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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O CASAMENTO


A família de Maria, apelidada por Mariquinha desde criança, mudou de cidade por causa da transferência do pai, que era professor primário. A vida era bastante difícil para uma família grande e a mãe contribuía para o orçamento doméstico dedicando-se à costura. Mariquinha, então com dezesseis anos, já ajudava a mãe nas costuras e também fazia as entregas de encomendas. Numa dessas entregas conheceu Epaminondas, filho de uma antiga família local, que outrora esteve muito bem financeiramente, mas vivia das glórias do passado. O moço não gostava de trabalho e os vários empregos que o pai lhe arranjara, acabava abandonando-os alegando, ora que o salário era pouco, ora que o serviço era por demais pesado. Trabalho com hora para chegar e para sair não fazia parte da vocação deste bom vivant. Mas ao conhecer Mariquinha começou a pensar em constituir uma família, pois já estava passando da idade. Assim insistiu com o pai que pedisse aos pais de Mariquinha a sua mão em casamento. O pai teria preferido uma moça de uma família de posses para dar ao filho um futuro melhor, mas diante da insistência, fez as vontades do filho e foi à casa do professor fazer o pedido, como era costume na época.
               Mariquinha mal havia visto o moço, mas considerava-o bonito. Cumprimentavam-se a distância quando ela ia à casa dos pais do rapaz para fazer alguma entrega. Apesar de bonita, vestia-se com um vestido estampado de algodão e usava chinelas, mas os cabelos louros presos em duas tranças que caiam sobre os ombros lhe davam um jeitinho faceiro e encantador.  Nos fins de semana, quando ia passear na praça com as irmãs, passava um batom nos lábios, o que fazia os rapazes da pequena cidade disputarem a oportunidade de cumprimentá-la e fazer-lhes mesuras.  
               Na noite do pedido, os pais de Epaminondas foram até a casa de Maria para formalizar o pedido de compromisso. A mãe, uma mulher prática, queria saber se o rapaz tinha emprego e recursos para sustentar uma família. O pai do moço garantiu que o filho tinha um emprego e que ajudaria o casal no início da vida conjugal. Tudo acertado, começaram os preparativos para o casório, ficando para dona Cândida a responsabilidade de providenciar o enxoval da noiva, o que lhe reservou trabalhos extras para fazer frente às despesas. O casamento foi simples dadas as condições econômicas da época, pois o pai do noivo apesar de dispor de uma propriedade, havia perdido grande parte da lavoura por causa de uma longa estiagem.
               Casados e mal se conhecendo, foi o casal morar na casa dos pais de Epaminondas até que as condições melhorassem. Maria continuou ajudando a mãe nas costuras e com isso conseguia algum dinheiro para ajudar no seu parco orçamento. O marido, apesar das promessas, abandonou mais um emprego e vivia jogando truco com os amigos em uma bodega. O minguado dinheirinho da mulher ele surrupiava religiosamente para gastá-los na jogatina e bebida. Foi mesmo um péssimo negócio para a pobre Mariquinha, caro leitor. Com o tempo, foram morar em uma casa arranjada pelo sogro na periferia da cidade. Mas tudo ainda estava por acontecer. Com dois filhos e nomes tão longos que os meninos se cansavam para pronunciá-los quando chegava uma visita. Era a velha mania de grandeza de uma antiga família tradicional. Nomes longos e dinheiro curto. 
               Sem dinheiro para o sustento dos filhos e do marido, Mariquinha conseguiu um emprego como garçonete em um restaurante na pequena cidade do interior de Minas, onde moravam. Com a vida apertada e recebendo propostas cada vez mais atraentes, a pobre moça resolveu experimentar apenas uma vez para colocar comida em casa. Azar dela, o folgado marido descobriu e além de tomar-lhe parte do dinheiro, a incentivou a dupla ou tripla jornada, tornando-se assim um cafetão.
               A vida de Mariquinha ficou tão difícil que ela resolveu escrever e contar a mãe pelo menos parte do que estava lhe acontecendo, pois a parte omitida era por demais chocante para a velha senhora. Dona Cândida e a família haviam se mudado para o Rio de Janeiro, mas não demorou uma semana, entre o recebimento da carta e sua chegada à casa da filha. Mandou que arrumasse as malas e as crianças, tomaram um carro e foram para a estação de trem. Chegando em casa Epaminondas deu conta da ausência da mulher e das crianças e bateu em direção à estação. Lá chegando exigiu que as crianças ficassem com ele, mas dona Cândida deixou bem claro que nem por cima do seu cadáver ele levaria as crianças. Por sorte o trem chegou e ela conseguiu embarcar com a filha e as crianças.
               Chegando a próxima estação, já havia uma ordem judicial para detenção das crianças. Dona Cândida, uma mulher esclarecida, argumentou ao oficial de justiça em bom português para não deixar dúvidas quanto ao direito da filha em ficar com os filhos, pois o marido era um cafajeste preguiçoso que não cumpria as suas obrigações de provedor. Diante do impasse o Oficial de justiça falou com o delegado local, que por coincidência era parente de dona Cândida. Explicada a situação, o delegado fez vista grossa e deixou que seguissem viagem.
               Do Rio de Janeiro, a família, agora com mais dois membros, mudou-se para o interior de São Paulo, onde se estabeleceram. Mariquinha andou de namoricos pela cidade e seu nome ganhou folha corrida e seu irmão mais velho tratou se colocar coleira nos ímpetos da irmã, arranjando-lhe um casamento ou amigamento com um fazendeiro velho e viúvo do Mato Grosso. Pobre Mariquinha, ficou enterrada no sem fim do sertão, onde a vila mais próxima ficava a mais de cinqüenta quilômetros. Tempos difíceis aqueles em que a malária praguejava pelos campos. Contaminada pela doença, deixou os dois meninos com seus longos sobrenomes a mercê do velho fazendeiro e ninguém mais no mundo soube qualquer notícia dela ou das crianças.


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