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sábado, 22 de janeiro de 2011

O FRANGO-PARATI


“Quem for a Ilha do Cardoso, paraíso ecológico do litoral sul de São Paulo e não  saborear o parati frito da bodega do seu Malaquias, na enseada da Baleia, podes crer, não conheceu a ilha. O sabor do peixe é inconfundível e o jeitinho do proprietário em prepará-lo o torna uma das melhores iguarias da culinária caiçara”. Meu amigo Dedo, antigo freqüentador da ilha sempre cantou em prosa e verso as virtudes do parati frito do seu Malaca e na última vez que fui para lá resolvi tirar a prova. Só que é longe, muito longe de onde estávamos hospedados, se é que se pode dizer hospedados na ilha. Na Ilha do Cardoso a gente não se hospeda, a gente se ajeita num canto, se acomoda. Para ficar na ilha a pessoa não pode ser luxenta, enjoada, fresca... Tem estar pronto para o que der e vier.
Como já disse  a bodega do seu Malaquias fica longe e bota longe nisso. São quase doze quilômetros caminhando pelas praias. Assim foram três horas de andanças, contemplando o mar, a natureza quase virgem, mas chegamos à Enseada da Baleia com a fome e a sede de anteontem. Eu já estava ouvindo o barulhinho da fervura do azeite fritando e a minha imaginação começou a colocar até o cheiro de peixe frito no ar. Era um cheiro bom, gostoso, caseiro. Foi o que aconteceu comigo na chegada à Enseada da Baleia.
Mas lá tivemos uma triste surpresa. O velho Malaquias havia falecido e  o seu neto estava tocando o negócio. O meu velho companheiro sentiu que a bodega não era a mesma sem a maestria e a presença do seu Malaquias. Lá se comia e se bebia fiado com base na amizade e confiança. Ele gostava de ver a freguesia alegre e festejando. Nada de cara feia. O bar era muito simples, mas gostoso.  O destaque da bodega é uma foto dele com o Lula durante a campanha eleitoral de 2002, tomando uma caninha no balcão. “Quero ver o que este comunista vai aprontar lá em Brasília”, disparou  o Malaca depois que soube da vitória do Lula nas urnas.
Fomos chegando e perguntando se tinha alguma coisa para comer. Peixe fresco? Não. Camarão? Qual o quê. O moço estava mais preocupado em fazer chamego para a namorada do que em atender a freguesia. Só tinha mesmo as geladinhas de sempre.
A minha fome era tanta que sentia um vazio maior do que o corpo. Como não tenho gordura de reserva, comecei até sentir um mal estar. Foi então que uma moça de Sorocaba que acompanhava a gente se ofereceu para buscar alguma coisa, quem sabe parati frito numa casa vizinha. Foi num pé e voltou em outro com uma travessa fumegante e cheirosa. Não tive dúvidas. Ataquei o parati frito. Era um sabor delicioso, soberbo, senti o tempero inebriando a alma. Não tinha chef francês que faria coisa melhor. Era uma iguaria para ser servida em jantar de posse de presidente. Meu amigo já ia abrindo a latinha de uma “loura” geladinha quando alertei:
- Parceiro, experimente esse parati frito antes de abrir a geladinha. Você vai sentir o sabor da ceia dos deuses.
Foi aí que a moça que foi buscar a comida, avisou: “Pera aí Zeca, não é parati frito não, é frango mesmo”. Aquilo doeu fundo. Eu que sempre abominei carne de frango ou de qualquer outro  bicho que voa. Como é que não percebi o gosto. Como é que vai  ficar minha reputação de inimigo das penosas diante dos amigos que precisam mudar o cardápio na  última hora quando apareço para fazer uma boquinha? Uma velha amiga chegou a fazer uma tremenda encrenca numa festa  porque resolveu mudar o cardápio na última hora porque tinha frango. Como é que eu vou ficar diante dos amigos? Vou pagar o maior mico da minha vida.
Mas o meu companheiro de viagem, sacando a minha profunda decepção e desconforto, saiu em meu socorro:
- Olha Zeca, pode não ser parati, mas que eu vi uns franguinhos diferentes no quintal eu vi. Deve ser um clone de peixe com frango, pois os bichinhos não tinham penas, mas escamas. Acho que deve ser um tal de frango-parati que anda na boca do povo  pela ilha.
Não levei muito a sério a explicação do meu amigo porque ele já tinha devorado umas cinco latinhas e de estômago vazio, mas talvez possa mesmo salvar a minha pele. De qualquer forma para quem quiser me convidar para um rega bofe, vou adiantando: frango eu até como, mas só se for frango-parati, que só tem na Ilha do Cardoso.

