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domingo, 18 de junho de 2017

UM ESTRANHO HOMEM



Ele surgiu do nada no meio da confusão. Suas roupas eram estranhas, parecendo um beduíno, carregando um saco com seus pertences. De repente viu policiais batendo nas pessoas com cassetetes, jogando bombas de gás lacrimogênio ou atirando balas de borracha. Sua primeira reação foi interceder para que as pessoas não se machucassem, mas acabou apanhando também. De nada adiantou se explicar que estava tentando ajudar as pessoas que estavam sendo castigadas sem motivo.
- Vocês não sabem quem eu sou? Estou aqui para uma missão muito importante que meu pai me encarregou. Vocês não podem bater nessas pessoas. Ninguém tem direito de castigar o próximo.
O policial não pensou duas vezes e deu-lhe um tremendo safanão que ele caiu há alguns metros. Machucado pela queda continuou não entendendo nada. Nunca havia sido tratado assim, a não ser... Mas logo depois foi recolhido pelos policiais e levado para uma viatura algemado. Ficou pasmo com a situação, nunca imaginou que desta vez sua missão fosse tão rápida que não tivesse nem mesmo tempo para explicar a que veio. “Atirem a primeira pedra aqueles que nunca erraram”, gritava dentro do camburão.
Esse cara deve ser um fanático maluco. Deve ser de uma seita evangélica achando que vai salvar a humanidade, comentou um policial. Os outros riram e também não deram importância para o clamor do homem.
Na delegacia ele ficou junto com outros detidos na manifestação. A maioria era de jovens estudantes que não estavam intimidados com a situação. Conversavam normalmente, trocando ideias sobre como deveriam agir na próxima vez e contavam que seriam libertados em breve, pois não havia acusação formal contra eles. Os jovens acharam estranho aquele homem com aquelas roupas exóticas, um tipo de manto sobre o corpo e calçando uma velha sandália de couro cru. Perguntaram-lhe quem era e o que estava fazendo na manifestação, mas ele estava tão cansado e machucado que não teve forças para responder.
A noite chegou e nada dos jovens serem libertados. Todos famintos e esgotados e nem sinal do delegado que iria pegar os depoimentos e depois fichá-los e libertá-los. Alguns dormiram e outros continuaram discutindo questões políticas e estudantis, planejando como seria a próxima manifestação, sempre acreditando que seria arrasadora, que abalaria  os pilares do estado. Como o homem estranho havia acordado, um dos estudantes perguntou quem era ele e o que estava fazendo na passeata. Ele repetiu a mesma ladainha que fez diante dos policiais, mas já se retraindo com medo de que fossem também atacá-lo.
- Calma, calma, não vamos machucá-lo. Somos amigos, disse um dos estudantes. Estamos fazendo um movimento para derrubar o governo. São uns fascistas que estão no poder e querem ferrar com o povão.
- Vocês não devem lutar contra o governo. Lembrem-se: A César o que é de César. A Deus o que é de Deus”. Eu não sou daqui, não pertenço a este lugar.
- Como assim? Você é um estrangeiro ilegal? Tem passaporte? Como entrou no país? Perguntou um estudantes, observando que ele tinha um sotaque levemente estranho, apesar de falar bem o português.
- Vocês não me entenderam. Eu não sou daqui. Sou de outro lugar. Estou aqui em uma missão, o meu pai...
Nisso um dos estudantes começou a cantar uma ciranda do folclore baiano, gravada pelo Caetano Velloso: “Eu não sou daqui, marinheiro só, eu não tenho amor, marinheiro só...” E todos caíram na gargalhada.
