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sábado, 18 de julho de 2009

OS LIVROS




Um velho amigo, dos tempos de faculdade, contou-me desconsolado que vendera seus livros a um sebo por uma merreca. Fiquei espantado com o inusitado do fato e toparia até comprá-los, caso me oferecesse a relíquia. Mas era tarde demais e só me restou, como consolo, ouví-lo contar sobre a triste separação.

Depois de contemplar seus livros durante horas, lembrando os bons momentos em que estiveram juntos debatendo idéias, criticando e anotando. Alguns deles até lembrou-se do momento da compra, outros foram apropriados, sorrateiramente, nos tempos de estudante, outros presenteados por amigos e parentes. Tudo parecia distante e frio, pois já não sentia mais aquele amor devotado aos livros que aprendera a cultivar durante longos anos. Quantas vezes perdeu a paciência com pessoas mal educadas que dobravam as páginas dos livros ou rasgavam as páginas ou as capas!

Mas já tinha tomado a decisão de vendê-los e ninguém, nada, iria demovê-lo. O primeiro comprador ofereceu um preço apenas razoável, mas pediu o parcelamento do valor. O segundo, apesar do preço mais baixo, pagava a vista. O valor da venda era ridículo perto do valor sentimental, material e intelectual das brochuras. Mais de dois mil livros e só ofereciam cinqüenta centavos para cada um. Uma miséria, menos de sessenta vezes o valor médio de um livro novo. Infelizmente o apartamento era pequeno e não havia mais espaço para acomodá-los. Acumulava poeira e praticamente não tinha mais contato com eles. Há muito, abandonara suas posições políticas e intelectualmente radicais. “Esqueçam o que eu li”, brincava ele, parodiando o intelectual presidente que pedia para esquecerem o que ele havia escrito. O mundo em que acreditou desmoronava-se. As experiências socialistas estavam enterradas, talvez para sempre. Sentia-se cada vez mais anacrônico e deixou de defender antigas posições. Sentia-se envelhecido Ele que sempre foi muito respeitado por suas convicções e honestidade intelectual, lendo com visão crítica tudo que caia em suas mãos, pendurou as chuteiras.

Mas agora, pensava, de que adiantava esses livros todos, acumulando poeira, ocupando espaços preciosos do pequeno apartamento. Provavelmente nunca mais fosse lê-los com interesse. Alguns deles, há anos, não eram sequer tocados. Vendê-los a um sebo seria um sacrilégio, mas não restava alternativa. Quem sabe algum amigo ou conhecido passasse por um desses “sucateiros da cultura” e, ao comprar um livro, reconhecesse a caligrafia cuidadosa nas anotações nas margens e rodapés. Até que seria interessante, chegou a pensar. Talvez esse amigo pudesse imaginar que já estivesse morto ou então numa pindaíba tão grande que precisou até vender as velhas brochuras. Pode ser que esse amigo, depois de comprar um dos livros em um sebo qualquer, poderia até fazer um telefonema e relembrar os velhos tempos de juventude.

Mas o comprador chegou, e sem demora, sob a orientação da sua mulher, foi encaixotando todos eles sem nenhuma consideração especial. Meros papéis... Foram várias viagens até encerrar o carregamento. Deixou um cheque e despediu-se como se tivesse comprado algumas caixas de ferro velho. Nenhuma palavra de consolo para aquele que estava se desfazendo de parte de sua vida, de suas lembranças, de suas utopias. Sentou-se, apoiou as mãos sobre a bengala e chorou, como uma criança.

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