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sábado, 12 de maio de 2012


VIDA DE BOIADEIRO






Meu amigo Álvaro Pequeno, por contradição um grande sujeito, no tamanho e na generosidade, defendeu uma tese um tanto atípica nos meios acadêmicos sobre os peões de boiadeiro em sua trajetória desde os tempos heróicos dos tropeiros. Os atuais peões de boiadeiro usam roupas de grife americanas, com botas que chegam a custar até dois mil dólares. As festas que são realizadas em Barretos chegam a reunir mais público dos que os grandes clássicos de futebol. Os peões colocam suas vidas em jogo por alguns segundos de fama em cima de um boi selvagem. Quando conseguem vencer a disputa e sobrevivem no lombo do boi, podem ganhar uma pequena fortuna. Quando não, podem sobrar umas costelas, pernas  quebradas ou até uma paralisia.  Os pobres peões são parte do espetáculo, mas dormem embaixo dos caminhões enquanto aguardam sua vez de entrar na arena e quando são acidentados são abandonados pelos organizadores.
Quando soube da sua pesquisa lhe ofereci umas fotografias que eu tinha guardadas em casa do meu tio boiadeiro, que labutou pelo interior de São Paulo e Mato Grosso, transportando boiada. José Ladeia , estava com apenas dezessete anos quando abandonou a escola e a família para viajar junto com uma comitiva. Sua primeira função numa viagem para o Estado de Mato Grosso foi como ajudante do cozinheiro. Aos poucos foi pegando jeito e logo já estava tocando a boiada junto com os demais vaqueiros. A vida de boiadeiro ou tocador de boiada era muito difícil, conforme contam os cronistas e as modas de viola. Dormir ao relento em cima do baixeiro era rotina dessa vida nômade levando e trazendo boiadas pelos sertões. Mas para José era uma aventura sem fim, sentia prazer com esse trabalho que lhe dava algumas satisfações e sucesso com as mulheres. Pelo nosso interior adentro ser namorada de boiadeiro era a possibilidade de estar com um homem que conhecia o mundo, uma pessoa viajada, experiente. Além disso, a espera era sempre compensada com presentes vindos de longe.  José aprendeu a tocar viola com o pai, que lhe ensinava algumas modas. Com isso ele divertia a peonada cantando músicas como Viagem Cuiabana que enaltecia a vida de peão de boiadeiro.
Tempos depois já era o chefe de comitiva, cabendo-lhe a responsabilidade pela entrega do gado e recebimento dos pagamentos. Pagava os peões que torravam o pouco que ganhavam nos cabarés das cidades onde deixavam o gado. Lá sempre eram envolvidos por mulheres sedutoras, que prometiam fidelidade eterna com uma mão no coração e outra no bolso do peão.
Boiadeiro não podia casar e quando isso acontecia era inevitável a separação, pois a vida errante não permitia uma vida sedentária. As longas viagens minavam qualquer relacionamento. Foi o que aconteceu com meu tio. Casou-se com uma boa moça do interior, filha de um fazendeiro e com ela teve cinco filhos. Casado, as viagens diminuíram, mas a paixão pelas comitivas falou mais forte e o casamento acabou.
Logo se envolveu com uma professora de Araçatuba, chamada Norma. Era bonita e elegante e estava feliz por ter ao lado  um boiadeiro quase famoso e muito respeitado na cidade. O casal era feliz e viviam aos beijos e abraços até que um dia o jovem boiadeiro, domador de burro bravo e que se gabava por subir em qualquer lombo de boi, teve uma queda fatal. Ficou desacordado e ainda chegou com vida para despedir-se da mulher amada. Morreu com 30 anos com a cabeça ainda cheia de sonhos e paixões.
Ele gabava-se por sair de Araçatuba antes de nascer o sol e chegava à casa dos pais, em Lavínia, antes do sol se pôr. Eram mais de 60 quilômetros a galope no lombo do fiel burro Furioso que deixava poeira para fora pelas estradas boiadeiras que cortavam a região noroeste paulista. O Furioso vinha todo incrementado, com peitoral de argolinha feito sob encomenda pelo Sebastiãozinho traçador.
E o Álvaro Pequeno fez uma pequena homenagem aos boiadeiros brasileiros que labutavam a região sudeste, descrevendo as suas aventuras e desventuras desde o século XIX até Barretos, cidade dos peões de boiadeiro. Ele foi além da tese, bem escrita, com pesquisas teóricas  e empíricas e trouxe para a Universidade um grupo típico de boiadeiros com toda a sua parafernália, incluindo cozinheiro, comida típica como paçoca e arroz de carreteiro. Para encerrar, belas e inesquecíveis modas de viola. José, observava atento a movimentação ao lado do seu burrão Furioso, mas era apenas uma fotografia ampliada em forma de painel que o amigo Álvaro mandou preparar como símbolo de um tempo.

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