado menciona Ribeirão Preto, mas há controvérsias.  O rei do café estaria engravatado fumando charuto cubano, acesos com notas miúdas de cruzeiros e o rei do gado, que chegara com uma comitiva, trazendo nas roupas a poeira da estrada.
Daí pra frente meus olhos de menino curioso e sonhadores ficavam grudados na janela atentos à paisagem que passava depressa por mil olhos que a seguiam nos vagões. Campos, plantações, rios, lagoas. Aos poucos as casas iam aparecendo, um pouco esparsas, até chegar aos pequenos centros urbanos que eram, naquela época, as cidades do interior. As estações, ainda no velho estilo inglês, com seus arcos de ferro fundido e madeira pintada de uma cor avermelhada, recebiam o trem, que ia apitando e reduzindo a velocidade até parar para alguns viajantes descerem e outros embarcarem. A cada parada, perguntávamos: “Chegamos Mãe?”. “Está longe, muito longe, respondia ela pacientemente”. Eram mais de vinte horas de viagem, quando não ocorria algum atraso.
Ao entardecer a pequena Lavínia aparecia no horizonte, logo depois de Valparaíso.  Cafezais dominavam a paisagem junto às invernadas salpicadas de bois.  Bem antes meu pai e minha mãe já colocavam as malas e sacolas no chão. Novamente minha mãe contava os filhos com atenção redobrada no caçula. Enfim chegávamos e começava outra etapa da viagem.
Alugávamos uma charrete e partíamos em direção à fazenda de um tio, onde ficávamos hospedados. A pequena viagem era ainda mais emocionante do que a de trem. A lenta velocidade do trotar do cavalo permitia apreciar bem melhor a paisagem. Às vezes ficávamos na casa de algum parente próximo da cidade e íamos para a fazenda do Pau d’Alho ou São Vicente no outro dia bem cedo.
O por do sol num horizonte que não tinha fim era outro espetáculo inesquecível. A cada porteira de fazenda (eram quase todas iguais), eu tinha a impressão de que estávamos chegando. Mas qual o que! ainda estávamos longe da Pau D’alho. Enfim, quando menos se esperava o charreteiro parava para abrir a porteira e entravamos na velha São Vicente ou Pau D’Alho, por conta de uma velha árvore que ficava do outro lado da porteira. Eram mais de dois quilômetros por um carreador cortando o cafezal até a colônia, onde moravam os colonos, meeiros e parceiros e logo em seguida a sede da fazenda.
Avisados por telegrama, já éramos esperados com um delicioso jantar, que incluía galinha de Angola e o doce de leite que só a Vicenza, minha prima e madrinha sabia fazer. A Vicenza era um capítulo a parte. Criatura alegre, calorosa e generosa que fazia de tudo para agradar seus hóspedes. Infelizmente ela já partiu, bem mais cedo do que deveria.
Ainda não havia eletricidade por aqueles lados e jantávamos a luz de lampião a querosene, cuja fumaça ajudava a espantar os pernilongos. Depois do jantar a conversa corria solta. Novidades sobre os outros parentes, as colheitas, o preço do gado, política... Em pouco tempo eu já estava dormindo sobre a mesa, tal o cansaço, reflexo da noite mal dormida no trem. O sono era embalado por siri lampos, sapos e pássaros se acomodando nas árvores.
O amanhecer era outra das delícias esperadas. O gado mugindo no mangueirão, os pássaros festejando o dia, o cheiro de café colhido na fazenda, socado, torrado e moído na casa grande. O aroma e sabor eram especiais, bem superiores aos cafés gourmet que proliferam pelas modernas cafeterias. O leite tinha gosto de leite, espumante, denso, encorpado, um luxo. O pão, a manteiga, o queijo, feitos em casa, eram outras iguarias impensáveis na cidade.
O Drummond escreveu um poema sobre a sua infância em uma fazenda em Minas Gerais que termina dizendo que  sua vida era bem mais interessante do que as aventuras do Robinson Crusoé que ele estava lendo.  Eu cá com meus botões, tenho a pretensão de dizer que as minhas aventuras durante as férias na fazenda São Vicente eram também bem mais interessantes do que o livro e também, que me desculpe o José de Souza Martins, eram bem mais emocionantes do que as dele.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012


AS CARAMBOLAS DO ZECA









Ter um pé de carambola no quintal é um privilégio e quem garante é o meu amigo Zeca. Pássaros em profusão invadem os seus domínios para saboreá-las e ele feliz, ri de modo a ouvir-se de longe. Às vezes pega o violão e começa a cantar e, de repente, sabiás, sanhaços, maritacas pousam na sua varanda para ouvi-lo. Mentira! Vocês não conhecem o Zéca da Silva, um sujeito encantador de passarinhos. Canta tão bem na língua dos pássaros que com eles conversa e tem bem guardados seus inúmeros segredos.
No seu quintal a passarada chega cedo para o banquete diário, acordando toda a vizinhança. Um vizinho do lado já reclamou do barulho no juizado de pequenas causas, mas levou um sabão do meritíssimo, que disse em seu despacho: “Não gostar de passarinho em cidade grande, poluída e desalmada como a nossa, merece uma boa lição: colocar frutas para os passarinhos todos os dias durante um ano. E tenho dito”.  Mentira! Pois perguntem ao Zeca que não é homem de contar lorota.
Mas voltemos às carambolas... As carambolas do seu quintal são realmente graúdas e com apenas uma delas, pode-se ter suco para saciar a sede de uma tropa. Mentira?  Vocês não conhecem o pé de carambola do Zéca, uma dádiva divina, um presente do Olimpo que os moradores de São Caetano observam de longe. Já houve até um amigo, candidato a vereador, que colocou em sua plataforma política o tombamento da árvore como patrimônio da cidade. Porém, o Zéca puxou a faca: “Pra tombar meu pé de carambola vai precisar passar por cima do meu cadáver”. Até explicar esse negócio de tombamento, o candidato perdeu as eleições e ficou por isso mesmo. Mentira! Pode até ser, pois ouvi esta conversa num churrasco na casa do Marcão, depois de muita cerveja.
Quando as carambolas começam a ficar amarelinhas ele colhe as melhores e presenteia os seus melhores amigos ou aqueles que estão mais próximos. Para os que moram longe, mesmo sendo melhores ainda, ele pede desculpas, mas não dá para despachar as carambolas, pois chegariam inaproveitáveis para os sucos, geleias e doces. Os premiados ficam emocionados com a gentileza do amigo e chegam em casa felizes como crianças. Acordam a mulher para falar das carambolas do Zéca, mas nem todas as mulheres conheceram carambolas na infância e não dão valor para isso.  Uma pena!
Carambola é fruta que quase ou nunca se encontra em quitanda ou supermercado. É fruta de quintal, principalmente de vizinho. É fruta que fazia a molecada de vila invadir os quintais dos vizinhos aquinhoados com pés de carambolas para, sorrateiramente, apanhá-las, encher os bolsos e sair contando prosa com mais de metro. É bom dizer que pegar carambolas no quintal de vizinho não é roubo e para corroborar tal afirmação existe até jurisprudência sobre o assunto e quem garante é um causídico renomado que pediu para não ser citado.
E para encher ainda mais a bola do Zeca, vou contar um segredo: o homem, nos seus momentos de recolhimento, prepara coisas deliciosas com as carambolas, como Geleia, doce, torta, pudim, sorvetes, bolos etc. E não fica só nisso. Ele inventou um salmão com molho agridoce de carambola que é uma iguaria digna do chef Atala. Até já foi convidado para apresentar suas receitas em um programa de televisão.  O Zeca só não foi lá por pura modéstia e também por não gostar de publicidade. Mentira! Pergunte para a sua filha Lilica, que infelizmente está morando na Austrália e não pode confirmar.
Mas quem é que não gostaria de ter um amigo carambolesco, bom de coração e sambista como o Zeca? Ah! Isso é coisa para privilegiados como eu, Celinha, Jorge, Alcione, Sinésio, Marcão, Flávia, Ademir, Dedo, Ângela, Erasmão, Silvião e tantos outros que precisaria uma página para citá-los. E para finalizar essa crônica, devo lembrar que a carambola é uma fruta meio azedinha, mas a do nosso amigo é doce como mel. Mentira! Pois perguntem aos passarinhos que ele cria soltos no quintal. Infelizmente, para quem ainda não provou da fruta, vai ter que esperar o ano que vem, pois a safra deste ano já era.

