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domingo, 7 de novembro de 2010

A DESPEDIDA DO POETA (Delcy Thenório 1926-2010)




                                          Delcy Thenório com seu filho Edélcio Thenório

O último encontro que tive com o poeta  Delcy Thenório, foi em sua casa em Santo André, para um café, tradição da família nos domingos à tarde. Foi um longo e prazeroso encontro. Conversou-se sobre tudo, até mesmo como preparar um bom café e quase todos os presentes se apresentaram como bons baristas, cada um com o seu jeito peculiar de preparar a bebida que é a preferência nacional. Até o Zeca, que todos sabem não conhecer os segredos de um bom café, deu lá os seus palpites. Boas anedotas correram soltas, sob o olhar distante da Antonieta que fingia entendê-las e esboçava um sorriso complacente. Falou-se muito de poesia e é claro, dos versos do Delcy, cuja sagacidade provocava gargalhadas descontraídas. Até o Elcio, seu filho, um bom vivant, presenteou-nos com um belo poema que compôs sobre a velha Itália. Surpreendeu a todos, ficando a leve suspeita de que os pendores poéticos são hereditários. É claro que não é a poesia em si, mas a sensibilidade para a vida, a capacidade de ver os acontecimentos, as pessoas e a natureza através de outro olhar.
Não sei por qual razão surgiu um assunto nada agradável, a finitude da vida. Delcy, solto, alegre, descompromissado com as coisas materiais, falou sobre isso com uma descontração de fazer inveja. Disse, na ocasião, que a morte não tinha significado maior. Ele tinha o conforto de acreditar que o seu corpo era apenas algo que poderia ser jogado em qualquer lugar, pois para ele havia algo maior que continuava eternamente, independente do tempo dos homens. Confesso que senti inveja de sua convicção e pensei no conselho do Montaigne de que não devemos perder tempo aprendendo a morrer, pois quando chegar a hora vamos saber morrer direito.
Essa longa e agradável tarde do último inverno seria uma despedida, não definitiva, para uma mudança. Delcy, logo depois, mudaria para Piedade, terra dos seus antepassados, onde viveria seus últimos anos ao lado do seu filho Edélcio e sua nora Ângela. O motivo da mudança era a saúde debilitada de sua Antonieta, que precisava de cuidados especiais, para os quais ele já não tinha mais condições físicas de prover. Seria uma nova fase de sua modesta e profícua existência, onde poderia resgatar a inspiração para voltar a escrever os seus versos e crônicas do cotidiano. Os ares de Piedade, com suas verdes colinas, os cantares descompromissados dos pássaros, sua gente simples e hospitaleira seriam seu regalo para alguns bons anos, mesmo convicto de que a vida é expressamente provisória.
Dias atrás Delcy recebeu, em Piedade, um belo presente. Edson da Silva, o Zeca musicou seu poema “Quase” , inspirando-se no sambista paulistano, Adoniram Barbosa. Foi a união perfeita de um samba com sotaque da Mooca com os versos bem humorados do nosso poeta. Um presente que ele recebeu com muita alegria.
Mas viver é muito perigoso, já dizia o Riobaldo, personagem de Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa. E foi assim que recebi um telegrama virtual do velho amigo Edélcio Thenório:
“Sinto informar que faleceu hoje às 17 horas meu pai José Delcy Thenório, aos 84 anos, aqui em casa, por motivo natural. Viveu uma vida serena e impecável. Agradeço profundamente a Deus por ter sido seu filho”.

Delcy aproveitara a gostosa tarde da última sexta-feira para colher jabuticabas em um sítio vizinho na companhia de sua nora e netos. Aproveitou o passeio como se fosse o último e regalou-se com o doce azul da fruta que só dá no Brasil e foi com essa doçura que ainda impregnava seus lábios que partiu em silêncio.
Quero crer que em seus últimos instantes de vida tenha vindo à sua memória seus versos sobre a morte: “Não quero que vocês chorem/Rogo até que comemorem/Com estrondosas risadas/Na frigidez do velório/Rebusquem no repertório/As mais picantes piadas”.
E assim, num triste e chuvoso sábado, fui para Piedade com mais quatro amigos (Sinésio, Zeca, Saulo e Zorba) para nos despedirmos do poeta e dar conforto aos seus filhos, netos e noras. No caminho, tal qual era a recomendação do poeta, contamos muitas piadas e lembramos com carinho da grandeza do ser humano Delcy Thenório. No velório encontramos, também, o Erasmo, que se uniu a nós para co-memorar o poeta e a poesia. Lembramos também de algumas passagens de sua vida, sempre pautada pela integridade, honestidade e retidão de caráter. Soube-se que em uma de suas passagens por Sorocaba, onde a sua Antonieta está internada, recusou-se a quebrar as regras por estar fora do horário de visitas. De nada adiantou argumentar que a instituição havia liberado para que ele a visitasse em qualquer horário. “Prefiro não ter privilégios, mesmo em tal circunstância”, disse ele.
José Delcy Thenório, autodidata, profissional zeloso e competente e, acima de tudo, poeta, cumpriu sua missão. Plantou árvores, amou, teve filhos e netos, escreveu um livro e deixou a vida com um imenso rastro de saudades. E para dar provas de que ele queria era mesmo alegria em sua despedida, dois pássaros, um “chan-chan” e o outro um “quero-quero” deram as boas vindas ao poeta no cemitério do Jardim Eterno, com seu cantar alegre e sem compromisso com coisas sérias.
O resto é silêncio...

Renato Ladeia