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sábado, 8 de março de 2008

A PARTIDA DO VELHO E SAUDOSO CONSTANTINO DOZZI TEZZA

Conheci o velho Constantino há mais de vinte anos. Foi-me apresentado pelo seu filho numa festa de aniversário de um dos seus netos. Era um homem esguio, de porte elegante e muito alegre. Era um ítalo-caipira, com o seu jeito sorrateiro de observar as pessoas e sugeria, ainda que não fosse fumante, estar sempre picando um fumo de corda e enrolando numa palha sem fim. Rapidamente, como se fossemos velhos amigos deu-se a me contar causos. Alguns um tanto escabrosos, como o do bando de assombrações que vivia a infernizar a vida do povo de Butiá, um vilarejo de Descalvado no interior do Estado de São Paulo, onde nasceu e morou. Contou-me a história com um sorriso maroto nos lábios, saboreando cada palavra, cada passagem, como quem come um cuscuz bem feito. “Rapaz eu nunca tive medo de assombração, mas daquela vez me arrepiei todo. Os companheiros saíram em disparada largando sanfona, violão e até as botinas pela estrada. Eu fiquei firme, segurando minha flauta. Eu não corro de vivo, vou correr de morto!”.

Constantino era um mestre contador de histórias e Butiá era seu palco preferido onde passou sua infância e juventude. Lá aconteceram os grandes bailes, as conquistas amorosas, as brigas de foice e facão e as fugas atabalhoadas pelas invernadas. Eram histórias de valentias dignas da melhor literatura de cordel.

Em todas as festas em que estava presente tomava conta da cena, pois ninguém deixava de ouvir as suas histórias e anedotas bem humoradas. No dia em que nos conhecemos falávamos da aridez da cidade, sem flores, sem campos e sem poesia, quando ele contou-me sobre as flores e as rosas que sua mãe cultivava na fazenda da família, chamada Caucaia do Alto, em Butiá. Toda a vizinhança admirava suas flores e ela sempre repetia os versinhos: “Quem não tem jardim na frente/ não vem de boa gente”. Foi assim que cresceu o Constantin, sob o olhar severo da mama e a beleza de suas flores que ele aprendeu a amar e respeitar.

A velha Butiá, como os velhos amigos, aos poucos também vai desaparecendo, ficando apenas um quadro esboçado na parede da casa do Sinésio, filho do Constantino, mas continua arranhando nossos corações com velhas lembranças. Quando lá estive, há mais de vinte anos, fiquei imaginando um bando de rapazes tocando e cantando pelas estradas para espantar o medo atávico de assombrações. E na minha imaginação o nosso querido Constantino estava entre eles, rindo e assustando os demais com seus causos do além.

E foi pra lá que ele voltou, graças ao filho pródigo que cumpriu o último desejo do pai. “Como eu não sou de pedra e algum dia morrerei, na minha Butiá, meus despojos deixarei”. Imagino que foi assim o pedido do Constantino, pois ficaria mais perto das flores de sua mãe que há tempos florescem na dimensão da poesia, dos velhos campos repletos de butiás que balançam com o antigo vento que sopra do sem fim e dos velhos companheiros de bailes e aventuras. Mas... Para terminar essas mal traçadas linhas, já que a emoção me impede de prosseguir, recorro a uns versos quase anônimos como epitáfio para o querido amigo que partiu: “Butiá, Butiá, de longe não posso chorar/ pois meu coração ficou naquele lugar”.


Renato Ladeia

NOÊMIA MOSCARDI

Passava um pouco apressado pela rua Tenente Antonio Alves, no bairro da Saúde e lembrei-me de velhos tempos. Tempos sombrios, é verdade. Estávamos em plena ditadura militar, mas isso não alterava o humor da maioria das pessoas. Os conscientes da situação pintavam o mundo de forma arrasadora, prevendo o caos que nunca chegaria. Os inconscientes ou alienados como eram chamados de acordo com o jargão da época, pouco se lixavam com a situação. Enfim, entre alienados e conscientes, o tempo passava morno e indiferente.
Essas lembranças me fizeram parar o carro e olhar para uma casa simples, com aspecto de abandono, com folhas secas espalhadas pelo quintal. Ali moravam a dona Noêmia e o seu Joanin. Entrei no túnel do tempo e divaguei em direção a casa. Lá estava a pequena horta cultivada com carinho pela dona da casa. Na verdade, se é que me lembro mesmo, era um pouco de jardim misturado com horta. No canteiro havia flores que se misturavam às pimentas, ao cheiro verde, pimentão e outras hortaliças. Aquilo tudo era motivo de orgulho para a dona da casa, que utilizava esses produtos para incrementar sua cozinha ou para oferecer aos amigos e parentes. Aliás, diga-se de passagem, ela cozinhava muito bem. Lembro-me saudoso das deliciosas lasanhas, tortas, assados e bolos que ela preparava com carinho, não somente para a família, mas também para os amigos do seu filho, que eram sempre bem recebidos com alguns quitutes, regados com o tradicional cafezinho. Ela sentia um prazer encantador em saciar o apetite de todos que por lá passavam.
Mas a viagem no tunel do tempo não para por aí. No ano novo ou Natal lá estava a turma em peso na casa dos Moscardi, onde varávamos a noite sob o som de bons sambas, chorinhos e outras bossas. A dona Noêmia, sempre atenciosa, abastecia o pessoal com seus quitutes, sempre deliciosos, e as imprescindíveis cervejas. O Joanin, que quase ganhou fama, nos seus bons tempos, como ponta direita do Palestra Itália, com seu jeitão carrancudo, deixava a festa correr e só pedia para o pessoal fechar a porta quando alguém fosse embora. Ele se retirava para o seu quarto e em pouco tempo ouvia-se seu ronco sonoro que se misturava aos sons dos violões, cavacos, flauta e pandeiros.
Tempos depois, já casado, sempre recebíamos o convite do Jorge, filho do casal, para filar um almoço dominical na casa da mama, o que fazíamos com grande prazer, não somente pelas delícias que ela preparava, como também pela sua presença alegre e simpática. “Fiz só umas coisinhas simples, não vão reparar!” Era sempre modesta ao falar dos saborosos pratos que preparava e servia com alegria. Durante o almoço, o silêncio era sempre quebrado pelo Joanin, que reclamava da ingratidão do filho com a mama: “ Ele sai por ai e não avisa e deixa essa pobre aí preocupada, sem dormir”, dizia apontando o dedo indicador curvado para a dona Noêmia. Ela ficava em silêncio e esboçava um leve sorriso, como da Monalisa.
O tempo foi passando e aos poucos fomos perdendo o contato. Sempre quando passava por ali, sentia uma vontade danada de tocar a campainha e tomar um café gostoso, passado na hora, acompanhado de um pedaço de torta que só ela sabia fazer. Qualquer dia eu paro, mesmo que chegue atrasado no trabalho, pensei inúmeras vezes. Qual o que! A vida tem sido muito corrida e não temos tempo para as coisas realmente boas da vida e nunca encontramos tempo para nada.
Um dia desses tomamos uma decisão: visitar a dona Noêmia e o seu Joanin. Pegamos o novo endereço, compramos um ramalhete de rosas, as flores que ela mais gostava, e nos preparamos para fazer a visita. Infelizmente ela estava internada com problemas de saúde e a visita precisou ser adiada. As flores ficaram alguns dias no vaso, mas o tempo foi cruel com elas como foi com a querida Noêmia, que nos deixou, leve e suave, como sempre foi.

Renato Ladeia