domingo, 12 de agosto de 2012


O CAÇADOR DE ÁGUAS


Meu pai, já maduro, descobriu-se um caçador de águas. Um alemão com quem trabalhava e que vivia metido em pesquisas sobre radestesia, o convenceu que ele tinha o dom para achar água.  Daí foi um passo para fazer a experiência e tentar descobrir pequenos lençóis freáticos com  alguns metros de profundidade.
Combinaram para tirar a prova num fim de semana e lá foram eles procurar água em um sítio nos arredores de São Paulo. O alemão preparou uma forquilha de goiabeira, segurou-a com as duas mãos, mantendo a ponta para cima e começou a caminhar em várias direções, conforme contava meu pai. De repente ele parou como se sentisse uma estranha sensação e chamou meu pai para ver. A forquilha envergava para baixo, forçando o homem a segurá-la com energia, como se ela quisesse penetrar no solo.
Ele deu a forquilha para o meu pai e ele também sentiu um enorme tranco, como se alguém a puxasse para baixo com grande energia. Aqui tem água, disse o alemão, e pode cavar o poço. Soube-se depois que com poucos metros de profundidade, jorrou água.
Tempos depois meu pai foi convidado por um amigo para testar seu dom para descobrir água em sua chácara. Ainda de calças curtas acompanhei o teste São Tomé e provar que ele não estava mentindo quando falava que já era um caçador de águas. O meu testemunho seria fundamental para acabar com as reticências de minha mãe.
A chácara ficava longe e demoramos quase duas horas para chegar ao local. Meu pai foi preparado com sua forquilha de goiabeira a tiracolo. Depois das preliminares e o cafezinho com bolo, o velho começou a sua labuta como caçador de água. Circundou por toda a chácara nos locais em que o proprietário indicava como os melhores para abrir um poço e nenhum sinal de água. O seu amigo já começou a dizer que esse negócio era superstição e já havia desistido da empreitada quando meu pai levantou-se com sua forquilha e saiu pelo terreno em uma área não prevista, que ficava na divisa com a propriedade vizinha. De repente sentiu o chamado das águas. A forquilha envergava fortemente para baixo como se alguém a puxasse. Pode cavar o poço que eu garanto que tem água, disse meu pai orgulhoso e seguro do que estava falando. O problema é que o poço deveria ser cavado na divisa da propriedade e houve a necessidade de uma negociação com o vizinho que concordou desde que pudesse compartilhar o poço.
 O amigo de meu pai contou que contratou um poceiro e que, após cavar apenas oito metros, deu com um belo veio de água cristalina. Com isso a fama de meu pai de mágico caçador de águas ficou consolidada. Ele acreditava que era um dom divino enquanto que o alemão, mais racionalista, dizia que era pura ciência e tentava explicar os mistérios da radestesia.
Contei a história para um geólogo, que deu um sorriso irônico, afirmando que não há provas científicas de que a radestesia  realmente funciona. Seus professores na Universidade de São Paulo tratavam o assunto como folclore, o que o deixou muito cético.  Verdade ou crendice popular? O que eu tenho certeza é que vi mais de uma vez a forquilha “mágica” funcionar nas mãos do meu velho, que era um homem muito honesto e até um tanto cético. De qualquer forma, para evitar maiores discussões, recorro ao velho e bom Shakespeare em Hamlet: “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que pensa nossa vã filosofia”. Aliás, nesta frase, em todas as traduções, aparece a palavra “vã” antes de filosofia, o que não existe no original.  Tal como a radestesia, a tradução também tem lá os seus mistérios.
Renato Ladeia

domingo, 5 de agosto de 2012


A TERRA DO NUNCA E A PARTIDA DA DONA ÁUREA FERRARI DA SILVA

Dona Áurea, mãe do amigo Edson Zeca da Silva, como a minha e a da  Dalva, também partiu para a Terra do Nunca. Há tempos ela se refugiu depois de um AVC. Não que estivesse impossibilitada, mas optou ficar como se o estivesse. Não recebia visitas e não saia de casa, recolhendo-se quando o sol se punha. Vivia como um compromisso, sem prazeres e sem alegrias. Seus contatos humanos praticamente se restringiam ao filho e a enfermeira.  Como diria o poeta Drummond: “Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação” no poema Meus ombros suportam o mundo.
        Dona Áurea Ferrari da Silva era simpática, mesmo sendo uma mulher de poucos sorrisos, sempre séria, ensimesmada - pelo menos essa é a imagem que guardei dela - mas gostava de cantar, principalmente as músicas do Chico Alves, Herivelto Martins, Lupicínio entre outros.  Nas festas familiares seu filho dava o tom no violão e a arrastava para o sarau. No início, ficava um pouco sem jeito, mas depois se soltava e se embalava nas boas canções da velha guarda. Era uma pessoa atenciosa com os amigos dos filhos, sempre os recebendo bem. Não se incomodava com as visitas de última hora e colocava com prazer mais um ou dois pratos a mesa ou improvisava para que ninguém saísse com fome de sua casa.  Ademir Bellucci,  hoje um senhor quase sério,  caso não fosse tão galhofeiro, lembra ainda com saudades dos refogados bem temperados da mãe do Zeca.
       Mas eis que um novo acidente, não de carro, mas  vascular cerebral,  a levou, silenciosamente, numa madrugada fria e cinzenta. Ela não chegou a ver a luz do dia, nem os sanhaços e sabiás que invadiram o seu quintal para mais um banquete diário de carambolas.
       E foi pensando na partida das mães que me lembrei de um poema do  Drummond insinuando que devia ser proibido que as mães morressem, que peço licença para reproduzir um trecho:

“Mãe não morre nunca
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora
será pequenino
feito grão de milho”

      Mas o Drummond, como todos os poetas, são fingidores, chegando até a fingir que existe dor na dor que sentem verdadeiramente. Enfim, é preciso entender que há sempre um momento de chegar e outro de partir. As partidas são sempre tristes, principalmente as partidas definitivas, em que não há mais perspectiva de retorno. As partidas do sono eterno machucam, como se tirassem um pedaço da gente, mas são necessárias para que o ciclo da vida continue. Se as mães vivessem para sempre ou mesmo por muito, muito tempo, sofreriam muito, pois testemunhariam a partida dos filhos, dos netos, bisnetos, como a viúva  Úrsula Buendia dos Cem Anos de Solidão do Garcia Marquez. E aí sofreriam bem mais e para que fazer as mães sofrerem mais?
       As religiões são confortantes, pois quase todas pregam que o corpo perece e a alma permanece, subindo aos céus para viver na eternidade, caso não se tenha grandes pecados a expiar. Onde é o céu? Continua a perguntar o menino que ainda existe em mim. As viagens espaciais, as fotografias do universo visível mostram que a terra é um minúsculo planeta a girar em torno de uma estrela de quinta grandeza, entre trilhões e trilhões de outras estrelas e outros planetas, cometas, satélites e asteróides. Somos menos do que bactérias na imensidão do universo. Quem dará importância a seres tão miúdos? Mas para  tudo isso os teólogos tem respostas que a ciência talvez nunca tenha.
       Mas voltando à Terra do Nunca, voando um pouco mais a frente, depois da primeira estrela a direita, onde fica a terra do nunca, dá para avistar a terra das mães. Pena  que nenhum escritor de contos de fada teve tempo ou inspiração para escrever sobre ela. Lá as mães, como no poema do Drummond, vivem para sempre, embalando o sono dos seus filhos eternos. Lá não existe filho mal educado, nem palmadas, apenas longas tardes da eternidade onde as mães contam histórias da carochinha, entre bolinhos de chuva e café com leite.

Renato Ladeia

domingo, 29 de julho de 2012


UM CAFÉ COM ANTONIETA SECCO THENÓRIO

Passávamos um fim de semana em Piedade na casa dos Thenórios. Fazia um frio que doía nos ossos. Como sou um madrugador acordei com os primeiros filetes de luz que entraram pela janela e senti uma vontade imensa de tomar um cafezinho bem quente. Logo levantei e fui para a cozinha, evitando fazer barulho para não acordar o pessoal.  Água na chaleira, pó no coador e fiquei esperando o fogo fazer o seu serviço. Enquanto isso fiquei olhando pela janela o gramado que parecia um tapete branco. Sugeria neve, mas não era. Ainda bem. Não sinto nem um pouco de inveja de quem vive onde cai neve. Neve é triste, monocromática e não tem graça nenhuma. 
Mas eis que a água ferveu e comecei a passar o esperado café. Café gostoso, café com cheiro bom, cheiro de roça, cheiro de mato, cheiro de manhã se espalhou pela casa. Logo ouvi uns passos pelo corredor. Era a Dona Antonieta, mãe do nosso anfitrião, que se levantou com o cheirinho da bebida que conquistou a humanidade desde o século XIX.
- Que cheiro bom! Que delícia sentir o cheiro de um cafezinho logo cedo! Não sabia que você fazia café, disse sorrindo a Antonieta.
Sentou-se à mesa e eu a servi e começamos a falar sobre os vários modos de se fazer um bom café, enquanto saboreávamos a bebida naquela distante manhã de inverno.
- Eu gosto de escaldar o coador, pois tira o gosto de pano e café velhos, disse ela.
- Ah eu também faço isso, concordei.
- Eu não coloco o bule sobre a pia. Prefiro colocar uma tábua embaixo, pois assim o café não esfria tão rápido.
- Eu coloco o café bem socadinho no coador, pois ele tira mais sabor do pó, apesar de coar mais lentamente, eu disse estimulando a conversa.
- Nunca tinha pensado nisso, vou experimentar fazer o café assim. Eu não gosto de deixar a água fervendo, pois queima o café, como fazia minha mãe; disse ela confiando-me o segredinho de família.
- Os baristas, especialistas em café, dizem a mesma coisa, que não se deve deixar a água ferver muito. Quando inicia a fervura, deve-se apagar o fogo e começar a passar o café, disse.
- Pra mim barista é coisa de bar. Que nome esquisito para os entendidos em café, mas que bom que eu faço o café certinho; não é mesmo?
- Bom, eu também não sabia o que era isso. Li numa revista na semana passada.´

