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sexta-feira, 24 de abril de 2009

APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO



Se vocês pensam que eu vou contar minha droga de vida com todos os detalhes sórdidos, podem ir tirando o cavalo da chuva. Eu vou contar apenas algumas coisas que eu tenho vontade de contar, mas vou omitir e mentir em muitas coisas. Ao contrário do Holdem Caulfield do Apanhador em campo de centeio, a minha infância foi pobre, mesmo tendo estudado uns três anos em colégio particular. Eu não fui expulso como ele, mas fui jubilado depois de repetir duas vezes na mesma série. E foi mais por preguiça mesmo do que dificuldade para aprender. Eu era um perfeito relaxado, se é que é possível ser perfeito nessas coisas. Eu não era burro, mas era indisciplinado. Algumas coisas não entravam na minha cabeça. Em português eu até me defendia, pois lia e escrevia com alguma facilidade e era capaz de ler várias páginas em pé, segurando um livro, sem gaguejar. Em matemática me defendia para o gasto. Mas quando era necessário decorar coisas que não me interessavam? Era um desastre.
Minha primeira professora no curso primário se chamava Edméia, era uma mulher simpaticíssima e meiga. Ela até gostava de mim. Eu posso até jurar que gostava, mas hoje não teria muita certeza não, pois professores bonzinhos gostam de todos os alunos, sejam eles feios, bonitos, burrinhos ou inteligentes. Ela era linda e tinha um sorriso encantador. Eu ficava horas olhando para o seu jeito de falar e sorrir. Era realmente uma mulher fantástica. Pena que ela foi embora antes de terminar o ano. Eu acho que foi para ter um bebê, mas não tenho certeza. Depois veio a dona Mariana, uma mulher também simpática, mas mais madura. Um tipo maternal que usava umas roupas muito sérias. Foi com ela que eu fiz a minha primeira porcaria de redação. Na verdade não era uma redação, mas uma composição. De qualquer forma até hoje eu não sei a diferença entre uma coisa e outra. Ela colocou um quadro pendurado na lousa com uma fazendinha ridícula. Ridícula porque tinha uma casinha boba, uma vaca idiota, um cavalo pangaré, uma galinha e não sei mais o que. Eu muito idiota escrevi uma relação de coisas que tinha no quadro, como “Eu tenho uma fazenda, eu tenho um cavalo...” ao invés de uma composição. Ela leu a minha em voz alta e todo mundo me gozou. Foi a maior humilhação, aliás, a primeira que eu recebi publicamente. Eu fiquei puto da vida. A bosta é que ela não explicou direito o que era composição ou então eu estava tão distraído, como era meu hábito, que não prestei atenção e escrevi aquela esculhambação.
No ano seguinte tive outra professora que devia ter uns oitenta anos ou mais. Era brava e muito feia. Usava uns óculos enormes e prendia os cabelos com um birote atrás da cabeça. Ela usava o tempo todo um ponteiro de madeira para bater nos dedos da criançada que estava conversando ou distraída. Aquilo doía para cacete, principalmente quando estava um pouco frio. Às vezes ela batia com aquele treco na cabeça da gente, mas não muito forte porque ela não era besta. Algumas vezes ela tirava o sapato de salto alto e jogava na molecada. Não falei que era doidona? Já pensaram se machucasse uma criança, que confusão que iria dar? Ela fazia isso porque não conhecia minha mãe. Se eu contasse que ela havia me caceteado a minha mãe virava uma fera. Ela era capaz de ir até a escola e peitar a professora e a diretora, colocando o dedo na cara. Mas era por isso que eu não contava nada, pois tinha a maior vergonha da minha mãe dar escândalo. Não é por nada não, pois a imbecil dessa professora bem que merecia, mas o problema era depois ter de agüentar a gozação da molecada.
Tinha um aluno repetente na classe que era malandro. Ele devia ter o dobro da minha idade, mas não conseguia aprender nada. Além disso, o Zé, esse era o seu nome, andava roubando coisas pelo bairro. Um dia a polícia apareceu na casa dele, que morava muito perto da minha casa. Os policiais o levaram com o pai até a delegacia para prestar depoimento e ele sumiu da escola. Não sei se ficou preso, mas ele não foi a aula nos dias seguintes. A professora perguntou se alguém sabia do José. Eu dei uma de otário e contei para ela o que havia acontecido. Imaginem os tabefes que eu levei do grandão depois da aula, pois alguém da classe me entregou para ele. A minha sorte foi que o meu pai conhecia o pai do sujeito e ele maneirou um pouco na surra. Neste dia aprendi que a duras penas que não é nada bom se intrometer na vida alheia, principalmente em assuntos delicados como esse.
Tive ainda outra professora, chamada Maria Lúcia com quem eu dei a maior mancada, quer dizer, a maior cagada. Não é simbolismo não! Foi no duro. Ela estava explicando uma matéria sobre a história do Brasil e de repente senti umas contrações violentas na barriga. Aí não deu para segurar e pedi para ir ao banheiro. Sabem o que a imbecil da professora disse: - “Espere eu terminar a explicação”. Não deu outra. Diante da fedentina e todo mundo reclamando eu pedi de novo e aí ela mandou que eu fosse depressa. Aí não adiantou mais nada e a única coisa que eu fiz foi me limpar. Fui para casa mais cedo todo sujo de merda. Hoje fico pensando como é ridículo um professor não deixar o aluno sair para ir ao banheiro. Como se as necessidades fisiológicas podem esperar a vontade do professor.
E assim, eu encerro esta crônica num estilo J.D. Salinger, o grande escritor americano, autor do Apanhador no campo de centeio (The catcher in the rye). De quebra, aproveito para agradecer, tardiamente, ao professor Esdras Pinto da Silva, meu professor de Inglês no colégio que, na época, emprestou-me o livro. Para quem não leu, vai aí uma boa sugestão de leitura. É realmente imperdível.

