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domingo, 10 de julho de 2016

MAIORIA ABSOLUTA

Com cinquenta por cento mais um, são tomadas decisões em nome da maioria que podem afetar a todos, incluindo aqueles que votaram contra. Quem estabeleceu essa medida matemática que as decisões da maioria simples são as melhores, as mais válidas, as mais racionais e que representam a totalidade?
Assim, muitas decisões são tomadas em nome de uma pretensa maioria que pode gerar sérios problemas para todos, pois a maioria pode ter sido manipulada por engenhosos sistemas de comunicação. Vence quem teve o melhor discurso, mas se o discurso foi ideológico, no sentido em que a ideologia é uma forma de manipulação da realidade, quando se oculta parte da realidade e mostra apenas um lado?
O exemplo do Reino Unido é sintomático, pois os defensores do Brexit não contaram tudo para os eleitores, mas apenas o que lhes interessavam. Não disseram aos eleitores ingleses que a saída geraria um queda significativa no PIB, o risco da Escócia e Irlanda do Norte saíram do Reino Unido, a saída das sedes de grandes instituições bancárias de Londres, grande número de desempregados dentro e fora, pois centenas de milhares de ingleses estão empregados em países europeus e precisarão voltar para casa, evidentemente sem empregos. O discurso xenofóbico e racista de que os estrangeiros estão roubando os empregos ingleses tem o poder emocional de incitar o ódio, a paixão, mas nunca a razão.
Além do mais, trinta por cento dos ingleses deixaram de votar, provavelmente por estarem desinteressados em questões políticas e deixaram para os 70% o poder para decidir. É bem possível que aqueles que perceberam o risco da decisão devem estar arrependidos por não terem votado de acordo com seus interesses.
A maioria tem os seus riscos e podem ser bombásticos. Se a unanimidade é burra como diria o dramaturgo Nelson Rodrigues, que dirá uma maioria simples? Quem deu aos 51% o direito de decidir pelos outros 49% impondo a todos uma decisão que pode estar absolutamente errada e movida por paixões, que todos sabem nunca são racionais.
Aliás, bem disse Max Weber que a maioria nunca está no poder. O poder é sempre das minorias que se revezam. São as minorias que comandam os partidos ou movimentos de massa, que impõem as suas vontades definindo qual é a verdade. Escolhem de que lado o povo deve ficar, qual será o candidato em que o povo deve votar.

Por isso acredito que quem venceu um pleito não tem o direito absoluto de se considerar o ungido pelo voto da maioria simples e tomar as decisões contra a vontade dos demais. As democracias, como disse Tocqueville, não podem prescindir dos direitos das minorias, que devem ser ouvidas antes da tomada de decisões que impactem em suas vidas.

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