Faz tanto tempo este diálogo e eu me recordo dele como se tivesse ocorrido ontem. Antonieta era uma mulher alegre, feliz, despreocupada. Parecia que nada atrapalhava seu bom humor e estava sempre de bem com a vida. Quando ligava para sua casa para falar com seu filho era difícil encerrar a conversa, pois ela ia puxando um assunto atrás do outro. Adorava conversar, saber das novidades. Seu marido, Delcy Thenório, cuidava de tudo, dos pagamentos, das compras e da poesia. Antonieta vivia para o marido e para os filhos e netos. Recordo-me que quando visitávamos o casal, ficávamos quase sempre na cozinha. Enquanto ela passava um café o seu Delcy lia seus novos versos. Ela ria de modo feliz por seu marido ser poeta e escrever coisas bonitas e as pessoas gostarem do que ele escrevia.
Para a tristeza de todos, a Antonieta partiu levando com ela o seu sorriso bonito e feliz. A vida ficou mais triste sem ela, mas na memória sempre fica a lembrança, como uma fotografia na parede do tempo passado. Juntou-se ao seu amado Delcy Thenório que deve andar lá a escrever seus versos nas tardes do sono eterno. Entre uma rima outra ele deve pegar a Antonieta pela mão e caminham em direção ao horizonte, sem pressa, sem preocupações. E eles vão sumindo entre as estrelas distantes, como diria seu filho poeta.  

sexta-feira, 20 de julho de 2012



MANHATTAN REVISITADA

A broca do dentista doía fundo, parecendo que fustigava a minha alma. Enquanto o dentista cutucava minhas caries, dava uma espiadela na televisão ligada. De repente, aparece um avião se aproximando das torres do World Trade Center. Vai bater, vai bater... O avião se choca contra uma das torres que começa a cair como um castelo de cartas. Segurei a mão do dentista para ver melhor o triste espetáculo. Não era ficção ou efeito especial de um filme. Era uma triste realidade. Um avião, seqüestrado por terroristas do Al Qaeda atingiu um dos principais símbolos do império norte-americano. Milhares de mortos. Eram pessoas que estavam ali para trabalhar, fazer negócios, reuniões e de repente encontraram uma morte inexplicável.

Neste momento lembrei-me de um velho poema do Drummond, Elegia 1938, que termina com o verso: “Porque não podes, sozinho, dinamitar a Ilha de Manhattan”. Será que os extremistas do Al Qaeda leram o poema? Ou será que é um desejo inconsciente de todos os povos subdesenvolvidos? Por que Drummond escolheu a Ilha de Manhattan? Símbolo maior do capitalismo já naquela época? Dinamitando a ilha resolveria todos os problemas do mundo?

Naquela noite na sala de aula, os alunos estavam inquietos. O que será que vai acontecer agora? Vamos ter uma guerra nuclear? Procurei acalmá-los mostrando que foi um fato isolado, que os EUA não se aventurariam num confronto mundial utilizando todo o seu arsenal de maior potência militar do planeta em função do problema, por mais trágico que fosse. Não era um inimigo declarado na forma de um estado nação, mas um grupo radical querendo chamar a atenção.

No dia seguinte eu estava em um congresso internacional no SESC de Vila Mariana. Alguns conferencistas não vieram porque os aeroportos de Nova York e de outras cidades americanas estavam bloqueados, os que conseguiram chegar estavam tensos, preocupados. Um conferencista brasileiro, aproveitou para ler o poema do Drummond antes da sua fala. Ele também se lembrou do poema como eu e provavelmente muitos outros teriam lembrado.

No noticiário apareceram povos árabes xiitas comemorando o feito, como uma grande vitória futebolística. As pessoas vibravam ensandecidas com gritos de vitória. Só lá no Oriente Médio? Claro que não. Tive notícias de que na USP, estudantes radicais também vibraram com o ataque ao símbolo maior do capitalismo. Para o radicalismo a vida não tem nenhum valor. As famílias enlutadas, filhos sem pai ou sem mãe, os pais que perderam seus filhos em pleno vigor da vida, também não tinha significado algum. O que importa é o resultado, maquiando uma possível ética maquiavélica no ato. Morrer ou matar por uma causa é o que vale, o resto são conseqüências de somenos relevância.

As ideologias não podem ser ignoradas. Elas tem uma força tão avassaladora que supera qualquer obstáculo humanista ou ético. As pessoas vivem e morrem por elas. Como os soldados retratados por Geraldo Vandré em sua bela canção: “Nos quartéis lhes ensinam antigas lições/ De morrer pela pátria e viver sem razão”. O nacionalismo ainda é uma ideologia poderosa e os jovens americanos também são guiados por ela para lutar e morrer pelo ideal americano de vida ou pela “Grande América”. Quando retornam vivos são reverenciados pela sociedade, quando mortos, restam apenas a dor da perda, uma salva de tiros e uma bandeira dobrada sobre o esquife.

Os homens-bombas são levados a estes atos insanos sob a promessa de que no céu terão uma vida plena de prazeres, com muitas virgens a disposição. Nunca lhes perguntaram onde estaria este céu. Em outra galáxia ou em algum dos planetas do sistema solar? O céu é uma construção mitológica dos antigos que imaginavam que os deuses estariam lá controlando a vida na terra. Depois das viagens espaciais, fica difícil acreditar que exista um céu, mas esse racionalismo não cabe nas mentes fanáticas e cegas por seitas religiosas. Enfim morre-se também por Deuses, pela salvação da alma e também por virgens e potes de mel

