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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

NADA É PARA SEMPRE


Conheci Ernesto quando estudantes no antigo ginásio. Ele vinha transferido de um seminário católico, pois havia desistido da carreira eclesiástica e se matriculou no colégio estadual.  Ser padre não era mesmo sua vocação e jogou a toalha bem antes de se criar muita expectativa na família, profundamente católica. Fez como Bentinho, o casmurro personagem de Machado de Assis, que desistiu da igreja pela paixão por Capitu, a moça dos olhos de ressaca.
               Mas não havia uma Capitu na vida de Ernesto, pelo menos enquanto fazia o ginásio. Mas no final do colégio a sua Capitu, aliás, a Madalena, apareceu em sua vida. Era uma moça um pouco mais velha que ele. Não era nenhuma beldade e também não tinha o olhar enigmático da personagem do romance Dom Casmurro. Usava longos cabelos, que quase cobriram seu rosto fino e comprido. Tinha um sorriso bonito e simpático, sugerindo ser uma pessoa amável e generosa. Inteligente e dedicada, logo se formou na escola normal e em pouco tempo já era professora primária. Formavam um casal bastante moderno. Participavam ativamente da vida comunitária, tanto na igreja do bairro, como nos movimentos sociais. Da vida comunitária para o engajamento em movimentos pelo fim da ditadura militar foi rápido e o casal participou ativamente de movimentos estudantis e trabalhistas.
               Madalena era ajuizada e forçou o namorado a poupar desde cedo e juntos compraram um pequeno terreno onde aos poucos construíram uma modesta casa para morarem depois do casamento. Com a casa própria, estava tudo pronto para um feliz casamento pequeno burguês. Isso aconteceu pouco tempo depois, mas não poderia ser um casamento nos moldes tradicionais. Eles eram diferentes, engajados politicamente, cultos e anticonvencionais. O convite de casamento longe dos padrões usuais era uma declaração de amor diante dos parentes e dos amigos. A cerimônia foi realizada numa igreja onde o pároco era progressista e se dispensou os aparatos usuais como o vestido de noiva e o tradicional terno e gravata. Todos reunidos no centro da igreja, o casal falou sobre o seu amor e houve oportunidade para os parentes e convidados falarem sobre o evento. Até eu me aventurei a falar e confesso que falei demais e cheguei a ser inconveniente. Eu com outros amigos havíamos tomado algumas cervejas antes e hoje dou conta de que deveríamos ter ido para casa e não para uma cerimônia de casamento.
             Casados e felizes desejando que fosse para sempre, o casal cuidou de ter filhos para perpetuar a espécie ou povoar a terra de acordo com um mandamento bíblico. Mas a Madalena engravidou várias vezes e não conseguiu levar a gestação até o final. Como eram esclarecidos, eles não se acabrunharam e buscaram a adoção como solução para o problema. Soube através de uma amiga próxima do casal que eles adotaram duas meninas.
         Nunca mais vi o casal, imaginando-os envelhecendo e felizes até que passadas quase duas décadas encontrei o Ernesto em uma livraria da cidade. Depois de uma rápida conversa perguntei pela mulher. Desconversou e entendi que estavam separados. Não era o momento oportuno para fazer perguntas sobre as causas do fracasso de um casamento que foi bastante inovador para os padrões da época. De qualquer forma foi um choque saber que aquele amor cantado em prosa e verso pelo Ernesto não se sustentou para a eternidade.
            Muitos anos depois voltei a encontrá-lo e pude então saber um pouco mais sobre os problemas que levaram ao fim um relacionamento que prometia ser bastante promissor. O Ernesto confessou, muito a vontade, que saíra do armário. Com uns trinta e poucos anos de idade e quase dez de casado, resolveu separar-se de Madalena, pois estava cansado de reprimir sua sexualidade e ser infeliz. Confidenciou-me que foi fazer terapia com um arrojado analista que o convenceu a liberar sua sexualidade.  Como ele sempre foi muito avançado em relação aos costumes, não teve duvidas e mandou às favas as convenções sociais e casou-se em grande estilo com um novo amor que também vivia aprisionado em um armário pouco confortável.

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