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domingo, 9 de março de 2008

CRISE GEOPOLÍTICA NA AMÉRICA DO SUL

A crise na América do Sul, mesmo depois de ser apaziguada, ainda deixa algumas questões que precisam ser respondidas com urgência. Uma delas é porque o Hugo Chaves se apressou em ampliar o conflito para que ganhasse dimensões maiores do que realmente tinha. Uma das hipóteses mais veiculadas entre os comentaristas seria que Chaves precisa urgentemente de um fato novo para desviar a atenção sobre a crescente crise econômica na Venezuela. A velha tática de que um inimigo externo pode reduzir o impacto de inimigos intermos poderosos como a inflação em alta, desemprego, produção em declínio, enfim, descontentamento generalizado. Outra hipótese é que o caudilho venezuelano tem projetos muito mais ambiciosos do que pode pensar nossa vão filosofia. A guerra enfraqueceria o estado colombiano, deixando-o a mercê das FARC que poderia desencadear um processo revolucionário, destituindo o governo institucional de Uribe. Dessa forma, Chaves já teria dado o primeiro passo para a instituição da República Bolivariana, incluindo a Venezuela, Colombia e Equador. Fica faltando a Bolívia, que estaria desconectada do vice-reinado bolivariano. A saída poderia ser a reivindicação de forma mais contundente de parte do território brasileiro que o Morales considera pertencente ao povo boliviano, trocado por um cavalo pelo ditador de plantão.
Outra questão que merece resposta, é a presença de tropas das FARC em território equatoriano sem nenhum tipo de represália. Como admitir a presença de um acampamento com mais de cinquenta soldados com todo equipamento militar e de comunicação? O Equador é um estado de pequena dimensão, comparado com os demais países do entorno, o que tornaria fácil detetar e expulsar os invasores. A presença do grupo terrorista no Equador não é novidade e é bem possível que tenham tido o alvará do governo Correa.
Após o ataque, Rafael Correa se apressou em conseguir apoio político e diplomático dos países vizinhos para referendar sua decisão de transformar o episódio em uma profunda crise geopolítica. Felizmente Chile, Argentina e Brasil procuraram manter o bom senso, evitando colocar mais lenha na fogueira. Por que Correa não procurou resolver a crise exigindo do governo equatoriano respostas prontas sobre o problema e partiu para a retaliação verbal pura e simples? E as provas encontradas no acampamento que deixam visível a existência de relações políticas entre as FARC e os governos venezuelano e equatoriano? Pode até ser que essas provas não existam, mas e se existirem? Qual seria o tratamento que deveria ser dado pela ONU para governos que abrigam grupos terroristas que ameaçam um país vizinho em seu território? Não seria um atentado gravíssimo à soberania de um país vizinho?
E a Venezuela, realmente está empenhada na ação humanitária de resgate das vítimas de sequestro na Colômbia ou está simplesmente utilizando este fato para criar e justificar uma liderança continental? Qual é a explicação da corrida armamentista que está se processando na Venezuela? Apenas para defesa ou existem objetivos subreptícios?
Acredito que a crise é muito mais ampla do que parece. Questões de geopolítica com a exumação do cadáver do velho mito bolivariano pode ser explicar esses movimentos, cada vez mais perigosos neste complicado jogo de xadrês. Será preciso muito mais do que habilidade política do governo brasileiro e sua assessoria diplomática. É preciso procurar enxergar além dos discursos recheados de velhas e superadas ideologias e tomar posições preventivas para evitar remédios amargos no futuro. O isolamento político de Chaves é essencial para o equilíbrio geopolítico da América do Sul e Central. Democracias estáveis da região como Brasil, Argentina e Chile podem dar o tom de um movimento para evitar maiores riscos para a estabilidade política.