Renato Ladeia

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O SABOR DA GALINHA - D’ANGOLA


Nunca mais saboreei galinha-d’angola depois que abandonei o hábito de passar as férias no interior, na casa de parentes. Na verdade nem me lembro mais do sabor dessa galinha.  Imagino  que é um pouco mais dura do que o frango comprado no mercado e tem um leve  sabor de caça (será?).  As galinhas-d’angola eram criadas nas fazendas, soltas e viviam em bandos; elas conseguem voar um pouco mais do que as galinhas comuns, empoleirando nas árvores próximas as casas. As galinhas d’angola vieram mesmo do continente africano, trazidas pelos portugueses durante a colonização e se espalharam pelo país de norte a sul e são também conhecidas por sakué ou guiné.
Quando menino ia passar as férias na fazenda de um tio no interior de São Paulo e uma das coisas que a minha memória auditiva gravou para sempre foi o “to-fraco, to-fraco”.  Fazenda sem esse som para mim não é fazenda, pois não consegue despertar em mim as sensações de férias, de natureza, de aventura, de liberdade. Minha mãe, logo depois de instalada na fazenda, já dizia: “Ah que vontade de comer galinha-d’angola”. Meu tio prometia que para o jantar ele iria providenciar. Assim, quando ia entardecendo, ele pegava a sua velha espingarda e saia para o quintal. As crianças, por medida de segurança, eram todas recolhidas na casa grande. Ouvia-se ao longe os estampidos e barulho de coisa caindo pelos lados do abacateiro. Logo depois o velho aparecia com duas galinhas-d’angola e as entregava para as mulheres na cozinha. A pontaria dele era certeira. Um tiro para cada uma gabava-se ele.
No jantar a galinha era servida ao molho pardo ou simplesmente cozida para o regalo de minha mãe. “Não há galinha melhor do que esta. Ah! se eu pudesse criaria galinhas d’angola em casa”. É claro que isso era impossível, pois essas galinhas são meio selvagens, vivem em bandos e poderiam perturbar a vizinhança. São também mães pouco cuidadosas, não se importando muito com seus filhotes. Elas põem seus ovos sob várias camadas de palha e somente os de cima são chocados, por isso é difícil de encontrar seus ovos.
Foi  ouvindo essas histórias que resolvi, nos devaneios dos meus oito anos de idade, caçar ovos de galinha de angola. Campeei toda manhã pelas proximidades da casa da fazenda até descobrir uma galinha botando. Aproximei-me cuidadosamente e fiquei a espreita até que ela saísse para apanhar os ovos, colocá-los no boné e aparecer como um heroi diante dos meus primos e primas.  Como a galinha estava demorando, resolvi pegar um pau para espantá-la. Mas o pau que vi se mexeu ao tocá-lo. Não era pau coisa nenhuma, mas uma grande cobra. Escapei por pouco graças ao barulho da galinha que deixou o réptil em dúvida para qual lado daria o seu bote.
Achou os ovos? Perguntou minha prima. Ainda assustado não quis nem conversa e dei uma desculpa qualquer. Naquele dia e no que se seguiu fiquei ainda assombrado com a possibilidade de ter morrido picado por uma cobra venenosa, cujas histórias há muito ouvia falar. Contava-se que um empregado da fazenda foi picado por uma jararaca e como naquele tempo não havia carro, até arrear o cavalo e atrelá-lo à carroça, não houve tempo para chegar até a cidade, distante dezoito quilômetros da fazenda. O pobre homem morreu no caminho deixando mulher e filhos pequenos. Mas no jantar ninguém entendeu porque eu não comi da galinha,  mas  também não contei. Há razões que a própria razão desconhece.
Num dia desses, acompanhado da família, tentei resgatar o sabor da galinha de angola e fomos a um restaurante especializado em pratos africanos. A decoração era esmerada, com objetos e fotografias do velho continente. Os talheres, pratos e copos eram todos de madeira africana, conforme rezava o cardápio.  Sentamos e fomos gentilmente atendidos por uma garçonete negra vestida a caráter. “Vocês tem galinha-d’angola?” Perguntei ansioso. Ela respondeu afirmativamente e fizemos o pedido.
Logo depois a moça retornou dizendo: “Infelizmente a galinha-d’angola acabou. Vocês aceitariam outro prato? Temos...”
Apesar da gentileza da moça, recusamos  a oferta e desistimos de comer no restaurante africano, pois o objetivo era mesmo comer a tal galinha, que eu cantava em prosa e verso. Acabamos indo para uma casa de massas, por sugestão de minha mulher. Lá enquanto degustávamos uma deliciosa pasta à bolonhesa, fiquei refletindo sobre a distância cultural  entre a Itália, África e a galinha-d’angola preparada pela dona Isabel, mulher do meu tio, uma portuguesa trasmontana, que usou  temperos tipicamente brasileiros. Assim me dei conta de que o Brasil de minha infância está se acabando e o sabor da galinha-d’angola foi substituído por um molho tipicamente italiano.

