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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

GRANDE SERTÃO: VEREDAS









A travessia de Nelson Ladeia.

Poucas pessoas leram realmente o Grande Sertão: veredas. É uma narrativa complexa,em que o narrador conta a história para alguém que pode ser o próprio escritor ou o leitor. A narrativa também não segue uma sequência linear, temporal. Há avanços e retorno no tempo. Riobaldo, o narrador, admite que o contador de história tem poder sobre o passado, o presente e o futuro. O autor inventa palavras o tempo todo na voz do seu narrador, a sintaxe é complexa e repleta de metáforas que fazem a leitura um um trabalho nada simples. É preciso de concentração, paciência e reflexão. Mas esta crônica não é sobre o livro, mas sobre meu irmão Nelson para quem emprestei uma antiga edição do Grande Sertão: Veredas do Guimarães Rosa. Ele estava apaixonado pelo escritor após a leitura de Sagarana. Leu e releu o livro e todas as vezes que nos encontrávamos ele dizia que o Grande Sertões: veredas havia se tornado o seu livro de cabeceira, sua bíblia. Mas para mim a edição tinha um sabor especial, pois foi um presente de uma professora do colégio e para resolver o problema tratei logo de comprar uma edição mais recente para que ele continuasse lendo e relendo o romance.
E assim quase todas as vezes que nos encontrávamos falávamos das aventuras do Riobaldo, o Tatarana nos confins dos Sertões das Gerais, cujas sábias palavras sempre tornavam obrigatória uma releitura do livro. Um trecho sobre o rio ficou em nossa memória: “O rio não quer ir a nenhuma parte, ele quer é chegar das montanhas. Rebebe o encharcar dos brejos, verde a verde, veredas, marimbús, a sombra separada dos buritizais, ele. Recolhe e semeia areias. Fui cativo, para ser solto? Um buraquinho d’água mata minha sede, uma palmeira só me dá minha casa”. Isso sintetizava o modo de ser do Nelson. Não era ambicioso. Qualquer coisa bastava.
E o Nelson continuava mergulhado nas aventuras pelos sertões, acompanhando Riobaldo. Ele que nasceu e cresceu na cidade tinha uma paixão sem fim pelo interior, pela cultura rural. Pesquisava objetos, ferramentas, carroças e os reproduzias em miniaturas nas suas horas vagas. Trabalhava caixas de frutas e habilmente as transformava em objetos de arte. Em Caminhos e Fronteiras, de Sérgio Buarque de Hollanda, ele bebia da cultura do Brasil caboclo, descobrindo as origens de coisas como o monjolo, engenho de açúcar... Ouvindo a velha canção do Ari Barroso que dizia “Tenho saudades do Brasil, Caipira...” ele se inspirava para criar coisas que as pessoas se apaixonam ao ver. Quando lhe perguntavam: Você vende? Ele respondia: Ah essas coisas não tem preço. São horas e horas de trabalho. Como vou avaliar isso?
Até a adolescência, quase todos os anos, íamos para a Fazenda São Vicente, em Lavínia. Lá ele garimpava coisas da terra. Um ferro de marcar gado do começo do século passado que estava abandonado na Tulha era para ele uma relíquia guardada com carinho. O prazer para ele começava pelo trem que cortava São Paulo rumo ao oeste. Ele permanecia estático na janela, contemplando a paisagem. Lá acordava cedo para ouvir os pássaros pela manhã e sabia os nomes todos e imitava os cantos com maestria.
Quando criança ele tinha medo de assombração e de trovão. Escondia-se embaixo da cama para se proteger. Nossa irmã mais velha, ainda uma menina, o protegia enquanto nossa mãe estava no trabalho. Na rua não gostava de brigas e os outros meninos encaravam isso como covardia. Mas não era nada disso. Sua visão de mundo começava a ser construída como uma pessoa pacífica e calma, que preferia o diálogo ao confronto.
Ele era o nosso caçula, o menino esbelto e dono de belas e louras chucas que minha mãe protegia como um tesouro. Cresceu, descuidou-se dos estudos, preferindo as aventuras e sonhos. Gostava de música e tinha um ouvido excepcional. Meu violão abandonado por falta de aptidão foi descoberto por ele e aos poucos foi extraindo, sem professor, sem orientação nenhuma, belas notas musicais. Um dia me surpreendeu ao solar uma canção do Chico Buarque, compositor, cujo trabalho ele sempre admirou. Aprendeu capoeira e se tornou um mestre, mas via nisso apenas uma arte entre música e dança e nunca como um instrumento de agressão ou mesmo defesa. Como diria o Riobaldo: “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”.

Mas a doença foi cruel e em menos de dois meses, um homem forte, saudável, corpo de atleta, estava em um hospital sem esperanças. Em nossa última conversa, ainda sobre o Grande Sertão: veredas, ele repetiu a frase constante de Riobaldo: “É mano, viver é muito, muito perigoso” e eu estou perto da travessia. Fez sua última recomendação: “Não quero o caixão aberto. Não quero que me olhem com pena”. Prefiro que as pessoas se lembrem de mim vivo”. E assim partiu Nelson, meu irmão, meu amigo, cuja ausência vai doer em mim eternamente.