domingo, 24 de junho de 2012


ITANINA LADEIA: BREVE RETRATO DE UMA MÃE QUE PARTIU






Nascida em Buenópolis, MinasGerais, era ainda criança quando a família mudou-se para o Rio de Janeiro e depois para Araçatuba, São Paulo.  Gostava de cantar e declamar versos, principalmente religiosos. Era católica praticante, ia à missa toda semana, mas permitia-se algumas escapadelas aos centros espíritas, principalmente na casa da dona Nésia, uma simpática vizinha russa, amiga da família. Era uma grande contadora de histórias, muitas das quais são inesquecíveis. Seus avós, coronéis escravocratas falidos no século dezenove, deixaram apenas as histórias que ela contava para os filhos. Sentávamos todos em sua cama para ouvir os contos de fada e histórias da família.  A família passou por muitas dificuldades, pois seu pai, que apesar de culto e bem informado sobre tudo o que acontecia no mundo, não se adaptou a nenhuma profissão que exigia rotina, horário fixo e chefe. Foi professor primário, delegado, juíz de paz e finalmente farmacêutico prático. Aos doze anos ela já estava empregada em um laticínio, trabalhando como faturista para custear seus estudos, que infelizmente não conseguiu concluir. Com a morte prematura da mãe e o pai doente, foi morar na fazenda de uma irmã mais velha. Lá ajudava os colonos a escreverem cartas para seus parentes de longe. Quando recebiam suas cartas a procuravam para que ela as lesse. Eram cartas de Portugal, Espanha e de outras regiões do Brasil.
Em matéria de música era eclética, apreciando desde os caipiras de raízes como Tonico e Tinoco, Torres e Florêncio entre outros até os clássicos da MPB como Joubert de Carvalho, Noel, Francisco Alves etc. A música sempre esteve presente em sua casa, pois seu pai arranhava uma viola e a mãe se defendia no acordeon.  Mulher independente e lutadora, nunca esperava que as coisas caíssem do céu. Contava que quando criança quase fugiu com um circo que passou por sua cidade, pois lhe convenceram que poderia cantar nos espetáculos. Era divertida e brincalhona, gostando de pregar peças nos amigos e vizinhos. Aprendeu a ler cartas com uma cigana e divertia suas amigas lendo o futuro, séria como se fosse uma verdadeira cartomante. Quando alguém se propunha pagar-lhe pela leitura das cartas, recusava-se por considerar um pecado mortal.
Arregaçava as mangas e ia à luta, para si ou para os que necessitavam, não importando cor, origem ou condição social. Um dia, quando criança, ao levantar, encontrei um garoto vizinho, muito pobre, dormindo no sofá de casa. Minha mãe, ao chegar em casa a noite, o encontrou dormindo em nosso terraço, pois a mãe dele não o deixara entrar em casa. Ela não teve dúvidas e o acolheu, deixando para o dia seguinte um sermão na mãe desnaturada.
Nos anos cinqüenta nosso bairro em São Caetano do Sul, era carente de recursos e era ela quem socorria os vizinhos aplicando injeções ou fornecendo algum medicamento de emergência. Quando morria alguém, ela estava sempre a postos para lavar os defuntos e vesti-los sem nenhum constrangimento. Bem mais tarde, habilitada como motorista, colocava a sua Brasília a serviço de quem necessitava, levando as pessoas aos médicos e hospitais.  Aliás, como motorista tornou-se famosa no bairro, pois era um grande risco passar perto dela. Com seu primeiro carro, um fusca, bateu em todas as laterais e para lamas. Apesar das broncas do marido e dos filhos, não desanimou e continuou provocando alvoroços no trânsito da cidade.
Gostava de proteger os velhinhos e um deles, nosso vizinho, um italiano chamado Antonio Piffer, passava todos os dias lá em casa para um cafezinho. Ela podia estar até o pescoço de trabalho, mas parava para fazer e servir um café para o Nono e tirar um dedo de prosa. Um dia ele teve uma discussão com a nora e resolveu ir para nossa casa, pois considerava minha mãe como uma filha. Infelizmente a aventura do Nono não durou muito, pois sua família foi buscá-lo no final do dia. Ficamos todos tristes pois já estávamos adorando ter um avô em casa e as histórias que ele contava da sua Itália.
Quando viúva assumiu a incumbência de lavar e vestir o corpo do marido e de nada adiantou dizer a ela que a funerária cuidaria de tudo. Acreditava que só as mulheres fracas não tinham coragem de fazê-lo. Tempos depois, ao ser avisada de que seu filho mais novo havia falecido, chorou alguns minutos e em seguida levantou-se, altiva como sempre foi, e disse: “Se morreu, vamos enterrá-lo e orar por sua alma”.
Nos últimos anos sua memória começou a definhar, mas ainda conseguia se recordar dos versos que aprendera na infância. Há uns cinco anos comprou um caderno e resolveu escrever as suas memórias, mas logo nas primeiras páginas  desistiu porque já não conseguia lembrar como escrever algumas palavras. Com cataratas, resolveu fazer a cirurgia e como o convênio médico não pagava a lente, achou um absurdo e resolveu operar num hospital público. No dia seguinte estava cega do olho esquerdo. Abateu-se por alguns dias, mas logo depois estava novamente na luta e foi com muito custo que conseguimos convencê-la de que seria muito perigoso continuar dirigindo com apenas um olho e ainda não sendo uma boa motorista.  E foi com lágrimas nos olhos que concordou em vender a sua Brasília, que comprara zero km e que estava, depois de vinte anos de uso, com apenas 20 mil km rodados. Com apenas um olho e com catarata, não desistiu de operá-lo, mesmo os médicos aconselhando-a não fazê-lo, em razão do histórico. Como não houve meios de convencê-la, procurei um dos melhores especialistas para fazer a cirurgia com o mínimo de risco. Felizmente deu tudo certo.
Tinha grande orgulho de ser, acreditava, a única Itanina no Brasil, um nome de origem italiana que seu pai descobrira numa revista nos anos vinte. Apesar de ser um bonito  nome, permaneceu único na família. Mas todos a conheciam por Ita. Quando chegaram os netos, vaidosa, recusou-se a ser chamada de avó. Preferia apenas Ita, que a seu ver era mais simpático, mas sua primeira neta, Maria Lúcia, preferiu inovar e resolveu chamá-la de madóca.
Defeitos, ela tinha lá os seus. Falava o que pensava sem se preocupar com os efeitos que isso provocava nas pessoas.  Era  econômica até ao exagero, gastando com muita parcimônia cada centavo que ganhava. Para ela nada devia ser desperdiçado e pensando assim, reciclava todas as roupas da família. Doces e guloseimas só os  feitos  em casa. “Doces de bares e padarias não prestam e custam caro”, dizia sempre. Mesmo não sendo uma hábil cozinheira, preparava um delicioso arroz doce com canela. Seu bolos, apesar de simples, eram saborosos e as porções eram sempre generosas. Itanina, eternamente.

domingo, 3 de junho de 2012


 OS VELHOS TEMPOS DA JOVEM GUARDA

Anos sessenta, quando a Jovem Guarda fervilhava na televisão, no rádio, nos cabelos quase compridos da garotada, nas botinhas com salto carrapeta, nas calças rancheiras justas de brim bege (pois o índigo blues só para quem tinha dinheiro para comprar nas lojas de contrabando ou viajava para o exterior), as camisas coloridas, pulseiras etc. O rock and roll estava no ar. Como os Beatles eram inacessíveis o jeito foi criar uma opção cabocla e o Roberto Carlos e sua turma ocuparam esse espaço entre os adolescentes.
Quase todo adolescente chegou a sonhar em ser um ídolo da jovem guarda, cantar nos programas de televisão, gravar um disco e fazer sucesso com as meninas. Alguns tinham até talento e mandavam bem, cantando nas rodinhas ou em festas dos colégios. Juca, ou Antonio Carlos Junquetti era um desses garotões extrovertidos com cabelo na testa que fazia sucesso com as garotas imitando o Jerry Adriani.  Mas havia um cantor de verdade no colégio, o Dorival Marcos (nem sei se era o seu nome verdadeiro ou se já era o artístico), que tinha um vozeirão. Mesmo cantando a capela, conseguia encher o pátio, fazendo calar a plateia de estudantes.  Ele cantava as versões do francês Charles Azsnavour que eram gravadas pelo Agnaldo Rayol. O menino era um sucesso para nós e todos acreditavam que ele iria acontecer.
Mas o tempo passou e já se foram mais de quarenta anos e nunca vi o Dorival em nenhum canal de televisão, jornal ou revista especializada. Por outro lado eu também me desliguei bem cedo da juventude alienada e roqueira.  Meus interesses mudaram, passei a curtir a MPB e seus artistas engajados ou conscientes politicamente, como Chico Buarque, Geraldo Vandré, Gilberto Gil, Caetano entre outros.
Mas um dia desses rodando por São Caetano, passei em frente a casa onde a namorada do Dorival morava naqueles antigos e saudosos anos sessenta. E foi aí que bateu certa nostalgia daquela época e resolvi tentar localizá-lo pela Internet. A única pista que encontrei foi uma foto de um disco compacto simples (uma música de cada lado) e o Dorival na capa apresentado como relíquia de um sebo de discos.
Lembrei-me de um sábado chuvoso em que nos encontramos no colégio e no caminho de volta ele comentou que precisava ir cantar num concurso na TV Gazeta e não tinha grana nem para a passagem de ônibus. Foi aí que eu me ofereci para patrocinar a empreitada. Fomos até minha casa e consegui uns trocados com minha mãe e chegamos até a TV Gazeta, na Avenida Paulista, um pouco antes do início do concurso, depois de tomarmos pelo menos três coletivos.  Fiquei na platéia e assisti vários calouros interpretando alguns clássicos da Bossa Nova, acompanhados por um trio com piano, baixo acústico e bateria como o velho Zimbo Trio. Chegou a vez do Dorival, que cantou uma canção cheia de acordes dissonantes. Fiquei na torcida para que ele se classificasse e até que ele se saiu bem, mas habituado as baladas, rock ou canções francesas e italianas parece-me que deu umas pequenas atravessadas e não obteve a classificação para continuar no concurso.
Voltamos desanimados, ele evidentemente muito mais do que eu, pois foi uma oportunidade perdida de conseguir alguma visibilidade, mesmo que não fosse através da jovem guarda, que parecia ser o seu objetivo. No caminho comentou que talvez fosse desistir do colégio, pois não tinha tempo nem cabeça para estudar. Ou a minha memória apagou ou nunca mais vi o Dorival Marcos depois daquele dia.  Como também mudei de rumo e de colégio, ficou apenas uma remota lembrança de seu vozeirão cantando “Ma vie” no pátio do colégio.
Se o velho Dorival ainda estiver vivo, é provável que nem se lembre mais desse episódio, remoto em nossas lembranças. É possível também que não seja agradável recordar das dificuldades da vida passada.
O Juca, o outro garoto Jovem Guarda, encontrei depois de algum tempo que sai do colégio e quando eu já estava na faculdade. Ele ainda prometendo acontecer, mas não mais na música.  Não sei conseguiu se formar, mas dinheiro soube que ganhou, pelo menos foi a notícia que deu-me um conhecido comum  de que ele havia se tornado um bem sucedido negociante de automóveis, sua antiga paixão, e estava se dando muito bem.
Enfim, o que eu queria mesmo era contar a história de um cantor, como muitos que sonharam e ainda sonham com a vida artística. Dorival pelo menos deixou registrada a sua marca, gravando duas canções que não ainda não tive oportunidade de ouvir “Menina dos olhos grandes” e “Todo meu amor”. Quem sabe um dia passe pelo sebo e resgate um pedaço daqueles bons tempos ou como diz a canção do Roberto “Daquelas velhas tardes de domingo”.

Renato Ladeia

sábado, 12 de maio de 2012


OS DIÁRIOS DO ALMIRANTE
A história vista pelos diários de bordo.

