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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O ALPINISTA SOCIAL

Marco, decididamente, era um alpinista social, mesmo sem saber o que significava isso.  De família muito humilde decidiu que precisava fazer qualquer coisa para melhorar de vida. Rapaz bonitão, loiro de olhos azuis, fazia sucesso com as mulheres, mas estava mesmo interessado em dar o famoso golpe do baú. Não é que a oportunidade surgiu quando descobriu que uma família freqüentadora da igreja era muito abastada. O velho Aristóteles tinha lojas e uma construtora em ascensão, além de vários imóveis espalhados pela cidade. A moça era feia, desajeitada e, além de tudo, não era muito equilibrada. Para Marco não havia problema algum em desposar a moça, um pouco mais velha do que ele e com todos os predicados mencionados. O que interessava mesmo era o patrimônio do sogro que tinha dinheiro escapando pelo ladrão, conforme se comentava pelo bairro.
Tudo indica, meus caros leitores, que a família estava com muita pressa em selar o compromisso da Cremilda com o moçoilo para evitar algum imprevisto. Marco estava fazendo o serviço militar e mal terminou a formatura, o casamento já foi marcado. Aliás, a futura sogra e a noiva, foram as duas únicas pessoas que foram assistir ao evento de conclusão do serviço militar. Os rapazes queriam se livrar o mais rápido possível da encrenca e cuidar  suas vidas. As famílias nem ficaram sabendo que estavam sendo convidadas. Somente o Marco cometeu o cochilo e levou a tiracolo as duas mulheres vestidas de acordo com os padrões evangélicos. Saias abaixo dos joelhos e blusas fechadas até o pescoço. Os longos cabelos enrolados em forma de coque na parte superior das cabeças. Elas formavam um quadro grotesco  pois eram as únicas pessoas civis num ambiente militar.
Os colegas de Marco caçoaram dele por ter conseguido a proeza  de arrumar uma namorada tão feia e desajeitada. Mas ele respondia zombeteiro:  “O que me interessa é a grana do pai dela. O resto eu dou um jeito”.
Foi um casamento digno dos comentários da vizinhança. O sogro não poupou  recursos, que ele tinha de sobra,  para proporcionar uma festa digna da sua fortuna em ascensão. A festa foi realizada em um prédio ainda desocupado que seria utilizado para os novos escritórios de sua firma. Champagne, vinhos e serviço de Buffet com caviar para comemorar as núpcias. Marco estava feliz da vida e pensava com seus botões: “Um dia tudo isso será meu”, sonhava. Viu-se comandando o império do sogro, dando ordens, andando de cadilac com motorista e tudo o que teria direito o genro do magnata.
Terminada a festa, o consorte tinha uma missão a cumprir e não era das mais fáceis. Como se tratava de uma moça de família religiosa e puritana, nada de beijos ou abraços antes do casamento. Ela se guardou totalmente para ele naquela quinta-feira de um abafado mês de janeiro.  Marcos bem que tentou, mas não conseguiu armar o seu brinquedo para aplacar os desejos da desposada. Alegou ter bebido demais e convenceu a donzela a deixar para o dia seguinte a consumação do ato conjugal. Caso o casal fosse do sul da península itálica, teriam sérios problemas diante da comunidade, pois não haveria lençol estendido na janela com as marcas de amor.
Mas enfim, relaxado, Marcos conseguiu romper as barreiras que separam a ansiedade e o prazer. Aliás, deixou claro para a esposa que a função do ato sexual era apenas para a procriação e o fariam o mínimo necessário para gerar filhos.
Seu primeiro emprego foi numa das lojas do sogro como gerente. O tempo passou e nada da fortuna nababesca que havia sonhado. Tinha um salário e um apartamento para morar ao lado do sogro. Logo ele percebeu que recebia muito pouco para dormir com a moça mais feia e burra do bairro. Ficava até tarde no trabalho para não voltar para casa e encontrar a mulher acordada. Com o tempo começou a ter casos, inclusive com funcionárias da loja. Os comentários com o tempo chegaram aos ouvidos  do sogro. Marco foi removido da gerência da loja e colocado em uma função de pouca relevância e dinheiro menos ainda. Discriminado pela família da mulher e já com dois filhos chegou à conclusão que precisava cuidar da sua própria vida e não depender mais do sogro. Abandonar a esposa, jamais, pois seria abdicar da fortuna que um dia poderia chegar às suas mãos ou a dos filhos. Arrumou um emprego de representante de vendas que, felizmente, o obrigava a ficar meses fora de casa, comunicando-se com a mulher e os filhos apenas por telefone.  Numa dessas viagens envolveu-se num acidente e lá foi o nosso alpinista social prestar contas com o criador como ele mesmo gostava de dizer em relação à morte.

Nos seus últimos momentos, no caminho entre o local do acidente e o hospital, teria se arrependido do projeto de vida que arquitetou para se dar bem. Casou-se por puro interesse financeiro, mas recebeu apenas algumas migalhas da grande fortuna que chegou a sonhar. Abdicou de ser feliz para ter fortuna e acabou sem fortuna e sem felicidade. Pobre Marcos.

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