JUNIA COSTA, A MOÇA QUE DEIXOU UM VIOLÃO LÁ EM CASA



JUNIA COSTA, A MOÇA QUE DEIXOU UM VIOLÃO LÁ EM CASA


Um dia desses, arrumando as coisas em casa, encontrei um velho violão Gianini todo empoeirado e comecei a pensar na sua história. Foi uma moça, lá das Minas Gerais, mais precisamente de “Belzonte”, como ela chamava a capital do estado, que o deixou aqui. Não sei se ela gostava ou não do violão, mas parece que foi coisa do passado, quando ainda era muito jovem e estudante. Depois de formada o violão foi ficando meio de lado e acabou esquecido, propositalmente por aqui. Quando ela mudou-se para outras plagas, perguntamos:
- E o violão, não vai levar?”
- Acho que não vou não. Eu gostaria de deixá-lo aqui. Vocês se incomodam?
Claro que a gente não ia se incomodar. Mesmo tendo o nosso, um violão a mais nunca seria demais, pois às vezes aparecia mais de um músico para os nossos animados saraus. Depois, um violão é um objeto que tem vida. Não é um vaso, um móvel. As pessoas tocam belas canções e com eles passamos bons momentos de nossas vidas com nossos amigos. Enfim, um violão sempre tem muitas, muitas histórias para contar. Se fosse um ser vivo, estaria lembrando-se das mãos leves, suaves, femininas, ou mãos pesadas, ásperas, mas sempre sensíveis e inspiradas que dedilharam as suas cordas. Isso me faz lembrar aquela linda canção do Cartola:
Ah! Essas cordas de aço
Este minúsculo braço
Do violão que os dedos meus acariciam
Ah, esse bojo perfeito
Que trago junto ao meu peito...

E a moça do violão partiu, foi para a Europa e lá se enfiou em um cantinho qualquer e tocou a sua vida. Casou e com muito esforço conseguiu autorização para exercer a profissão de médica em um país nórdico, o que não é fácil não. Sempre nos lembramos dela em vários momentos. Um deles foi numa fria manhã de junho. Ela estava no portão desesperada, com a porta do carro aberta e um cão atropelado sobre o banco traseiro. No primeiro momento pensamos que era uma pessoa ferida. Depois ela foi se acalmando e explicando que tinha visto o atropelamento do cão e resolveu socorrê-lo. Como não conhecia nenhum veterinário, resolveu bater em nossa porta para ajudá-la. E a história não terminou por aí. Depois de constatado que o cão não teria mais recuperação, pagou as despesas para o sacrifício e o enterro do animal e ainda foi procurar o dono para comunicá-lo. Pobrezinha! A primeira coisa que o dono do cão queria saber é se teria de pagar alguma coisa e nem perguntou o que havia acontecido com o pobre cão.
Ela adorava os nossos cães e mal sabíamos se quando nos visitava era por nossa causa ou por eles, tanto era o afeto que demonstrava para com os bichos. Brincadeiras a parte, ela era (e continua sendo), uma pessoa doce e amável. Nós a tratávamos como uma irmã mais jovem e algumas vezes até com umas broncas para colocá-la nos eixos.
Numa outra ocasião, socorreu nossa filha em um pequeno, mas sério acidente doméstico. Ela fez um trabalho primoroso de reconstituição de um dedo macerado em uma cadeira de armar e praticamente sem recursos em um hospital público.
A última vez que a vimos foi no aeroporto, quando voltava de BH depois de uma rápida visita ao Brasil para o enterro, não de uma pessoa, mas de uma cadelinha que deixou com sua mãe.
Depois de uma desilusão amorosa ela conheceu o Thomas, um dinamarquês que eu apelidei de Hamlet. O “Hamlet”, diferentemente do personagem de Shakespeare, nunca me pareceu muito preocupado com questões existenciais. É uma pessoa doce e gentil que adora cães, gatos e companhia. E foi esse quase personagem que arrebatou para sempre o coração desta médica mineira que cantava bossa-nova deixando o Brasil mais pobre e com menos poesia.
Mas o velho Gianini continua por aqui e foi nele que a Mariane compôs algumas de suas canções como: Gente Média, Café Luá, Vai virar, Melhor parar, entre tantas outras. De vez em quando também aparece o Zéca, um dos maiores conhecedores de sambas desde Noel até os nossos dias e o maestro Orlando Marcus Mancini, também um dos maiores conhecedores da MPB, que despertam a alma do velho pinho em inesquecíveis noitadas.
Enquanto ela não volta para apanhar o seu pinho, ele vai ficando por aqui, saudoso de sua dona que tal vez já tenha se esquecido do português e o que dirá da bossa-nova.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Extraterrestres