Relendo os Diários de Bordo do Capitão e depois Almirante Graham Eden Hamond* escritos nos longínquos anos de 1825 e 1838, revi umas passagens interessantes em que o oficial inglês escreve sobre o Brasil e seu povo.  Na primeira parte do diário (1825), Hamond ainda era capitão e foi responsável por trazer a comitiva encarregada do reconhecimento da independência do Brasil. A maior parte do diário se refere aos encontros protocolares e alguns aspectos técnicos de navegação, mas como era do seu estilo fazer comentários sarcásticos sobre pessoas e costumes, não resisti e anotei alguns deles, muitos não são politicamente corretos para um oficial estrangeiro em viagem de representação, mas que representavam a visão eurocêntrica e elitista de uma potência imperial européia.
Era agosto de 1825 e ele avista uma carruagem puxada por quatro cavalos que era dirigida por nada menos que o nosso jovem e fogoso imperador, informalmente vestido, que dá a volta e retorna para cumprimentar os ingleses, mesmo sem falar uma palavra na língua de Shakespeare.  Estávamos construindo a nossa informalidade, nosso jeito de quebrar regras e padrões formais de comportamento. Dias depois Hamond comenta em seu diário que vê a imperatriz Leopoldina montada em um cavalo como um homem (na época as mulheres da elite montavam de lado nas selas dos cavalos) e ela também estava acompanhada por um negro branco e um padre preto. O que ele quis dizer com negro branco? Provavelmente um escravo mestiço, com a pele branca. O padre preto também era algo surpreendente para a época, pois era raro um negro ter acesso a um seminário.
Naquele tempo os franceses estavam em alta no Brasil depois de um acordo em que 600 jovens brasileiros foram convidados a estudar na França com as despesas pagas. Enquanto no Rio de Janeiro habitavam mais de 3000 franceses, apenas 600 ingleses eram moradores na cidade, apesar da grande influência econômica dos britânicos no país.  A Rua do Ouvidor, que existe até hoje, era praticamente uma rua de franceses, com muitos modistas. Era o prenúncio da invasão dos “Pierre Cardin, Yves Saint Laurent, Louis Vuitton” etc. Essa preferência pelos franceses surpreendeu o inglês, pois em suas visitas a Portugal, observara que a influência inglesa era notória entre os lusitanos.
E o palácio do imperador? O nosso almirante o descreve como um edifício feio, amarelo e na época estavam a fazer nele alguns puxadinhos, pois era pequeno demais para abrigar a corte. E a cidade maravilhosa? Hamond narra um dia de chuva, em pleno 1825 e diz, maldosamente, que é a cidade mais imunda que já viu em sua vida e até os escravos estavam cobertos de lama. Em dias de chuva parece que o Rio gosta ainda de reviver os velhos tempos.  Mais adiante ele comenta que não pode achar a cidade saudável por causa dos abomináveis pântanos que tem em redor. No mesmo dia, o oficial britânico manifesta dúvidas se Portugal vai mesmo reconhecer a independência do país de forma tranqüila ou vai manter uma soberania nominal sobre a antiga colônia. Estava errado, apesar de que o Brasil foi obrigado a pagar uma pesada indenização ao império português, que apesar dos trezentos anos de exploração das riquezas da terra ainda exigiu os “lucros cessantes”.
No dia 15 de dezembro de 1834 havia chegado ao porto um brigue com 500 escravos a bordo que fora detido por um capitão inglês. Havia nele 521 escravos, mas 21 morreram pelas péssimas condições a bordo. Hamond prevê a morte de 1 a 2 escravos por dia. Dias depois ele comenta que 200 dos melhores escravos foram roubados durante a noite. Com este episódio ele manifesta descrença de que o governo queria realmente abolir o tráfico, pois o tratado era bastante antipático para os brasileiros. O pior é que um juiz brasileiro acusava os ingleses pelo roubo dos escravos. Hamond qualifica os ministros brasileiros como salafrários. Posteriormente ele relata que o Ministro das Relações Exteriores, um tal de Aureliano foi acusado como responsável pelo roubo dos escravos.
Ele relata em 10 de fevereiro que houve, na Bahia, um levante de escravos que resultou na morte de 60 deles durante a violenta repressão do governo local. Vê-se pelo relato que a situação não era muito pacífica no império com relação à ordem escravocrata.
Outro fato interessante relatado pelo oficial inglês é o seu encontro com o imperador, em que ele descreve que “É um menino de 10 anos com uma aparência agradável. Estava vestido de uniforme azul e ouro, calças brancas e amarrado a uma espada enorme”.   Neste episódio, relativo à comemoração do aniversário da constituição, estavam presentes vários oficiais e ao descrever um deles, o britânico assim se expressa: “Um mulato oficial do exército, tinha o aspecto de um imenso babuíno e, realmente, só lhe faltava o rabo”.  Observa-se pela descrição que dependendo da posição social e econômica, não havia dificuldade de acesso dos mestiços aos altos escalões militares e nem mesmo na corte. O que é bastante desagradável é a forma racista com que o inglês se referia as pessoas de origem africana.
Outro fato curioso são os comentários que faz sobre as mulheres, principalmente com relação aos dentes. Numa ocasião descreve uma mulher brasileira pertencente à elite que não tinha um único dente na boca. Num baile Hamond comenta sobre a dança na moda no Rio de Janeiro, a quadrilha e elogia os músicos, na maioria mulatos.
No dia 24 de junho, dia de São João, relata que houve uma grande festa, mostrando que a comemoração, que hoje tem importância maior no nordeste do que nas outras regiões do país, era uma festa bastante concorrida na capital do império.
Em 31 de julho o seu navio está atracado em Recife, onde ele observa que os escravos negros de lá são bastante diferentes dos existentes no Rio de Janeiro, notando que são provavelmente originários de apenas uma região da África.  Como de costume, ele faz observações racistas ao dizer que alguns teriam belas faces se não fossem negros.
Sua pena crítica não perdoava o governo brasileiro da época ao mencionar que os recursos seriam prodigiosos se as receitas fossem aplicadas corretamente. “Mas o peculato, nos vários departamentos, vai além de qualquer observação possível” (pg.89). Infelizmente isso mostra que nossa vocação para o patrimonialismo tem raízes antigas. Numa outra passagem, comenta sobre a captura de mais um navio negreiro, que apesar da proibição, o tráfico continua no país. Com desalento ele revela que de pouco adiantara a captura, pois em pouco tempo os escravos estariam trabalhando nas fazendas apesar de estarem sob a custódia do governo.
A propalada fama de que as mulheres brasileiras são muito bonitas não encontrava em Hamond uma opinião muito favorável, pois escreve em seu diário que havia poucas mulheres realmente bonitas no Brasil. Cita ainda a opinião de um francês, que havia estado em vários lugares no mundo, que dizia que nunca havia visto, numa reunião, tão grande número de mulheres feias como no Rio de Janeiro.
Os diários do Almirante, apesar dos seus comentários preconceituosos e reveladores de um distanciamento muito grande da realidade brasileira por parte de um oficial elitista e preconceituoso, são interessantes para se captar nuances do cotidiano do Brasil há quase duzentos anos. Um país recentemente independente que manteve intactas as estruturas coloniais após se libertar do jugo da metrópole portuguesa

  • HAMOND, G. E.  “Os diários do Almirante Grahan Eden Hamond 1825 -1838”. Tradução de Geyer, Paulo Fontainha, Rio de Janeiro: Editora JB, 1984.
Renato Ladeia

