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segunda-feira, 15 de abril de 2013


'OS INTALIANOS"



É assim até em nossos dias que os caboclos chamam os italianos no interior paulista. As modas caipiras de antanho grafam exatamente assim: “Os intalianos”, fazendo referências a um povo trabalhador, valente e defensor de suas famílias e propriedades. As belas italianas, como também as não tão belas, não tinham colher de chá e iam para a roça trabalhar na enxada de sol a sol. Com roupas longas e chapéus tipo sombreiro, era difícil ver as faces coradas quase sempre cobertas de poeira. Relatam sociólogos e historiadores, que em São Paulo foram incontáveis as moças italianas que fugiram de casa com homens negros, que ao contrário dos italianos, não permitiam que as suas mulheres fossem enfrentar os cabos de enxada.  As más línguas dizem que o motivo principal foi outro, mas são apenas suposições, pois nunca perguntaram para aquelas moças os motivos pelos quais fugiram de casa. Eu mesmo conheci uma senhora italiana casada com um senhor negro, que moravam na fazenda de um tio. De fato, dona Gisella nunca ia à roça e dedicava-se a cuidar da horta, das galinhas e da casa. 
Os italianos que por essas plagas chegaram, eram principalmente do sul da península, região mais atrasada do que o norte. Em geral eram analfabetos e conservavam as tradições, como privilegiar sempre os filhos, que tinham mais liberdade e eram herdeiros dos bens paternos. As mulheres eram proibidas de cortar os cabelos, se pintarem ou usarem qualquer adereço que ressaltassem a feminilidade. Por lá contava-se a história de uma moça, cujo pai era um fazendeiro abastado, que se casou com um dos filhos de um italiano na região noroeste de São Paulo. Até o casamento foi tudo bem. Depois a história foi outra. A moça foi criada longe do fogão, com boas roupas, cabelos curtos, sombras nos olhos e tudo o que tinham direito as garotas da cidade, mesmo morando na fazenda. No primeiro dia após o casamento, acabou a festa e a dondoca tornou-se uma autêntica doméstica, proibida de sair de casa, de cortar ou arrumar os cabelos, tirar sobrancelhas e outras vaidades femininas. Como era uma moça de personalidade forte, não quis se submeter ao marido de forma incondicional. Resultado: entraram em cena os personagens do Nelson Rodrigues e a violência patriarcal.   Levou tempo para que a moça conseguisse avisar a sua família sobre a situação em que passou a viver depois do casamento.
O pai da senhora Bellantonio, homem austero e conservador, cioso dos seus poderes que a tradição lhe legou, não aceitou que um carcamano qualquer espancasse sua filha, criada com todo o conforto e mesuras. Diante das notícias que chegaram não teve dúvidas. Chamou alguns empregados, passou a mão numa velha winchester e, de caminhão para trazer a mudança, foi buscar a filha. O moço quando viu o sogro na porta de sua casa com todo o aparato, amarelou. Jurou por São Genaro que nunca batera na esposa, prometendo que a partir desse dia iria tratá-la como uma rainha.  Não contente com as promessas do genro, o velho mandou chamar o sogro da filha e com a winchester segurando o queixo do italiano assegurou-se de que as juras seriam cumpridas.
Semanalmente a jovem senhora passou a receber visitas do pai, da mãe, das irmãs, irmãos e tios, que obtinham informações sobre como ela estava sendo tratada. O “intaliano” deu-se por vencido e deixou as coisas tomarem seu curso. Nunca mais maltratou a esposa e aos poucos se tornou um marido mais liberal. 

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