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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013


QUAL É A MÚSICA DO CHICO QUE VOCÊ MAIS GOSTA?

Um velho amigo fã incondicional do Chico Buarque fez uma enquete com várias pessoas do seu relacionamento para saber qual era a música preferida composta pelo grande compositor.   Parecia fácil, mas qual o quê; todos vacilaram na escolha, pois seria mais simples escolher algumas das melhores. Não podia. Tinha que ser apenas uma, era um tiro só e não podia errar nem se arrepender. Diante da pergunta fiz um retrospecto geral na obra do compositor e optei por uma bela canção que ele fez com o Edu Lobo, Beatriz.
Por que escolhi a Beatriz, uma das muitas canções que o Chico dedicou a um nome de mulher?  Depois de Carolina, Januária, Cristina, Joana Francesa e por aí vai, Beatriz, composta para o espetáculo Circo Místico, para mim foi a mais bela letra ou um dos mais belos poemas da música popular brasileira. Há quem diga que ele escreveu para a sua ex, a Marieta Severo. Bom seria se não fosse, para tão grande amor, tão curta a vida.
Escolher uma única música preferida é uma opção difícil, ainda mais de um compositor de uma extensa obra, construída durante mais de cinquenta anos. Mas existem algumas músicas que são marcantes em nossas vidas, como aquelas que dançamos como a primeira namorada ou com a cara metade com a qual nos comprometemos a passar o resto dos nossos dias, mesmo que isso não tenha sido possível. Músicas que ouvimos junto com os velhos companheiros de juventude, em épocas difíceis, quando precisávamos tomar decisões importantes em nossas vidas. Algumas músicas ligadas a filmes que nos emocionaram profundamente e ficaram em nossas memórias e nos tocam sempre que ouvimos. Particularmente, lembro-me com saudades da música “Sempre aos domingos”, numa versão de uma canção francesa que tocava no grupo escolar do bairro lembrando a criançada que estava na hora de ir para a escola. Essa música me emociona, transportando-me para a infância em um bairro de subúrbio.
Alguns amigos escolheram canções de protesto, como Apesar de Você, mesmo que o Chico nunca tenha escrito letras de contestação declarada. Ele sempre preferiu ser mais sutil em suas críticas ou como ele mesmo disse: “Ser objetivo subjetivamente”. Essa canção foi marcante na época, pois conseguia criticar o regime militar de forma indireta, lembrando que o poder é efêmero, que as coisas mudam e sempre depois da noite surge um novo dia de esperanças de liberdade. Muitas pessoas cantavam o samba sem entender o seu sentido implícito, acreditando que era o desabafo de alguém desprezado pela mulher amada, mas que também podia ser isso, pois a canção tem duplo sentido.
Outras dezenas de belas canções do Chico foram lembradas no momento da escolha, como aquelas compostas para a peça "Calabar, elogio a traição". Com relação a essas, para mim ficou sempre a dúvida se o Chico participou das letras, pois foram feitas em parcerias com o poeta e dramaturgo lusitano Ruy Guerra, que ficou esquecido em razão da idolatria ao nosso grande compositor. Pode ser que o Chico deu uns palpites para ajustar as frases das letras às frases musicais, mas para mim a maioria das letras tem a cara do Ruy.
Enfim, todos escolhemos as nossas canções preferidas ou mais preferidas ou aquelas que foram lembradas no momento da pergunta. E não valia mudar de música depois. Escolheu e acabou. Mas ficou a intrigante pergunta que todos fizeram a ele: “Por que?” Ele não respondeu e apenas dizia: “Escolha a preferida e pronto”. Tempos depois, recebi um telefonema e ouvi a canção Beatriz. Depois da música, a voz amiga desejando um feliz aniversário, cuja data eu nem estava lembrando. Ah como foi bom lembrar-se da data natalícia com uma bela canção do Chico! Evoé meu amigo.




sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013


CARLINHOS KALUNGA, UM MÚSICO "TUDO DE BOM"