VIDA DE BOIADEIRO






Meu amigo Álvaro Pequeno, por contradição um grande sujeito, no tamanho e na generosidade, defendeu uma tese um tanto atípica nos meios acadêmicos sobre os peões de boiadeiro em sua trajetória desde os tempos heróicos dos tropeiros. Os atuais peões de boiadeiro usam roupas de grife americanas, com botas que chegam a custar até dois mil dólares. As festas que são realizadas em Barretos chegam a reunir mais público dos que os grandes clássicos de futebol. Os peões colocam suas vidas em jogo por alguns segundos de fama em cima de um boi selvagem. Quando conseguem vencer a disputa e sobrevivem no lombo do boi, podem ganhar uma pequena fortuna. Quando não, podem sobrar umas costelas, pernas  quebradas ou até uma paralisia.  Os pobres peões são parte do espetáculo, mas dormem embaixo dos caminhões enquanto aguardam sua vez de entrar na arena e quando são acidentados são abandonados pelos organizadores.
Quando soube da sua pesquisa lhe ofereci umas fotografias que eu tinha guardadas em casa do meu tio boiadeiro, que labutou pelo interior de São Paulo e Mato Grosso, transportando boiada. José Ladeia , estava com apenas dezessete anos quando abandonou a escola e a família para viajar junto com uma comitiva. Sua primeira função numa viagem para o Estado de Mato Grosso foi como ajudante do cozinheiro. Aos poucos foi pegando jeito e logo já estava tocando a boiada junto com os demais vaqueiros. A vida de boiadeiro ou tocador de boiada era muito difícil, conforme contam os cronistas e as modas de viola. Dormir ao relento em cima do baixeiro era rotina dessa vida nômade levando e trazendo boiadas pelos sertões. Mas para José era uma aventura sem fim, sentia prazer com esse trabalho que lhe dava algumas satisfações e sucesso com as mulheres. Pelo nosso interior adentro ser namorada de boiadeiro era a possibilidade de estar com um homem que conhecia o mundo, uma pessoa viajada, experiente. Além disso, a espera era sempre compensada com presentes vindos de longe.  José aprendeu a tocar viola com o pai, que lhe ensinava algumas modas. Com isso ele divertia a peonada cantando músicas como Viagem Cuiabana que enaltecia a vida de peão de boiadeiro.
Tempos depois já era o chefe de comitiva, cabendo-lhe a responsabilidade pela entrega do gado e recebimento dos pagamentos. Pagava os peões que torravam o pouco que ganhavam nos cabarés das cidades onde deixavam o gado. Lá sempre eram envolvidos por mulheres sedutoras, que prometiam fidelidade eterna com uma mão no coração e outra no bolso do peão.
Boiadeiro não podia casar e quando isso acontecia era inevitável a separação, pois a vida errante não permitia uma vida sedentária. As longas viagens minavam qualquer relacionamento. Foi o que aconteceu com meu tio. Casou-se com uma boa moça do interior, filha de um fazendeiro e com ela teve cinco filhos. Casado, as viagens diminuíram, mas a paixão pelas comitivas falou mais forte e o casamento acabou.
Logo se envolveu com uma professora de Araçatuba, chamada Norma. Era bonita e elegante e estava feliz por ter ao lado  um boiadeiro quase famoso e muito respeitado na cidade. O casal era feliz e viviam aos beijos e abraços até que um dia o jovem boiadeiro, domador de burro bravo e que se gabava por subir em qualquer lombo de boi, teve uma queda fatal. Ficou desacordado e ainda chegou com vida para despedir-se da mulher amada. Morreu com 30 anos com a cabeça ainda cheia de sonhos e paixões.
Ele gabava-se por sair de Araçatuba antes de nascer o sol e chegava à casa dos pais, em Lavínia, antes do sol se pôr. Eram mais de 60 quilômetros a galope no lombo do fiel burro Furioso que deixava poeira para fora pelas estradas boiadeiras que cortavam a região noroeste paulista. O Furioso vinha todo incrementado, com peitoral de argolinha feito sob encomenda pelo Sebastiãozinho traçador.
E o Álvaro Pequeno fez uma pequena homenagem aos boiadeiros brasileiros que labutavam a região sudeste, descrevendo as suas aventuras e desventuras desde o século XIX até Barretos, cidade dos peões de boiadeiro. Ele foi além da tese, bem escrita, com pesquisas teóricas  e empíricas e trouxe para a Universidade um grupo típico de boiadeiros com toda a sua parafernália, incluindo cozinheiro, comida típica como paçoca e arroz de carreteiro. Para encerrar, belas e inesquecíveis modas de viola. José, observava atento a movimentação ao lado do seu burrão Furioso, mas era apenas uma fotografia ampliada em forma de painel que o amigo Álvaro mandou preparar como símbolo de um tempo.

