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segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Histórias de Piedade (II)

Dedo estava em novas atividades no banco. Agora era um inspetor de financiamento rural e seu trabalho consistia em visitar os clientes do banco para verificar se estavam aplicando corretamente os recursos. Pegou a pastinha com a relação dos clientes a serem visitados, subiu na motocicleta e saiu para mais um dia de trabalho. As estradas vicinais são difíceis, mal conservadas e sem nenhum tipo de sinalização ou indicação. Para localizar as pessoas nos sítios era preciso ir perguntando para quem encontrava pelo caminho. Muitos dos clientes são conhecidos por apelidos, o que torna a tarefa ainda mais difícil. Um tal de Antonio José dos Santos foi muito difícil de achar. Ninguém conhecia o homem até que um senhor se lembrou e disse:
- Deve ser o Toto do Titico. Ele mora lá em riba.
Chegando lá encontrou uma senhora de meia idade varrendo o quintal em frente a casa. Estava tão concentrada em seu trabalho que nem percebeu a moto chegar. Ela parou de varrer e apoiando as mãos na vassoura cumprimentou o visitante.
- Bom dia!
- Bom dia, minha senhora! É aqui que mora o senhor Antonio João dos Santos?
- Não senhor, aqui não mora não...
- Será que eu me enganei? Um senhor da venda me disse que ele mora aqui, disse o Dedo surpreso com a resposta.
- Não... não conheço não; repetiu a senhora.
- Me falaram que o apelido dele é Toto do Ti...
- Ah! É o Toto do Titico, filho meu moço! Respondeu a senhora surpresa.
- Mas como? A senhora não sabe o nome do seu filho? Disse o Dedo espantado e sorrindo para não deixá-la constrangida.
- Ah! Nois aqui não se trata pela assinatura não moço. Respondeu a senhora calmamente apoiando o queixo no cabo da vassoura.
Depois de resolvido o problema, o Dedo pegou a moto e foi pensando no episódio. Ele se lembrou do livro Parceiros do Rio Bonito, escrito pelo Antonio Cândido, com base numa pesquisa na região próxima de Piedade nos anos 1940. No livro, Antonio Cândido, faz referência ao hábito da população rural não usar os nomes de registro. Ele cita um tal de Roque Lameu, que depois descobriu se tratar de Roque Antonio da Rocha que era neto de Bartolomeu da Rocha, que no linguajar caipira era Berto Lameu. Naquela época as relações eram bem informais, dispensando documentos, nomes próprios etc. Assim, bastava a palavra ou um fio de bigode que um negócio estava garantido, sem a necessidade de documentos.
Os nomes passados em cartório é procedimento recente no Brasil. O registro civil para casamentos e nascimentos só chegou em nossa terra com a proclamação da república e isso muito lentamente. Até então, a única prova de nascimento era o assento de batismo, isto é, quando a pessoa era batizada. Sabe-se que no Portugal medieval não havia sobrenomes, que só apareceram aos poucos com a utilização de apelidos de antepassados em função de profissões, topônimos, relações de dependência etc. A patronímia, ou seja, a utilização do nome do genitor continuou aqui no Brasil. Isso explica o caso do Toto (apelido de Antonio) do Titico (que poderia ser seu pai, seu avô ou mesmo o sogro).
Assim, na vida simples do interior, onde as relações pessoais não dependem de status ou identidades marcadas pelo sobrenome de família, as pessoas dão pouca importância a isso. Diferentemente dos povos europeus, aqui no Brasil, as pessoas não são denominadas pelos nomes de família, mas pelo pré-nome. Como escreveu Sergio Buarque de Hollanda em Raízes do Brasil, preferimos o tratamento mais informal, que revela uma intimidade que muitas vezes não temos com as pessoas. O José de Souza para nós não é o Sr. Souza, mas simplesmente o Zé ou Zezinho. É o nosso jeito, mesmo nas cidades em que as pessoas conhecem as “assinaturas”.

Renato Ladeia

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