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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

OS DEVANEIOS  DE JACOB

Jacob tinha pouco mais de um metro e meio. Teve paralisia infantil e ficou com uma perna mais curta do que a outra. Andava com dificuldade, mancando. O corpo adaptou-se ao defeito na perna e ele ficou com uma das nádegas mais alta do que a outra.  Ele andava com o pé esticado, quase na ponta, para compensar a diferença de tamanho entre as pernas. A natureza não lhe foi generosa. Tinha um nariz enorme e ainda usava dentadura com pouco mais de trinta anos.  Teve até um proposta de casamento, mas a moça era muito velha, segundo ele que preferia uma mais novinha. Ainda por cima era o moço exigente. Mas ele era uma pessoa boa e honesta e não se importava quando caçoavam dele. Sabia-se feio e era conformado com a vida. Morava com a mãe e uma irmã numa casa que comprara com o fruto de um bilhete premiado. Contava que foi uma grande alegria em sua vida. Além de comprar a casa, conseguiu ajudar as suas irmãs.
           Gostava de freqüentar prostíbulos e contava-me aos detalhes as suas aventuras quando sobrava alguns trocados no final do mês, coisa difícil, pois ganhava pouco e ainda custeava os estudos. O seu fetiche era tirar as calcinhas das garotas e dizia que fazia isso bem lentamente para curtir cada centímetro que ia desnudando. Apesar de tudo era um otimista e considerava a possibilidade de se casar um dia com uma garota jovem e virgem.
        Não é que o sonho do Jacob acabou se tornando realidade.  Viajando para Minas Gerais a convite de um amigo, conheceu Raquel, de 17 anos, a filha mais nova de uma ninhada de sete. A família da moça era paupérrima e viviam do pouco que dava um pequeno sítio com terras de pouca fertilidade. Digamos que beleza ela não tinha nenhuma, não era a Raquel, serrana bela, cantada por Camões, mas era jovem e a juventude acabou neutralizando os poucos dotes da serrana. Jacob não perdeu tempo e no outro final de semana viajou para Minas com a disposição de acertar o casamento. Inicialmente seu Labão  ofereceu a filha Lia, mais velha e ainda solteira, mas diante da insistência do pretendente, acabou cedendo. Nas condições em que vivia, socada no meio do mato, a possibilidade de morar na cidade foi um grande achado para Raquel. Uma sorte grande! foi o comentário das comadres da vizinhança, ainda mais com um moço estudado. 
            Sem mais delongas acertaram o casório para dentro de um mês. Enquanto isso Jacob pintou a casa e comprou os móveis para receber a donzela. Raquel chegou tímida na casa da sogra que a recebeu muito bem, pois era também uma pessoa simples, que veio do interior para morar na capital. Jacob estava radiante, pois tinha, enfim, realizado o seu sonho, casando-se com uma garota muito jovem e virgem, condição para ele sine qua non. Quando os colegas brincavam sobre como ele tirava as calcinhas da esposa, ele ficava sério e pedia respeito com a senhora sua esposa.
             Jacob era rápido no gatilho e sem demora  a menina ficou grávida, antes mesmo de completar dezoito anos, mas a fortuna não estava do lado do casal. Um tumor apareceu no crânio de Raquel no início da gravidez e foi se ampliando. Quando deu a luz a criança, o tumor já havia tomado praticamente toda a caixa craniana. Pensava-se que era um tumor cancerígeno, mas descobriu-se que era um tumor benigno na hipófise. O grande problema é que durante a gravidez em razão das mudanças hormonais o tumor cresce muito rápido. Ela perdeu, inicialmente a visão lateral e também os controles motores, ficando praticamente inválida. No final da vida já não se levantava da cama nem para as necessidades fisiológicas. Assim, aos dezoito anos completos, Raquel terminava sua história de vida, deixando uma filha para o marido criar.
            Passado o período de luto mais intenso, Jacob foi visitar a família do seu Labão, pai de Raquel e não é que ele se acertou com uma irmã dela. Era a mais velha, mas ainda moça e a sua feiura não era tão exagerada como chegou a pensar quando conheceu a Raquel. Três meses depois, alegando que precisava de alguém para cuidar da filha órfã, ele desposou a cunhada Lia sem festa e sem casamento religioso. 








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