VIZINHOS

Não conheço meus vizinhos. Não sei o que eles fazem, o que pensam, em quem votam ou do que não gostam. Alguns são silenciosos, outros são barulhentos, mas é somente isso que posso lembrar sobre eles. Quando era criança sabia a vida de todos os habitantes das redondezas. Meu bairro era uma pequena aldeia e todos estavam conectados. Hoje estamos todos conectados globalmente e perdemos o contato pessoal com as pessoas próximas.
Pensando nisso, resolvi revisitar a mesma rua onde morei até os vinte e sete anos.  Era uma rua com pouco movimento e lá podíamos brincar de taco o dia inteiro sem o risco de passar um carro em velocidade. O taco era um tipo de basebol adaptado às circunstâncias e recursos disponíveis. Fui abrindo o livro da memória e resgatando os velhos tempos.  Naquela rua jogávamos também futebol com bolas de borracha, de couro ou feitas com meias. Trânsito só tinha mesmo nas ruas laterais, por onde transitavam os ônibus circulares. Algumas vezes os vizinhos reclamavam, principalmente quando uma bola caia nos quintais, quebrando plantas ou vidraças. A coisa ficava feia e num piscar de olhos a turma toda desaparecia. A rua ficava um deserto e somente no dia seguinte o pessoal aparecia e muito desconfiado.  Era difícil saber quem foi e por isso acabava ficando por isso mesmo. Mas para os vizinhos, os meninos mais pobres eram sempre os culpados. Como sempre, o preconceito de classe social fazia as suas vítimas.
Algumas calçadas ainda eram de terra e nelas fazíamos as biroscas ou buraquinhos para jogar bolinhas de vidro. Era uma alegria só. Os “patos”, jogadores muito ruins, perdiam todas as bolinhas compradas no armazém do seu Antônio. As brincadeiras tinham a sua época própria, obedecendo a uma sazonalidade que parecia programada. Eram épocas dos piões, das bolinhas de vidro, das pipas, da unha na mula e outras tantas. Quando chegava o verão e começava a escurecer o divertimento era pegar vagalumes e coloca-los em vidros. Era um luxo só ter um abajur de vagalumes.
Cada um dos nossos vizinhos tinha uma história diferente. Era uma rua quase internacional. Dona Maria, uma senhora polonesa, que todos chamavam de Maria Hungareza, era prima do papa João Paulo II conforme se descobriu tempos depois, e tinha o mesmo sobrenome, Woytila.  A Dona Ana, uma alemã, tinha uma filha bonitona, que era professora no grupo escolar, chamada Rasma. Tinha mais dois filhos, um deles o pobre Frederico, que tinha retardamento mental. Todos os meninos cresceram e foram ficando rapazinhos enquanto o Frederico só ficou grande, mas com a cabeça de uma criança. Corria entre as crianças menores para apanhar balões, disputando a tapas a primazia de apagar a tocha.  Ele sempre pegava os balões, pois tinha quase dois metros de altura.
Quase em frente de nossa casa morava o seu Affonso que trabalhava nas indústrias Matarazzo e nas horas vagas cortava o cabelo da criançada por um preço bem mais baixo do que nas barbearias do bairro. Enquanto cortava minhas madeixas gostava de conversar, principalmente pelo fato de que eu já estava no ginásio e por isso achava que eu já devia ter opiniões sobre tudo. Seu pai era um velhinho italiano, baixinho e roliço que adorava uma caninha. Saia de casa todos os dias e andava uns dois quarteirões para tomar uma branquinha. Voltava tropeçando na sombra. Seu Antônio era muito simpático e brincalhão com as crianças e todos nós o adotamos como o nono. Isso com direito a pedir-lhe a benção que ele adorava. Gostava de fazer charadas com as crianças como uma em que fazia uma afirmação sem vírgulas que mudava o sentido da frase: “Matar o rei não é pecado ou Matar o rei, não, é pecado”. Hoje eu me lembro muito bem que ele repetia sempre a mesma coisa e nós achávamos sempre graça. Uma vez ele me flagrou fazendo xixi atrás do muro de sua casa. Fiquei assustado, mas ele foi muito gentil e disse que fazia mal parar. “Pode continuar sossegado”, aconselhou no seu sotaque italiano. Numa outra vez um menino me chamou de f.d.p. e ele ouviu indignado. “Na Itália, chamar a mãe de alguém assim, dá cadeia”. Pode ser que era no seu tempo, final do século XIX, mas hoje os italianos...
Seu Antonio, o vizinho do lado, era um homem enorme que andava sempre de terno preto e muito quieto. Sua mulher, dona Iracema era uma mulher de pouco humor. Eles não tiveram filhos e por isso a pouca tolerância com crianças. Vieram de Osasco, na época uma pequena cidade no oeste da capital. Em seu quintal havia pessegueiros, ameixeira, amoreiras etc. que eram a delícia dos pássaros e da molecada. De vez em quando corríamos o sério risco de levar uma lambada entrando furtivamente em seu quintal para surrupiar umas ameixas amarelinhas. Tempos depois descobrimos que a Da. Iracema não era tão ruim como inicialmente pensava. Ela fazia um nhoque imbatível.
Outro vizinho chegado às caninhas era o seu Osvaldo, um santista que o meu irmão gostava de imitar e o fazia tão bem que confundia até os seus filhos. Uma vez, quando comprei o meu primeiro fusquinha, ele resolveu que precisava me ensinar algumas dicas para ser um bom motorista e acabou dando uma ralada em meu primeiro carrinho. Ele prometeu pagar o conserto, mas como quem tomava conta do dinheiro era sua mulher, fiquei a ver navios.
Na esquina morava uma família enorme, também de origem italiana. Eram quatro ou cinco filhas e dois filhos, com os quais travamos violentas brigas de pedras e lá se iam vidraças. As ruas não eram calçadas e a prefeitura para evitar atolamentos de veículos, colocava resíduos de siderúrgicas, que deixavam pedras pesadas e ponte agudas, um perigo quando acertava a cabeça de alguém. Aliás, a minha ainda conserva marcas de petardos atirados por algum desafeto.
Dona Frida, uma russa, professava o espiritismo e convidava os vizinhos para participaram da mesa branca. Minha mãe sempre ia, pois apesar de católica, gostava de transitar pela Umbanda e o Kardexismo. Uma vez fui com ela, pois estava com uns problemas de saúde e ela resolveu tentar a sorte antes de levar-me ao médico. Com meus doze anos, achei estranha cerimônia, bastante diferente dos rituais da igreja Católica. Havia um copo com água sobre a mesa com toalha branca e algumas velas acesas. A luz era apagada para criar um clima de paz para que os espíritos se comunicassem. Confesso que não vi nem senti nada. De repente, no meio do ritual, a Dona Amélia, que tinha um leve sotaque russo, começou a falar português com sotaque nordestino, depois mudou para um sotaque alemão. Minha mãe me explicou que ela era um cavalo que estava recebendo o espírito de alguém estrangeiro. Ora, pensei com meus botões: Por que não fala na língua de origem e não em português. Fiz a pergunta para minha mãe e ela mandou que eu calasse a boca, pois não entendia nada.
Nossos vizinhos dos fundos tinham filhos da mesma idade que a gente e por isso éramos mais próximos. Estávamos sempre brincando e íamos muito a casa deles. Uma vez eu e meu irmão mais novo dormimos lá, pois minha mãe estava internada por causa de uma cirurgia. Foi muito divertido e o pai deles seu Pepe, um mecânico, ensinou vários truques para mim. Vimos televisão até tarde da noite, coisa que nunca acontecia em casa, pois meu pai além de dormir cedo, pensava que se a televisão ficasse ligada por muito tempo daria problemas e despesas com o técnico. O filho mais velho deles, o Paulinho Cabeção, era assim chamado por ter a cabeça um pouco grande, mas era um bonachão e apesar de mais velho tinha comportamento de garotos de menos idade. Ele se divertia rodando um pneu de carro pelas ruas. Não conseguiu terminar a escola primária e teve dificuldades para trabalhar. Encontrei com ele na casa dos meus pais em 1995, quando meu pai estava se recuperando de uma pneumonia. Paulinho já era um senhor de cabelos muito brancos, bastante envelhecido para idade. Neste mesmo dia meu pai teve um enfarto e só saiu do hospital para a última viagem.
Outra vizinha, dona Itália, foi vítima de uma grande tragédia. Seu filho de 18 anos morreu afogado em uma represa em São Bernardo. Foi muito triste, pois era apenas um garoto. Ele saiu com uma turma para nadar e aconteceu o trágico acidente. Logo depois o seu marido morreu com câncer, que em casa se chamava doença ruim, ou aquela doença que ninguém gostava de falar o nome. Fui com meu pai visitá-lo uma vez. Era um senhor alegre e simpático que mesmo acamado sem poder andar, ainda fumava e dizia besteiras. Dona Itália, sua mulher chorou muito no velório. Gritava desesperada que os dois únicos homens de sua vida tinham partido. Ficou ela e a filha Marizilda, uma garota levada da breca, que era a valentona do bairro e batia até nos marmanjos. Como a mãe trabalhava fora, ela abria a casa e servia pão com manteiga e café com leite para toda a molecada. Ser amigo dela era uma proteção. Um dia ela resolveu ir para a nossa casa com toda a sua turma. Minha irmã mais velha acabou deixando, mas constrangida porque nossa mãe não gostava de crianças em nossa casa. No dia seguinte teve muitas palmadas e puxões de orelha, além das terríveis broncas. Ela só não contou para meu pai com medo de que ele ficasse muito furioso.  Mas a Dona Itália, tempos depois teve um caso com um rapaz solteirão, filho do marceneiro.  Ela bem mais velha do que ele e era muito ciumenta e ele chegado a um rabo de saia conforme se falava lá em casa. Um belo dia de sol apareceu uma moça bonita e elegante na esquina do armazém do seu Antonio e perguntou-me se eu conhecia o Alexandre. Claro que conheço, respondi prontamente. Então ela pediu-me que fosse dar um recado que ela muito queria falar com ele. Fui rapidinho até a casa do tal de Alexandre, que estava dormindo. Quando falei que uma moça estava querendo falar com ele, a Dona Itália ficou uma fera e saiu de chinelas para encontrar a rival. Foi o maior barraco. A moça, muito educada tentou contornar a situação, mas foi humilhada publicamente, com todos os impropérios que as mulheres ciumentas utilizam contra as suas rivais. Naquele dia aprendi novas palavras e tornei outras mais feias. Começou a juntar muita gente até que o Alexandre apareceu e apartou o que seria uma briga de fato. A moça foi embora e ele levou a mulher para casa.
E por falar em afogamentos, esses eram constantes na represa em São Bernardo e de vez em quando tínhamos notícias de novas tragédias. Um colega do grupo primário, o Mário Corvalan, também caiu na armadilha e morreu com 18 anos na mesma represa. Meu irmão Nelson quase foi vítima da mesma tragédia. Por sorte na segunda vez que subiu à superfície, um bombeiro conseguiu retirá-lo de lá. Outro menino, que estudava no mesmo colégio que eu, também foi vítima e este estava com apenas 16 anos.
Andando pela rua acabei lembrando também de um caso que quase virou uma tragédia. Dona Mariquinha, a mulher do padeiro, ficou furiosa com um menino que bateu em seu filho. Não foi nada de mais, mas o menino chorou pra burro.  Dona Mariquinha foi até onde o garoto estava e deu-lhe uns safanões para que aprendesse a nunca mais bater em seus filhos. A mãe do menino trabalhava numa fábrica até as dez da noite e no outro dia, sabendo da história pelos outros filhos, não teve dúvidas. Levantou-se cedo, colocou um punhal escondido no peito, mas que dava para ver um pedaço do cabo. Tirou o garoto da cama e o levou arrastado até a casa da vizinha. Ele não queria ir, principalmente porque ele havia molestado o garoto sem nenhum motivo e depois ficou seriamente com medo do que poderia acontecer. A molecada foi atrás da dona Custódia como uma procissão. Chegando à casa da dona Mariquinha, esta abriu a janela e tremeu igual uma vara verde. Dona Custódia com o filho puxado pela mão entrou na varanda da casa e bateu forte na porta. Dona Mariquinha saiu de camisola e pediu pelo amor de Deus que não batesse nela e que tivesse dó dos seus filhos. Dona Custódia mostrava o filho e falava: “Quero que tu bata nele agora! Vamos sua covarde, encoste um dedo nele que tu não vai ver mais seus filhos”. A mulher chorou desesperada e se ajoelhou nos pés da dona Custódia, uma gaucha valente que só vendo. Pessoalmente, acho que ela não ia fazer nada, mas quis impressionar e garantir que ninguém iria molestar seus filhos em sua ausência, já que eles ficavam sozinhos quase o dia inteiro.
Eu também protagonizei uma cena que ficou nos anais da memória dos velhos. Um garoto gordo e molengão chamado Rodil bateu em meu irmão mais novo. Não tive dúvidas, fui tirar satisfações com o grandalhão e apliquei-lhe uma gravata e uma rasteira e só ouvi o tombo do menino no chão. A mãe, uma senhora roliça, resolveu entrar na briga e acabou caindo no chão junto com o filho. Diante do inusitado, dei o fora, pois brigar com adultos era encrenca na certa. No dia seguinte ela estava em nossa porta para conversar com minha mãe. Dona Itanina pediu desculpas pelo que aconteceu, mas antes advertiu a senhora balofa que em briga de crianças, adultos não devem se envolver. Mas de qualquer forma levei uma surra bem dada com um velho cinto do papai, grosso, cruel e pesado, que deixou manchas vermelhas pelas pernas e na alma.
Nesta visita a minha rua e ao meu bairro, senti saudades dos velhos e distantes tempos de criança. As paixões de infância, como a Geni que era filha do guarda civil, depois a Mirian, filha de um amigo do papai e, finalmente, a Maria, minha vizinha do lado, fizeram-me lembrar que, naquela época, eu era bem volúvel em matéria de amor. Prédios deram lugar as casas dos antigo vizinhos e companheiros de infância. Nada é para sempre e na época não se pensava nisso. Parecia que o mundo seria sempre o mesmo.  O sol sempre quente e as peladas na rua que duravam eternamente. Virava depois de seis gols e acabava com doze e nas férias jogávamos várias partidas que só paravam quando o sol se punha no horizonte. Fizemos mais gols do que o Pelé e o Romário juntos, mas como não havia ninguém para registrar, caíram no esquecimento.