Revendo quase por acidente o filme ET em que um extraterrestre é apresentando como um pequeno monstrinho sensível e delicado, observa-se um grande contraste com as declarações de pessoas que se dizem abduzidas pelos seres de outros planetas. Umas duas mulheres que relataram os seus “casos” com alienígenas, revelaram que eram altos, loiros e com olhos azuis. Essas pessoas juram por todos os deuses que tiveram filhos destas relações e não ficam constrangidas em mostrá-los na televisão. A entrevistadora faz expressão séria ao formular as perguntas sobre como ocorreram as abduções. A cena me fez lembrar do livro de Carl Sagan, O mundo assombrado pelos demônios em que o autor procura desmascarar, através de explicações fundamentadas na ciência, esses depoimentos sobre encontros com extraterrestres. Sagan não usou meias palavras para criticar esse modismo contemporâneo. Lembra o físico e astrônomo que não há registro histórico de contatos com seres extraterrenos nos séculos anteriores aos livros de ficção de Julio Verne ou antes da famosa locução do ator norte-americano Orson Welles sobre a invasão da terra utilizando um texto de H.G. Wells. Até então só temos registros de aparecimentos de personagens religiosas.
Nos anos setenta do século passado foi publicado um livro chamado Eram Deuses os Astronautas de Von Danicken, tentando provar que algumas obras arquitetônicas foram obras de seres alienígenas que visitaram a terra em tempos idos. O livro foi convincente e eu mesmo embarquei na história, pois acreditava na possibilidade concreta de que a terra não poderia ser o único planeta habitável do universo. Considerando a existência de trilhões de estrelas no centro de possíveis sistemas solares, nada seria mais lógico e racional do que aceitar a possibilidade de haver vida em outras partes do universo. Sagan, que era um profundo conhecedor de astronomia – dentro das possibilidades disponíveis pelo atual estágio da ciência, não descartava esta possibilidade, mas colocava também a hipótese de que a terra também poderia ser o único exemplo de vida em todo o universo. Caso haja mesmo vida inteligente fora da terra, as dificuldades para contato serão as mesmas que encontramos atualmente. Como o universo tem a mesma idade e o processo evolutivo teria ocorrido paralelamente em todos os sistemas solares, estaríamos no mesmo estágio de outras “Terras” em termos de desenvolvimento tecnológico. Considerando também as distâncias existentes, mesmo dentro de um mesmo sistema solar, as probabilidades de contato ou de viagens interplanetárias seriam, no mínimo, bastante complicadas. Eventuais viagens no futuro talvez somente sejam possíveis através de fetos congelados.
Por outro lado, parece um tanto óbvio que viajantes alienígenas não se dariam ao trabalho de ficar bisbilhotando a terra sem a preocupação de fazer algum contato inteligente para eventuais intercâmbios tecnológicos ou culturais. Alguns estudiosos de OVNIS afirmam categoricamente que a força aérea americana e a NASA escondem tais fatos da população para evitar turbulências. Ora essa! Será que com tanta gente informada sobre o assunto (pilotos, militares, políticos, técnicos etc.) ninguém sairia dando entrevista na mídia falada e escrita? Impossível.
Sagan, muito educadamente considerava essas pessoas sinceras, mas paranóicas. Para ele, mesmo com um detector de mentiras não seria possível desmascarar essas pessoas, pois elas acreditam fielmente no que falam e defendem. Pessoas que vivem falando que ouvem vozes ou mantêm contatos com pessoas falecidas ou de outro mundo, são consideradas dementes e eventualmente vão para sanatórios. Entretanto, se são bem articuladas, entram para o seleto clube dos ovnianos e conseguem até a proeza de dar entrevista na televisão e em jornais. A história do matemático John Nash, prêmio Nobel de Economia que sofre de esquizofrenia e viu durante anos pessoas inexistentes com quem conversava, é um exemplo de como a mente humana é capaz de burlar a racionalidade. Sem mais delongas, devo dizer que se eventualmente existir vida inteligente fora da terra, provavelmente os ETs deverão parecer muito estranhos para nós, pois a vida teria se desenvolvido de forma bastante inusitada em outro planeta, mesmo em condições semelhantes às da Terra. Mas o mais intrigante mesmo é a pergunta que Ray Kurzweil faz em seu livro: A era das máquinas espirituais: Será que a vida inteligente é relevante no universo?