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domingo, 25 de outubro de 2009

FESTAS JUNINAS



Para os paulistas, as festas juninas são festas de caipiras, capiaus, matutos. Nestas festas os homens das cidades se vestem com calças remendadas nos joelhos e as camisas nos cotovelos, botinas e chapéus de palha. As mulheres usam vestidos de chita rendados, tranças e também chapéus de palha. É um velho estereótipo de que o pessoal do interior se veste mal, é acanhado e não trata dos dentes. São as velhas tradições que foram ficando no imaginário popular.
Neste tipo de festança não pode faltar a tradicional fogueira que tem sua origem no solstício de verão das populações do norte da Europa, que acendiam o fogo para reverenciar os seus deuses pagãos. E tem também a quadrilha, uma dança de salão, também européia, que foi trazida para os trópicos pelos franceses. Tudo muito bem arranjado, num sincretismo que envolve várias culturas: o caboclo, resultado da miscigenação de portugueses com índios, dança da aristocracia francesa e tradições celtas.
No nordeste as festas juninas ganharam outra dimensão. São festas tão importantes que superam o Natal e Ano Novo do Sudeste e Sul. Essas festas são tão relevantes para a cultura local que mesmo as empresas do sul que se instalaram por lá tiveram que se adaptar a esse costume tradicional e guardar os feriados.
Estou escrevendo sobre as festas juninas porque me bateu uma lembrança saudosa dos tempos de juventude, quando a nossa turma resolveu comemorar, com alguns requintes, essas festanças. Naqueles bons tempos queríamos estar sempre juntos para conversar e cantar. Não faltavam bons tocadores de violão, compositores bissextos e poetas. Um deles, Dédo Thenório, escreveu uma bela marchinha junina, chamada Estrelinha brilhante e lançou um desafio: a partir do próximo ano vamos fazer um festival sobre as festas juninas e quero ver todos participando.
O desafio foi aceito e a partir daí virou a festa junina da turma virou uma grande produção cultural. Um grupo era encarregado dos comes e bebes, outros da arrumação e do festival. As primeiras, de uma série de quinze festas aconteceram na casa do Silvio, o cabrunco, que tinha um grande quintal ao lado de sua casa. Foram grandes e inesquecíveis festas, com belas canções e marchas-rancho da melhor qualidade. Juntavam-se músicos como Oscar de Vito, Saulo de Tarso, Zeca da Silva, João Cristal, Dedo Thenório (autor de Estrelinha brilhante),Carlinhos Kalunga, Celinha e suas irmãs e letristas como Sinésio Dozzi Tezza, Erasmão entre outros e produziam belas peças musicais, sempre sobre os balões que coalhavam os céus de São Paulo, fogueiras, bandeirolas, comidas típicas etc. Em cima da hora era escalado o jurado que nem sempre era muito imparcial na hora de julgar, pois todos acabavam se envolvendo nas disputas de acordo com as preferências e a maior ou menor intimidade com os autores. Os membros do juri que ouvia as músicas antes acabavam quase sempre cooptados, o que não chegava a criar problemas, mas mais emoções na competição. Um dos compositores, dos bons, chegou a jogar o troféu no meio do mato porque julgou que o terceiro lugar era incompatível com a qualidade de sua canção, que realmente era muito boa. Coisas de festival.
Aqueles que não compunham participavam de outra forma, organizando concursos de balões, mesmo sendo proibidos. Entre eles estavam sempre o Silvio, Jorge, Chivas, Saulo e Zorba que se esmeravam na confecção de belos e coloridos balões que enfeitavam a noite se confundindo com as estrelas do céu, como cantou o nosso amigo poeta.
Surgiu também outro grande problema: a festa foi aumentando de tamanho, pois todos queriam trazer outros amigos e parentes para participar do evento. Com o tempo foi preciso alugar até sítios para acomodar todo mundo. Com a chegada de pessoas estranhas ao grupo original, começaram a ocorrer vaias na apresentação das músicas, o que era um sacrilégio para os seus idealizadores. Além disso, a perda do controle sobre quem participava, chegou até a gerar umas desinteligências. Infelizmente havia chegado o momento de encerrar o ciclo de quinze anos de festas juninas. Outro motivo, também muito forte, é que o festival, criado com a finalidade das pessoas mostrarem sua arte, virou uma forte competição que poderia até ameaçar a harmonia de um grupo de amigos que se relacionavam há muitos anos.
A festa acabou, o povo sumiu e tudo mofou, mas quem quiser ainda pode acessar o endereço no Google: “Arquivos do Dedo” onde é possível encontrar as belas canções sobre temas juninos, como “O Pau” de Dedo Thenório, “Não Soltem balões” de Oscar de Vito e Sinésio Tezza, “Conta Brasil” de Zeca da Silva e Dedo entre tantas e tantas outras.
Que saudade!

