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terça-feira, 19 de outubro de 2010

A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

A violência doméstica é uma constante em todas as camadas sociais e as residências das famílias são os locais mais perigosos para as crianças. Cerca de 30% das crianças são vítimas de maus tratos dentro da própria casa e seus algozes podem ser pai, mãe, padrastos, madrastas, tios, avós, irmãos etc. Infelizmente isso não é privilégio do Brasil. Também nos EUA e na Europa isso ocorre com freqüência quase semelhante.
A história de Helenice faz parte deste quadro estarrecedor. Ela tinha o lado esquerdo do rosto deformado por uma grave queimadura. No trabalho ninguém ousava perguntar a causa, pois todos imaginavam que falar sobre o assunto causaria um sofrimento desnecessário à moça. Assim os colegas conviveram com ela durante meses fazendo de conta que não havia nada de diferente nela. Almoçavam juntos, participavam do happy-hour e tomavam o cafezinho na cantina e nada de se falar sobre o seu rosto.
Mas um dia, durante o almoço, sem que ninguém houvesse tocado no assunto, ela desandou a falar sobre o trágico acontecimento. A história foi a seguinte: Seus pais estavam separados e sua mãe vivia com um homem que de vez em quando desaparecia e só retornava dois ou três dias depois. Mas sua mãe era apaixonada por ele e preparava-lhe o jantar todos os dias, mesmo sabendo que ele poderia não voltar para casa. A família era muito, muito pobre e a mãe reservava para o marido um bom bife enquanto ela e as crianças se serviam apenas de arroz e feijão. Numa noite ela e as duas irmãs menores ficaram sozinhas e resolveram comer um pedaço do bife do padrasto que há dias não aparecia. Juraram que ninguém contaria para a mãe, que as ameaçava com castigos se tocassem no jantar do seu homem.
Mas nesta noite a mãe retornou com o padrasto e ficou furiosa com as crianças por terem comido o bife. Como ninguém denunciava quem teria sido o culpado, ela jogou álcool nos rostos das três crianças e em seguida acendeu um fósforo ameaçando atear fogo se não contassem quem havia desobedecido as suas ordens. Nisso Helenice resolveu reclamar da atitude da mãe, a qual não vacilou, jogando o fósforo em seu rosto. Percebendo que colocara em risco a vida da menina, um dos irmãos tratou logo de jogar água para evitar que o fogo se espalhasse pelo corpo todo e a levaram a um hospital. No caminho a mãe prometeu que a mataria se contasse para alguém o ocorrido. Helenice passou por várias cirurgias para recompor o rosto, mas precisaria ainda fazer uma plástica quando estivesse adulta.
Depois do episódio ela foi morar com o pai e mesmo se encontrando eventualmente com a mãe, nunca tocou no assunto. Muito tempo depois, numa das visitas à mãe, essa lhe perguntou: “Por que está me olhando com essa cara feia?” Helenice respondeu: “Essa cara feia foi você quem me deu”. Nesse momento, em lágrimas, a mãe prometeu-lhe que lhe pagaria uma cirurgia plástica.
Tempos depois, com seus próprios recursos, Helenice estava com a data da cirurgia plástica marcada. No dia em que faria a internação, recebeu um telefonema de um irmão avisando que a mãe acabara de falecer. Diante da morte da mãe, Helenice desistiu de fazer a cirurgia. Por quê? Todos na mesa perguntaram. “Neste dia cheguei à conclusão de que não era mesmo para fazer a cirurgia”. A partir daí assumiu a queimadura da face como algo normal, sem traumas ou constrangimentos. “Eu sou assim mesmo e daí?”.
Ela satisfez a curiosidade de todos, mas uma pergunta continuou no ar: Como pode uma mãe fazer uma crueldade desta? Para Rousseau a culpa é da sociedade que torna o homem cruel, ambicioso, perverso... Para Freud nosso inconsciente é movido por pulsões de ódio, de amor, de destruição. Enfim, o ser humano é uma incógnita. Nem todos conseguem reprimir as suas pulsões selvagens. Portanto, não há amor incondicional, nem de mãe.

Renato Ladeia

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