Kalunga é a designação dada aos descendentes de escravos que se refugiaram em quilombolas nos grotões do Estado de Goiás. Lá eles formaram comunidades autossuficientes, isoladas da civilização, se é que podemos chamar as cidades brasileiras de lugares civilizados. É também importante lembrar que Kalunga, em bom dialeto banto, significa “Tudo de bom”.  É aí que se encaixa o querido Carlinhos Kalunga, violonista, arranjador, produtor musical e compositor.
Quem lhe deu o apelido não se sabe. Falei com seus amigos de juventude e ninguém tinha informação sobre a origem. Mas de qualquer forma o sentido banto lhe cai bem, pois o Carlinhos Kalunga é aquele sujeito sempre sorridente, de uma simpatia acolhedora.
Carlinhos, músico de profissão e de paixão, começou cedo a lidar com o pinho, pois o pai, seu João Gonçalves, tinha muita afinidade com o velho violão que tinha em casa, num bairro da periferia de Santo André, no ABC paulista. No colo do pai ele, ainda de fraldas, gostava de mexer no violão e ficava encantado ao ouvir a ressonância das cordas, rindo de modo a ouvir-se de longe, como gostava de contar sua mãe, Dona Adelina.
O garoto foi crescendo e, aos poucos, juntando-se à turminha de adolescentes do bairro, como ele, apaixonados por música. Nesta época, anos sessenta, formou o grupo Equipe 4, juntamente com Sérgio Papagaio (guitarrista líder), Isaac (baixo), Simone (bateria, Luis Santana (teclado). Tinha também o Zhorba que era o faz tudo e ajudava também na percussão. O grupo tocava rock nos bailes na região.
Foi assim que conheceu o músico Oscar de Vitto, os letristas Dedo Thenório e Sinésio Dozzi Tezza entre tantos outros. Eram os tempos da beatlemania e canções como Hey Jude, Penny Lane entre outras foram sendo descobertas e aprendidas de forma autodidata, provavelmente no velho violão do pai, que por sua vez preferia as canções do Chico Alves, Lupicínio, Herivelto Martins entre outros da velha guarda. Com a turminha ele começou a criar as primeiras canções autorais que talvez nunca venham a ser conhecidas do grande público.  Num site do Dedo Thenório, um abnegado colecionador de canções dos amigos, é possível conhecer algumas das primeiras canções do Kalunga com seus velhos parceiros.
Tive o feliz privilégio de estar presente durante nascimento de uma dessas composições, já na fase mais madura do compositor, como Urutau e Sem fim, que ele fez em parceria com o Sinésio Dozzi Tezza, belas canções que infelizmente a nossa indústria cultural manterá no velho baú de preciosidades secretas.
Carlinhos, como muitos outros músicos de sua geração, acabou se apaixonando pela MPB e tocou com vários artistas, viajando muito pela Europa, EUA, Canadá etc.  Em Paris, aproveitando-se de uma das turnês  que fazia acompanhando artistas consagrados foi colocada em prática uma ideia, já concebida anteriormente, para formação de um grupo de musica instrumental denominado “Jazz da Garoa”, onde participavam  o próprio Carlinhos, Bira, Djalma e outros. No período em que morou no Rio de Janeiro, foi um dos músicos mais solicitados por grandes nomes da MPB para atuar como arranjador e instrumentista. Outro grande amigo  do Carlinhos foi o Formiga, considerado um dos maiores percursionistas do Brasil, que tocava com o Johnny Mathis, sempre que o cantor vinha ao Brasil.
Carlinhos Gonçalves “Kalunga” precisava ganhar a vida, ou melhor, dizendo, ganhar da vida para sobreviver como músico, sua grande vocação. Entre um trabalho e outro, ele conheceu o cantor e compositor Wando e tornou-se o seu instrumentista e arranjador durante a maior parte da carreira do artista até sua partida de forma repentina.  Wando foi um artista controvertido, existindo aqueles que o adoravam e os que o criticavam, mas gostando ou não do Wando, há que se reconhecer que foi um artista talentoso que teve uma presença marcante na história musical brasileira. Nos bastidores Wando sempre contava com outro artista de talento e grande sensibilidade, seu parceiro e amigo Carlinhos Kalunga, que cuidava com profissionalismo impecável dos arranjos das canções, gravações e direção musical dos shows.
Muitas histórias foram contadas sobre o Carlinhos e algumas envolvendo os amigos mais chegados, ainda alegram a velha turma do ABC, como o inesquecível encontro do seu amigo e parceiro Oscar de Vitto com o Wando, nos bastidores do teatro municipal de Santo André, durante um show do cantor; a apresentação da artista Isaurinha Garcia no velho Café Luá, em São Caetano do Sul, nos distantes anos 80, quando ele, a acompanhando ao violão, sentiu a cantora desabando sobre seu corpo franzino depois de um homérico porre. Há também o inesquecível encontro no Rio, promovido pelo Carlinhos, do Wando com o poeta e compositor Dedo Thenório, para comemorarem uma recente parceria. Esse encontro teve muitos detalhes pitorescos que merece outra crônica.
Seria impossível deixar de lembrar-se de um fim de semana prolongado em Butiá, terra dos Dozzi Tezza onde passamos em companhia do Carlinhos, Márcia, Sinésio, Ana Amélia, Zhorba e Celinha, momentos inesquecíveis, harmonizados com muita cerveja e embriagados de canções, sempre acompanhadas pelo seu impecável violão.
 Carlinhos Kalunga passou também seus maus momentos, mas que ele superou, não perdendo a alegria de viver. Márcia, sua inseparável companheira de todos os momentos, deu-lhe as forças necessárias para ele continuar a sua jornada para a alegria de todos.
E aí está um modesto retrato 3x4 de uma figura 30 x 40 que contempla, nos seus momentos de folga, nas mornas tardes do hemisfério sul, as águas do Atlântico baterem preguiçosamente nas praias de Ubatuba. E Kalunga ou “Tudo de bom”, observa a paisagem com seus olhos de artista, caminhando descalço pela praia com o violão a tiracolo, deve pensar com seus botões: Tenho amigos, a música e meu violão e nada me faltará.