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sexta-feira, 2 de maio de 2008

Abotoou o paletó ou a história moderna da vestimenta, uma analogia ao De Pallio de Tertuliano


Ao encontrar o amigo Zéca, despudoradamente, sem paletó no casamento do filho de um amigo, brinquei com a sua falta de “compostura”. Onde já se viu ir a um casamento sem paletó e gravata? Diante do seu sorriso matreiro, insisti que um paletó era uma indumentária essencial. Afinal, mesmo para partir desta para melhor, é preciso de um. O amigo riu da observação, mas continuou achando que a clássica peça do vestuário masculino era desnecessária e excessivamente burguesa para o seu gosto. E ainda avisou que contaria comigo para o caso de precisar de tal peça para o enterro. “Depois a gente se acerta no purgatório”, completou se divertindo.
Essa conversa me conduziu à infância e me fez lembrar de um presente que meu pai deu a cada um dos meus dois irmãos menores. Era uma pequena gaita de plástico, uma coisa sem muita importância. Entretanto, aquilo me magoou profundamente. Ao perceber o meu desapontamento, meu pai explicou que aquilo era um pequeno brinquedo de criança e que eu já estava ficando mocinho e precisava de um presente melhor, um terno, por exemplo. Respondi que ternos não serviam para brincar e que preferia ganhar uma gaita. Foi então que meu pai disse que um homem precisa de pelo menos um paletó, mesmo que seja para morrer. O velho gostava de contar suas histórias e disse: “Sente aqui que eu vou lhe contar a razão”.
A história era de um sujeito que não nunca se preocupou em ter um bom terno. Gastava seu dinheiro em divertimento, bebidas, passeios e presentes. Quando alguém lhe falava que ele não tinha um bom terno, nem para morrer, respondia: “Não se preocupe, pois quando eu morrer alguém me empresta um paletó. Uma gravata eu já tenho”. E foi o que aconteceu algum tempo depois. Muito mal de saúde, o sujeito teve uma última conversa com um dos seus velhos companheiros e pediu emprestado um paletó para o seu enterro. “Mas você me devolve, não é?”, disse o amigo em tom zombeteiro. “Com toda certeza eu vou devolvê-lo”, respondeu o moribundo.
Alguns dias depois, com a notícia da sua morte, o amigo preparou seu único terno de casimira inglesa, bem cortado, estilo jaquetão, escovando e passando a ferro para deixá-lo impecável para as exéquias do companheiro. O defunto ficou bonito de se ver. A barba bem feita, cabelos bem penteados e um bom terno que causou admiração a todos que foram ao velório, pois nunca haviam visto o homem tão bem vestido. “Pelo menos para a última viagem ele se aprumou” diziam todos que por lá passavam.
Chegando ao céu, o Gaspar - era assim que ele se chamava - foi muito bem recebido, pois era um bom cristão, mas foi avisado de que deveria devolver o terno ao amigo, pois promessa é dívida, mesmo depois da morte. Foi então que o pobre Gaspar tirou o terno e vagou, por anos da eternidade, passando frio e fome com a roupa na mão para devolvê-la ao seu benfeitor. Como o encontro se daria na eternidade, Gaspar precisou esperar a morte do amigo para devolver o terno. Foi com espanto que a família do morto viu, sobre uma cadeira, na manhã seguinte, depois de uma noite de velório, o velho terno de casemira.
Esta história me deixou arrepiado e quase não dormi a noite, aterrorizado com a possibilidade de morrer sem um terno. No dia seguinte procurei meu pai e disse: “Pai, eu vou querer um terno”. “É assim que se fala meu filho”, respondeu o velho, feliz por ter me convencido da importância de se ter um bom costume para usar em ocasiões especiais.
O meu primeiro terno ou costume, já que tinha apenas duas peças, era de calças curtas cor cinza e com riscas de giz. Tirei com ele algumas fotos e fui à missa algumas vezes, ostentando uma gravata borboleta, bem ao estilo da época. É claro que tive outros e sempre era uma história no momento da compra. Minha mãe muito zelosa com as economias domésticas pechinchava exaustivamente para conseguir um bom desconto. Meu pai, ao contrário, não gostava de ser visto com um sovinha e achava que o preço sempre estava adequado.
Meu pai durante toda a sua vida, sempre se preocupou em ter bons ternos para usá-los nos passeios ou mesmo para ir ao centro da cidade para resolver algum assunto cotidiano. Não importava o calor que fizesse, ele suportava elegantemente o paletó e a gravata apertada no pescoço. Muitos anos depois resolvi presenteá-lo com um terno em meu alfaiate. Pedi que escolhesse o melhor tecido disponível no Seu Benedito alfaiate. Esse terno era seu orgulho e pediu-me, discretamente, que queria ser enterrado com ele. E assim se fez. No dia de sua morte fui buscar em sua casa o terno e escolher uma gravata para a sua última viagem. Ao vê-lo bem arrumado no seu último descanso, lembrei-me da história que havia me contado. Bem, e se realmente existir o paraíso, ele não precisará devolver a roupa, como aconteceu com o tal de Gaspar.