Renato Ladeia

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

FLORAS E FLORADAS



Você conhece alguma Flora? Eu conheci uma, mas não tenho boas lembranças. Ela morava no interior de São Paulo, na pequena Lavínia, minha terra natal. Era a costureira da minha prima e madrinha. Eu ainda era muito criança, mas ainda tenho uma visão clara de sua casa isolada, que ficava no final de uma estrada de terra, ao lado de um velho jequitibá. Era uma construção quadrada, pintada de amarelo e com muitas janelas. Pela minha memória, que pode ser falha, não me lembro de flores em seu quintal. Será que a Dona Flora não gostava de flores? Fui algumas vezes lá com a minha prima, para fazer algumas roupas, numa época em que passei alguns meses em sua companhia. Dona Flora era uma mulher madura e muito séria, que me espetava com o alfinete sempre que fazia a prova das roupas que costurava para mim. Foram poucas vezes, mas o suficiente para deixar uma lembrança amarga da costureira e do seu nome.
Mas hoje Flora me lembra a primavera que está chegando e esbanjando cores apesar da chuva intermitente que deixa todo mundo acabrunhado. As buganvílias ou as populares primaveras plantadas em nosso quintal estão exuberantes de tantas flores e fazem a alegria dos beija-flores, borboletas e abelhas. A amoreira aproveita esta época para dar seus frutos que atraem maritacas, bem-te-vis e sabiás que fazem a festa em nosso pequeno, mas opulento quintal. A pitangueira invejosa também já está se preparando para dar os seus frutos e concorrer pela atenção dos pássaros. Como não sou muito fã de pitangas, deixo-as de bom grado para os pássaros e me divirto com as doces amoras. E num cantinho do jardim, ao lado da jabuticabeira, temos também uns pés de framboesas que tem nos proporcionado generosas colheitas: umas dez por dia. Pode parecer pouco, mas para quem conhece os sabores da infância, sabe que basta uma derretendo na boca para evocar inesquecíveis momentos. Muito a contragosto divido-as com minha filha que ainda reclama que sou um guloso. Confesso que às vezes as devoro e digo que foram os pássaros que comeram. Dou esta desculpa sem ficar vermelho, mas com o olhar maroto de um moleque que ainda existe em minhas retinas fatigadas.
A jabuticabeira, que fica sob a sombra da amoreira, queixa-se da falta de sol, mas às vezes dá bons frutos, que os bem-te-vis devoram antes que os ávidos donos possam saboreá-los. Mas mesmo sem comê-los, nada supera o prazer de ter pássaros em casa e ouví-los cantar todas as manhãs, mesmo que sejam gulosos e egoístas. Espero, contudo, que as fartas amoras bastem para saciar o voraz apetite dos nossos bem-te-vis e consigamos saborear algumas jabuticabas, a mais brasileira das frutas.
E por falar em jabuticabeira, é impossível deixar de lembrar da que o seu Giovani, vizinho do meu amigo Zeca, tinha em seu quintal. Era um árvore majestosa que dava tantos frutos que era impossível aproveitá-los todos. Os pássaros vinham de longe para a festa anual e seu Giovani, um italiano simpático e falante, cantava loas à árvore que seu pai plantou quando ainda era criança. Infelizmente, com a sua partida, a especulação imobiliária viu no terreno uma ótima oportunidade para construir mais um prédio e a velha jabuticabeira foi brutalmente arrancada da mãe-terra sem nenhuma compaixão. Que Deus a tenha e reserve as profundezas do inferno de Dante para os especuladores imobiliários. Quanto ao meu amigo Zeca, ganhou um enorme e incômodo vizinho, com mil olhos a observá-lo, como o Grande Irmão de George Orwell em “1984”.
Enquanto isso vou curtindo a minha primavera particular, aproveitando ao máximo os prazeres proporcionados aos meus olhos, guardando na memória, cada cor, cada fruto e o som do canto do sabiá laranjeira e de um pássaro estranho que apareceu por aqui e ainda não descobri o seu nome. E é por isso que a vida ainda vale à pena, o resto é apenas falta do que fazer (com ela).

Renato Ladeia
Outubro de 2009