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domingo, 10 de julho de 2016

JOÃO CABRAL DE MELO NETO


Um dos maiores poetas brasileiros, rigoroso na técnica de construir versos trabalhando o sentido das palavras de forma fria e pragmática. O canavial, o melado e o açúcar corriam no seu sangue. Pernambucano da zona açucareira, cresceu observando os mares verdes de cana. Consta que Cabral não gostava de música. Dono de uma enxaqueca vitalícia, tomou milhares de comprimidos para amenizar a dor e escrever seus versos. Era um sofredor. A música devia lhe torturar a caixa craniana e por isso, talvez, o desprezo por essa arte.
Por azar ou por sorte, teve seu Auto de Natal pernambucano: Morte e Vida Severina, musicada por um compositor quase adolescente, o Chico Buarque, e tudo por insistência do amigo dramaturgo e psicanalista Roberto Freire que queria apresentar o Auto num festival em Paris onde acabou sendo premiado.  Nunca se soube se gostou ou não gostou da peça musicada. Quando perguntado sempre respondeu com evasivas. Amigo de Vinicius de Moraes, o criticava por ter abandonado a poesia pura e se dedicado à música popular. Arnaldo Jabour conta em uma de suas crônicas que presenciou Cabral cutucando o amigo Vinicius por causa de canções como “Garota de Ipanema” e “Na Tonga da Milonga do kabuletê”. Mas o velho Vinicius não se incomodava e preferia as canções que o povo cantava do que os poemas que quase ninguém lia.
Cabral além de não gostar de música, tinha outro defeito a meu ver. Detestava a obra do poeta lusitano Fernando Pessoa. Considerava-o responsável pela agonia da poesia. Não poupava nenhum dos heterônimos, pois segundo ele, Pessoa influenciava negativamente vários poetas, incluindo Drummond no final de sua vida.   Os seus versos derramados e sentimentais eram, para ele, um desserviço à poesia. Para Cabral a poesia era algo racional, com versos construídos como um engenheiro calcula a estrutura de um prédio, sem emoções. Em seu poema O Engenheiro, ele compara a engenharia com a poesia, geometrizando, buscando a exatidão da linguagem. Poesia para ele era fruto do trabalho paciente, lúcido.
Conheci João Cabral pessoalmente em São Paulo, em 1968, quando esteve presente num avant première da peça “O & A” escrita e dirigida por Roberto Freire, no teatro TUCA. Depois da peça, teve uma noite de autógrafo do poeta, mas eu estava sem dinheiro para comprar o seu livro Poesias Completas, lançado na época. Com os trocados que tinha no bolso, comprei um livreto de ”Morte e Vida Severina” por insistência do amigo Tomás Padovani com quem fui ao evento.  Enfrentei a fila todo envergonhado em pedir um autógrafo para o escritor. Enquanto esperava, ouvi outros estudantes perguntarem o que ele achava da situação política no Brasil (Estávamos em uma ditadura) e ele respondia sempre: “Não sei, pois estou morando fora do país há muito tempo e não tenho acompanhado as notícias do Brasil”. É evidente que mentia, pois era funcionário público (cônsul em Barcelona) e temia o aparelho repressivo do Estado. Nos autógrafos ele se limitava a assinar seu nome completo em todos os livros, riscando seu nome impresso. Chegou a minha vez e ele antes de assinar me olhou como quem pensava “como esse pirralho se atreve a me pedir o autógrafo num livreto”. Sua expressão era de quem estava com dor de cabeça. Já sabia disso, pois havia lido sobre ele numa revista e naquela época, também, sofria com uma cefaleia quase diária. Cumprimentei-o longamente e agradeci o autógrafo.
Sempre que via o livro do João Cabral nas livrarias folheava, lia um ou outro poema e desistia de comprar, sempre arrependido de ter o autógrafo do poeta em um livreto que às vezes desaparece em minha estante ou em alguma gaveta.  Muitos anos depois ganhei, como presente de aniversário, o livro que não pude comprar na época, de um velho amigo, professor de literatura, que escreveu a dedicatória: “Ao amigo sociólogo que tem seu it de poesia”.



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