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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O LUTO DE ESTEFÂNIA

Pobre da dona Estefânia, perdeu um filho com apenas dezoito anos num trágico acidente. Ele foi junto com alguns amigos nadar numa represa em São Bernardo e acabou se afogando. Conhecia o Paulinho apenas de vista, pois eu era ainda um frangote na época.  Foi muito triste, pois era apenas um garoto com muitos sonhos pela frente.  Ele saiu com uma turma para nadar e aconteceu o inesperado.  Disseram que ele mergulhou fundo e se enroscou em um galho de árvore.
             Logo depois o seu marido, um velho advogado de porta de cadeia, morreu com câncer, que em casa se chamava doença ruim, ou aquela doença que ninguém gostava de falar o nome. Fui com meu pai visitá-lo uma vez. Era um homem alegre e simpático que mesmo acamado sem poder andar, ainda fumava e dizia besteiras na frente de um menino. Meu pai ficava desconfortável e tentava a todo custo mudar de assunto, mas vira e mexe ele soltava um palavrão sonoro. Dona Estefânia, sua mulher chorou muito no velório. Gritava desesperada que os dois únicos homens de sua vida tinham partido.
             Ficou ela e a filha Marília, uma garota lmeio maluquinha, que era a valentona do bairro e batia até nos marmanjos. Como a mãe trabalhava fora, ela abria a casa e servia pão com manteiga e café com leite para toda a molecada. Ser amigo dela era uma proteção. Um dia ela resolveu ir para a nossa casa com toda a sua turma. Minha irmã mais velha acabou deixando, mas constrangida porque nossa mãe não gostava de crianças em nossa casa. No dia seguinte teve muitas palmadas e puxões de orelha, além das terríveis broncas da nossa mãe. Ela só não contou para meu pai com medo de que ele ficasse muito furioso. 
             Mas a Dona Estefânia, viúva teve um caso com um rapaz solteirão, filho de um italiano, proprietário de uma oficina mecânica. Parece que foi um romance tórrido pelo que se ouvia pelas conversas dos mais velhos em surdina. Falava-se, também, que o caso começou bem antes do velho advogado morrer. Ela bem mais velha do que ele, era muito ciumenta e ele um mulherengo de primeira ordem, conforme se comentava  a boca pequena. Os fatos vieram comprovar que tais comentários tinham lá suas razões. Em pleno dia apareceu na esquina de nossa casa uma moça bonita e elegante e perguntou-me se eu conhecia o Alexandre. Claro que conheço, respondi prontamente. Então ela pediu-me que fizesse a gentileza de dar-lhe um recado que ela queria falar com ele com certa urgência. Fui rapidinho até a casa do tal de Alexandre, que estava dormindo. Quando falei que uma moça estava querendo falar com ele, a Dona Stefânia ficou uma fera e saiu de chinelas para encontrar a rival. Foi o maior barraco que o pacato bairro já havia presenciado. A moça, muito educadamente, tentou contornar a situação, mas foi humilhada publicamente, com todos os impropérios que as mulheres ciumentas utilizam contra as suas rivais. Naquele dia aprendi novas palavras e tornei outras mais feias. Começou a aglomeração de boa parte da população do bairro até que o Alexandre apareceu e apartou o que seria uma tragédia para a desconhecida,  que por seus modos elegantes e delicados, levaria uma tremenda de uma surra da dona Stefânia.  A moça foi embora e o Alexandre levou a sua mulher pra casa.
               Mas dona Estefânia foi envelhecendo e o seu Alexandre continuava ainda moço, apesar dos cabelos começarem a ficar grisalhos. A diferença de idade pesou bastante e as traições viraram rotina. Tempos depois ela confessou para amigas que não ia mais brigar por isso. Para ela a vida estava no fim mesmo e achava melhor que ele aproveitasse a juventude que ainda lhe restava. E assim ela foi definhando aos poucos e não dava para acreditar no que a outrora bela mulher havia se transformado. Alexandre a abandonou bem antes de sua morte e só foi ao velório por causa de um filho que teve com ela.


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