Renato Ladeia


domingo, 2 de janeiro de 2011

A TERCEIRA MARGEM DO RIO


A metáfora de “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa, uma obra prima do conto brasileiro, é o esquecimento ou alheamento de tudo. Uma tentativa de buscar um mundo de sonhos, de afastamento das coisas reais para viver numa outra dimensão. É a história de um homem que, sem mais, nem menos, para o estranhamento da mulher, dos filhos e dos amigos, manda fazer uma canoa, despede-se e parte para uma viagem sem retorno. Uma viagem que não é uma viagem. É um desligamento da vida, das coisas materiais, das relações pessoais.  Ele estava ali, a vista, mas distante de tudo e de todos.
            A alienação  é constante na literatura. Em Rei Lear, de Shakespeare, o pai resolve, em vida, repartir seu reino entre suas filhas. Uma delas, a sua preferida,  considera a sua  decisão insensata. Ofendido por isso, ele a deserda. No final , já demente,  é abandonado pelas filhas herdeiras e é amparado pela filha deserdada.
             Dom Quixote de La Mancha, ao embriagar-se das novelas de cavalarias no século XVI e resolver sair pelo mundo como um cavaleiro andante, também buscou a sua terceira margem do rio para se desvincular do mundo real que o oprimia. Dom Quixote, como personagem, vivia entre o real e o imaginário e por vezes interpretando o real através das suas fantasias.  Cervantes faz uma profunda ironia com o seu personagem, pois em nossos dias, muita gente vê, tal como na época do autor, monstros em moinhos de ventos. Pessoas que se dizem abduzidas por seres extraterrenos, com visões de naves espaciais que nunca foram comprovadas. A loucura pode ser vista como positiva, quando o louco reproduz os interesses de segmentos da sociedade. Assim, muitos loucos estão na mídia, fazendo proselitismo de suas idéias religiosas, políticas ou mesmo artísticas.
            O personagem de Cervantes tem um comportamento intelectualmente racional quando procura explicar a importância dos cavaleiros andantes na defesa da ordem, dos injustiçados e das donzelas desamparadas, mas quando vê o real a partir da ficção, cai em descrédito.
            O seu fiel escudeiro, um mentecapto interesseiro, que mesmo tendo consciência de que o seu amo está mais para a loucura do que para a sanidade, continua insistindo em acompanhá-lo, na perspectiva de que possa algum dia receber alguma recompensa.  O escudeiro é também esperto o suficiente para enganar Quixote para evitar que este faça mais loucuras. Mas é também um insano obcecado pela ambição.
            Outra obra genial que trata da loucura ou da perda do discernimento é o Alienista de Machado de Assis. O médico Simão Bacamarte, de tanto ver insanidade nos outros, acaba percebendo-se também insano. O gênio de Machado deixa  então a dúvida  se a insanidade e a normalidade não estariam tão próximas que às vezes podem se confundir na complexidade das relações humanas.
            Quixote, Bacamarte e o Velho da “terceira margem do rio”,  não seriam personagens que vivem entre nós nas escolas, nas empresas, na política, no governo, nas ruas, nos bares? A normalidade parece ser relativa e assim pode depender do ponto de vista. Quantas vezes não refletimos sobre a sanidade de conhecidos,  parentes e amigos? Não seria também uma atitude de modéstia refletir sobre nossos próprios atos? Isso, convenhamos,  é bem mais complicado, pois nossa vaidade não deixa chegar ao ponto de admitirmos que nem sempre somos normais. Normais? Afinal o que é normalidade?

Renato Ladeia