Jogava um pano legal em cima de mim ou uma singela homenagem ao Edson José da Silva, o Zéca

Era o casamento do filho de um amigo. Aí eu me pergunto: Com que roupa? Ponho a gravata ou não? Será que não ficaria um pouco exagerado ir de gravata num casamento e sem ser padrinho? Finalmente decidi colocar a gravata no pescoço meio envergonhado em usar uma roupa tão formal para encontrar com velhos amigos.
Chegando a igreja percebi que todos estavam vestidos com costume risca de giz, impecáveis. O meu terno, marrom escuro, que pensei estar muito chique, ficou obscurecido pela elegância reinante. Mas no meio da igreja, sentado muito a vontade, com uma camisa listrada e arregaçada nas mangas, estava o Zéca, desafiando o mundo. Até o filho, um adolescente de dezessete anos estava impecável. Ele optou por uma vestimenta trivial, despojada, ainda que elegante, como sempre.
Mas o Zéca é assim mesmo, detesta formalismo, detesta bares e restaurantes em que os garçons se vestem de pingüim e o chamam de doutor. “Não tenho nada contra os veados, mas detesto mesmo a veadagem”, costuma dizer quando percebe muita frescura, muito formalismo em algum ambiente.
Saímos da igreja e fomos para o bufê Maison Sei lá o quê. Aí o Zéca veio com essa: “Se eu soubesse como era o ambiente, assim, decente, jogava um pano legal em cima de mim”, um velho samba gravado pela Maria Bethânia. É claro que falou isso mais para colocar o samba na pauta da conversa. Mas ele nem sempre foi assim. Nos tempos de funcionário diligente e bem remunerado de uma grande multinacional alemã, era possível vê-lo com uma gravatinha que deixava na gaveta para receber alguma visita especial ou comparecer a uma reunião de última hora. Lembro-me também que em seu casamento, ele estava de gravata borboleta, um tanto estranho para a época. Aliás, este seu casamento, que terminou depois de pouco mais de vinte anos de união, é a nossa diferença, pois continuo convicto de que ele não me convidou para o enlace. Com certeza não foi por maldade, mas por não se preocupar com coisas pequenas. Imagino que ele se esqueceu e achou que eu ficaria sabendo pelos demais amigos e ficaria tudo certo. Que pena! Perdi uma boa festa, com leitão assado, daqueles com uma maça na boca, como lembra o nosso querido o Cabrunco.
Mas o nosso amigo, já no limiar do terceiro tempo, rompeu mesmo com os padrões burgueses de vestimenta e somente não foi de calção e camiseta por consideração ao dono da festa, um burguês gente boa, um sujeito finíssimo, como costuma se referir ao Pedrão, o pai do noivo. Mas não era para menos, pois serviu bons vinhos, whisky e champanha, além de um jantar para ninguém botar defeito e tudo para ver os amigos sorrirem de satisfação.
Foi aí que falei para o Zéca que era preciso ter pelo menos um paletó. Afinal de contas, no dia do juízo final, é preciso estar vestido a caráter, mesmo que seja pela última vez. A expressão abotoou o paletó, tem lá a sua razão de ser. Ninguém fala abotoou a camisa. Mas ele bem humorado, saiu com essa: “Se eu não tiver um, você me empresta e fica tudo certo e depois eu devolvo no paraíso. Assim, a gente marca um encontro numa das tardes da eternidade para tomar uma cervejinha e colocar a conversa em dia e quem sabe cantar um samba do Noel”.