O MARQUINHOS

Marquinhos era “mariquinha”. Era assim que todos os garotos do bairro se referiam a ele. A molecada era cruel, mas ele nem dava bola para a galera. Com sete ou oito anos, passava batom na boca e usava os sapatos de salto de sua irmã mais velha. Muita gente da turma falava em “comer” o Marquinhos, mas era só conversa, principalmente, porque ele nem sabia direito o que era isso. E continuava com seu jeitinho efeminado, dengoso e sempre na dele.
Pobre Marquinhos morava num cortiço com mais seis irmãos em apenas um quarto. O banheiro era dividido com outras famílias. Sua mãe dona Encarnacion, era uma espanhola magra e doente que trabalhava duro para sustentar a família. O marido de vez em quando aparecia para ver os filhos, mas ajudava pouco ou nada. O dono do cortiço quase sempre aparecia para cobrar os aluguéis atrasados. Parava o Chevrolet Bel Air e descia engravatado com o filho e um empregado. Era um acontecimento na vizinhança.  Era comer ou pagar o aluguel. Dona Encarnacion dizia para os vizinhos: “No hay dinero para comer, no hay dinero para alugueres”. E assim iam tocando a vida.
A irmã mais velha do Marquinhos, a Lola, começou a trabalhar numa fábrica lá pelos lados da Mooca. Coitada, precisava levar marmita e quase sempre era um ovo frito com arroz e feijão. Entrava às duas da tarde e saia às dez da noite. Chegava em casa quase meia noite, quando não chovia. Um dia, desgostosa da vida, resolveu cair na vida e não voltou mais para casa. Demorou muito tempo até que apareceu muito bem vestida e distribuiu presentes para todos os irmãos e nunca mais voltou. A mãe, uma senhora muito respeitosa e religiosa, renegou a filha, uma puta.
A outra irmã, a Marisa, era muito bonita e tinha belas pernas.  Era avoada e por pouco não foi seduzida por um dos rapazes metidos a bacana do bairro. E não sei que fim levou, pois algum tempo depois a família mudou-se do cortiço para outro bairro.  Com os hormônios a flor da pele, tive pesadelos com a Marisa e as suas pernas morenas e roliças sempre a mostra por causa dos vestidos curtos.  Para que tanta perna meu Deus! Meu coração pensava. Mas meus olhos não pensavam em nada. Eu ainda não havia lido o Drummond, mas o poema se encaixava perfeitamente nos meus devaneios.
E Marquinhos continuava sendo um menino diferente. Quando estava lá pelos treze anos, desandou de vez, passou a usar tamanquinho de salto, calças agarradíssimas, pulseirinhas e outros adereços. A turma toda gritava: “Marquinhos boneca” e ele nem dava bola e até rebolava para provocar o pessoal. Dizem que a dona Encarnacion mudou de bairro por causa da vergonha que sentia. Uma filha virou puta e o filho mais novo... Era demais para uma mulher conservadora, sofrida e miserável.
Tempos depois surgiram notícias do Marquinhos através de uma garota do bairro que descobriu ele estava trabalhando num salão de beleza. Começou fazendo unhas e depois cabelos. Era a glória para ele, que adorava conversar com as garotas e trocar ideias sofre penteados e roupas. Depois disso começou a frequentar o bairro novamente, mas por causa de outro menino que morava numa rua próxima. Os dois saiam de tamanquinho e maquiados para a alegria dos fofoqueiros do bairro. Era um comentário geral sobre as duas figuras diferentes. A família do outro menino se sentia envergonhada, mas a dona Zelda não abandonou o filho que continuou morando na casa mesmo contra a vontade do pai que queria que ele fosse internado em algum lugar bem distante. O irmão, o Luizinho bozó, era metido a moleque malandro desde criança. Depois de adolescente começou a fumar maconha e andar com outros “boys” do bairro. Usava calça boca de sino, que era uma roupa emblemática do pessoal que pitava a canabis sativa. Luizinho bozó chegou a ser preso, passando mais de um ano no xilindró. Sugeria que ele queria se mostrar malandro para não acharem que ele poderia ser igual ao irmão.
Mas Marquinhos continuou com o seu jeito que causava estranheza no bairro. Passou a se travestir. Vestia-se de mulher e desfilava pela cidade à noite virando bolsinha. Sua carreira não foi tão longa, pois logo foi contaminado pela AIDS nos primeiros anos em que a doença começou a aparecer no Brasil. Foi um longo sofrimento. Vítima do preconceito e da doença virou um trapo humano. Dona Encarnacion, sua única protetora, morreu de câncer com pouco mais de cinquenta anos. Marquinhos, homossexual assumido e aidético, morreu aos 26 anos de complicações generalizadas em decorrência da doença. O menino teve uma vida curta e não viu a passagem do século, quando prometia soltar a franga na folia e quem sabe na Parada Gay em plena Avenida Paulista.


Renato Ladeia

quarta-feira, 2 de maio de 2012


O GOSTINHO DO INTERIOR

O gostinho das coisas do interior faz parte da vida daqueles que deixam a vida bucólica dos sítios e fazendas e vão para as cidades encontrar novas oportunidades de vida. Muitos trazem nas mudanças algumas latas de doces caseiros, de queijo meia cura, um pouco de café em grão e vai por ai. Além de tudo, carregam também a saudade dos amigos, dos bichos, dos passarinhos cantando de madrugada e outras lembranças que permanecem por toda a nossa viagem por este planeta.
Quando se recebe a visita de alguém da terrinha, é inevitável que o visitante traga umas encomendas. Visitar alguém da cidade e ir de mãos vazias é um sacrilégio imperdoável. Conheci uma pessoa que deixava para comprar uma lembrancinha em algum lugar próximo da estação ou rodoviária. Numa dessas comprou um queijo meia cura que não era da cidade mineira de onde vinha, mas do interior de São Paulo. Pois é, desculpou-se dizendo que foi enganado lá mesmo. “São os tempos! Não se pode confiar em ninguém e o sujeito me garantiu que era da terra”, defendeu-se pouco a vontade ao ser flagrada a etiqueta embaixo do produto.
Lá em casa as coisas funcionavam como um posto avançado do interior. Nossos parentes lá da Noroeste Paulista despachavam religiosamente frangos, porquinhos, frutas, café, arroz e feijão. As encomendas vinham pela ferrovia e um telegrama anunciava a data do despacho e da chegada. Chegando, pagava-se um carreto e a mercadoria estava em casa. O bom mesmo eram as iguarias que vinham em mãos pelos parentes, como queijos e o famoso doce de leite coalhado, uma delícia.
Nossa casa tinha um bom quintal, onde eram criadas as galinhas e um porquinho que era anualmente sacrificado para o deleite dos apreciadores da carne suína. O dia do sacrifício era terrível, pois a criançada acabava gostando do bichinho, apesar do trabalho que dava em alimentá-lo e lavar diariamente o chiqueiro para evitar reclamações dos vizinhos.  Meu pai convidava uns amigos, preparavam o fogo, afiavam um punhal e o coitadinho era sangrado de acordo com os padrões judaicos, mesmo que não soubessem. Do porco se tirava tudo, menos o gemido de dor.  Parte da carne era repartida com os vizinhos mais chegados. Do restante fazia-se linguiça, toucinho defumado, chouriço, torresmo, carne cozida que era conservada na banha coalhada em latas, um antigo sistema trazido pelos europeus.
O café era um capítulo a parte. Recebíamos um saco de sessenta quilos de café in natura que era torrado aos poucos e moído quase que diariamente para preservar o sabor. O café torrado em casa tinha outro paladar, muito diferente do comprado nos mercados. Mesmo os cafés mais sofisticados de hoje, não conseguem igualar aquele sabor do café que vinha lá da fazenda. Era diferente, talvez torrado um pouquinho a mais, mas era um processo bem artesanal que lhe dava um toque especial.  Há que confessar que o trabalho de torrar e moer que recaia sobre as crianças não era nada agradável. Como as meninas se ocupavam de arrumar a casa e ajudar na cozinha, o café acabava ficando por minha conta, que lamentava quando era época de colheita de café. A fazenda era de um tio que plantava café em quase metade do seu grande latifúndio. Quando ia para lá nas férias, adorava passear pelo cafezal e chupar as doces frutinhas vermelhas.  Na época da colheita era um movimento e tanto na fazenda. O café era carregado até os terreiros onde era espalhado para a secagem antes de ir para o beneficiamento.  Para o consumo interno era socado mesmo no pilão para tirar a casca e depois torrado de forma artesanal.
Mas hoje está tudo muito diferente, principalmente no interior. Numa visita à fazenda de um primo, descobri que eles abandonaram há tempos a vida artesanal. Fazer queijo, manteiga e pão são coisas antiquadas, dos velhos tempos do atraso, das carroças. De nada adiantou o meu discurso sobre a sustentabilidade, expressão da moda entre aqueles que são preocupados com a poluição, lixo e esgotamento dos recursos naturais.  Agora é tudo comprado no supermercado e ninguém se preocupa em ir até duas vezes por dia à cidade para fazer compras. Quando perguntei pelo cafezinho torrado e moído em casa, foi uma sonora gargalhada acompanhada da emblemática frase: “Depois dizem que nós somos caipiras”.

Renato Ladeia