Logo depois entrou um policial e chamou o homem estranho para ser identificado e liberado. Diante do delegado reclamou que foi agredido sem que tivesse ao menos ameaçado o guarda. Achou uma injustiça o que fizeram com ele e com os jovens que também foram presos. O delegado fez de conta que não ouvia as reclamações e ordenou ao escrivão para que tomasse as digitais do homem e providenciasse a fotografia. Em seguida perguntou pelo seu nome, endereço, profissão. Ele não entendeu nada do que foi perguntado. Disse que veio direto para a rua e ainda não sabia onde ficaria. Talvez numa rua qualquer. Um cantinho protegido da chuva e dos bichos seria suficiente para ele.  Nome? Por que haveria de dizer seu nome? Quem és tu? Perguntou. És o César?
- Aqui não tem ninguém que se chama César. Vai falando logo que eu não tenho tempo a perder. Nome?
- José
- José de que?
- Bem, sou José de Belém.
-Escrivão!  Escreva aí: José de Belém. Profissão?
- Sou pedreiro e carpinteiro.
- Está liberado, mas se você aparecer de novo por aqui vou botá-lo em cana por uns meses para aprender a não desacatar autoridade policial.
Ele continuou não entendendo nada. Pegou sua sacola e saiu em direção à rua. Agora estava tudo calmo, tranquilo, apenas as pessoas circulando e todas com muita pressa. Tentou em vão abordá-las. Queria conversar, mas ninguém lhe dava atenção. Cansado, sentou-se sob uma marquise e ficou observando o movimento. Era uma igreja. Tentou entrar, mas as portas estavam fechadas. Como uma igreja pode estar com as portas fechadas? Falou pra si mesmo.
Estava escuro e o movimento da rua foi diminuindo só restando uns mendigos que reclamaram que ele estava ocupando um lugar que já tinha dono.
- Como? Não há dono da casa do Senhor, respondeu irritado.
Os mendigos riram e se afastaram para outro local, onde colocaram uns papelões para passar a noite. Ele continuou ali estranhando aquele lugar onde ele foi parar. Não conseguia entender porque Deus o deixou ali, sem nenhuma explicação. Sabia que o Pai escrevia certo por linhas tortas, mas deveria ter algum sinal para que entendesse a sua missão. Mas conformou-se, repetindo: Deus sabe o que faz, Deus sabe o que faz...
No meio da madrugada os mendigos voltaram e ao perceberem que o estranho homem estava dormindo, foram ver o que havia em sua sacola. O barulho o acordou e, por instinto, tentou reagir, mas eram três mendigos e estavam com pedaços de pau que usaram para bater no homem até deixá-lo desacordado. Ele sentiu uma grande dor nas costas e na cabeça por causa das pancadas. Tentou acordar, mas sentiu suas forças esvaírem.
Abriram a mochila e encontraram um livro em um idioma que desconheciam, uma pequena caneca de estanho e um crucifixo de madeira. Junto um manuscrito enrolado, também num outro idioma. Como não viram nada de valor, largaram tudo e se afastaram para evitar problemas, pois o homem poderia ter morrido.
Pela manhã ele foi encontrado já frio e sem vida. Um judeu que passava por ali viu o livro e o manuscrito e resolveu dar uma olhada. Ele leu o manuscrito escrito em aramaico:
“A todos os homens de boa vontade”:
O portador deste é meu filho que estou enviando à terra para uma nova missão. Por favor, cuidem bem dele, pois não quero que ele sofra como da última vez”. Assinado: Jeovah. Depois de ler guardou o manuscrito, pensando em aproveitá-lo em seu antiquário, assim como o livro, o crucifixo e a caneca de estanho. “Ganhei o dia hoje, pensou o comerciante”.
Horas depois um camburão recolheu o estranho homem como indigente, levando-o para o IML, onde analisariam a causa mortis e ficaria aguardando algum parente reclamar. Ninguém reclamou. Nenhum parente, nenhum amigo deu por falta dele. Depois de algum tempo, foi sepultado numa vala comum, com outros indigentes, que as dezenas são sepultados todos os dias.
O comerciante de antiguidades colocou as peças em exposição colocando um bom preço por elas, pois pareciam autênticas e em bom estado.




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