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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

OBAMA E A GRANDE VIRADA


Na pele de um negro ou Black like me, de John Howard Griffin, foi a história de um jornalista norte-americano branco nos anos 1960 que raspou os cabelos e escureceu a pele através de processos químicos e foi viver como um negro no sul do seu país. Este livro construiu o meu imaginário adolescente sobre os Estados Unidos, uma nação que segregava a minoria negra de forma cruel e violenta. Relembro uma passagem em que ele estava sentado em um ônibus e olhou para uma mulher branca para oferecer-lhe o lugar. Ele foi prontamente repudiado simplesmente por se atrever a olhar para uma mulher branca. É através do olhar que nos identificamos como seres humanos e esse olhar lhe foi negado. Griffin sentiu uma profunda solidão, num mundo que era hostil a ele e a cor da pele que não era dele, mas apenas uma representação. Como um ator, ele voltou ao mundo real e publicou o que viu e sentiu na pele de um negro.
Não sei se todos os afro-americanos, depois de mais de quarenta anos da universalização dos direitos civis nos EUA decretados pelo Presidente Kennedy, já podem olhar para um branco como iguais, mas a eleição de um meio negro para presidente provocou uma profunda alteração nas relações raciais americanas. O que é surpreendente mesmo, é que Barack Obama, fruto proibido do racismo americano: o casamento de um negro com uma mulher branca rompeu várias barreiras sociais. Primeiramente, entrou na mais famosa universidade americana, Harvard, elegeu-se senador e conseguiu superar a favorita Hillary Clinton, que representava, não somente a elite branca, mas também a experiência política adquirida durante os oito anos de mandato do marido, Bill Clinton.
A eleição de Obama tem vários ingredientes. Não podemos atribuí-la apenas a incompetência de George W. Bush ou ao discurso conservador de McCain e sua candidata a vice, Sarah Palin. Obama foi quem melhor inovou em termos de utilização da nova mídia, a Internet. Rapidamente ele conquistou jovens hiper-conectados, incluindo brancos, negros e hispânicos que criaram uma eficiente rede de arrecadação de recursos para a campanha. O discurso de Obama foi mais sensível, eloquente e por vezes, poético. Ele conseguiu atingir de forma emocional, todos aqueles que estão desesperançados, excluídos ou que simplesmente sonham com um mundo melhor. O seu perfil carismático impôs diante do perfil racional burocrático do oponente. Manteve-se tranquilo diante dos ataques a lá pit-bul dos adversários, respondendo com elegância e firmeza. O grande número de eleitores que foi às urnas, surpreendendo a todos, foi um ato de vontade, de determinação daqueles que querem mudar a América. Recordo-me que em junho passado, um brasileiro que reside a quinze anos nos EUA afirmou com segurança que o McCain levaria a melhor, porque os que diziam que votariam em Obama tradicionalmente não vão às urnas. Ele errou e muita gente bem informada foi pelo mesmo caminho, porque não conseguiram avaliar as transformações que estavam ocorrendo sob seus pés. A América não é mais a mesma. A América onde Tocqueville, um francês aristocrático, se entusiasmou com o nascimento da primeira grande democracia do mundo, com o voto universal para todos os homens trabalhadores (brancos), caminha em direção às incertezas do mundo moderno.
A América mudou? Muito provavelmente sim. A população branca americana está em franca redução, pois os brancos têm menos filhos do que os negros e hispânicos. Sobrenomes como Garcia, Rodriguez e Lopez estão em alta, superando tradicionais nomes anglo-saxões em algumas regiões. A América está mudando porque a maioria dos jovens repudia também as velhas práticas do american way of life; o ideário de que os EUA são a polícia do mundo e a ideologia de que vale a pena morrer pela pátria e pela democracia está perdendo força. A América está mudando porque a globalização encerrou a era de muitos empregos e bons salários para todos, inclusive para os brancos. A América como grande parte do mundo também está “exportando” seus bons empregos para a Ásia e se tornando uma sociedade de serviços, que hoje já é uma atividade que ocupa a maioria da população economicamente ativa. Neste quadro, as minorias são as parcelas da população que mais sofrem.
Lamentavelmente, pelo menos em um aspecto, a América não mudou e está se tornando pior: a violência. O filme Tiros em Columbine é o retrato da sociedade americana moderna. Os casos de atiradores que assassinam em série se multiplicam. Armas extremamente perigosas podem ser compradas em qualquer esquina, sem um controle por parte das autoridades. O principio da liberdade individual impera sobre o bom senso e impede que haja um mínimo controle sobre a proliferação de armas entre os civis. Aliás, esta é uma das propostas de Obama e em razão disso, as vendas de armas e munições tiveram um aumento estrondoso após os resultados das urnas.
A história americana, provavelmente seja a mais pródiga em assassinatos de políticos e líderes em todo o planeta. Lincoln, Kennedy, Robert Kennedy e Martin Luther King são exemplos que não devem ser esquecidos. Reagan sofreu um atentado e por pouco não teve a mesma sorte. A democracia liberal é o império da maioria e sempre sobram descontentes e inconformados. A segurança de Obama é motivo de grande preocupação, não apenas fora dos Estados Unidos, quando as visitas dos presidentes americanos são cercadas por grandes e até exagerados aparatos, mas dentro do próprio território americano. Mas sejamos otimistas e vamos esperar que os americanos tenham realmente mudado. Longa vida ao Barack Obama.
Renato Ladeia