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quarta-feira, 21 de julho de 2010

SAULO DE TARSO: O MAIOR DO BRASIL

Ele nasceu em Minas Gerais, de família grande e musical. Quase todos tocavam algum instrumento. Avós, tias, tios e ele não poderia fugir à regra. Aos nove anos já tocava cavaquinho e depois, para abraçar o violão, foi só uma questão de tempo. Mas Minas, apesar das montanhas, da couve refogada, do tutu e do torresminho, não dava mais. “Minas já não há”, disse num poema o poeta de Itabira. E por isso, a família Azevedo, de mala e cuia, não viu outra saída e, como bons mineiros, não perderam o trem. Malas de couro forradas, a mãe até a porta, os amigos até a estação e assim a família foi deixando um rastro de saudade, de lembranças, histórias e canções.
Com apenas quatro anos, ele caminhou com as suas próprias pernas pela estrada poeirenta até chegar à estação de trem. A mãe contava, de cinco em cinco minutos, se todos os cinco filhos estavam lá. E foi uma viagem longa, a maior que eles já tinham feito na vida. São Paulo era um mundo novo, cheio de esperanças e oportunidades. Mas o medo provocava um vazio na barriga. Será que vai dar certo? “Deus sabe o que faz e vamos colocar nas mãos dele o nosso destino”, pensava o seu João.
A família chegou e logo se acomodou na Vila Paula, em São Caetano, mas algum tempo depois conseguiu uma casinha própria em Santo André. Os meninos foram crescendo, virando gente grande. Saulo precisou trabalhar cedo para ajudar a família, mas não via futuro nisso. Começou num armazém de secos e molhados, mas não pensava em passar a vida numa fábrica até se aposentar como a maioria dos garotos do bairro. Queria ganhar o mundo, subir nos palcos e empolgar as platéias. Sua voz era forte, bonita e afinada. Suas raízes bem brasileiras se misturaram com as músicas que encantavam os jovens do seu tempo. Elvis Presley, Paul Anka, Sedaka e depois os Beatles, já faziam a cabeça da garotada. Mesmo assim, ele não se acanhava em cantar músicas sertanejas. Estavam na sua raiz, no seu mais profundo eu. Ouvia muito Tonico e Tinoco, Luizinho e Limeira, Carreira e Carreirinho entre outros.
A turminha foi se formando. Sinésio, um paulista de Descalvado, branquelo e falante começou a freqüentar a casa dos Azevedo. Era um sujeito bem despachado. Entrava sem cerimônia na cozinha, abria as panelas e degustava os quitutes da dona Quilda. Nas redondezas conheceu também o Edélcio, nascido em Santo André, mas o pai, o seu Delcy, não escondia o seu sotaque interiorano de Ibiúna. Apareceu por lá também o Luiz Carlos, de Barra Bonita, que logo recebeu a alcunha de Erasmo pelo tamanho e semelhança com o ídolo da Jovem Guarda. Oscar, filho de um boêmio paulistano, também entrou na roda com um jeito especial de tocar violão e também uma bela voz. Enfim, era um tempo de desafios, mudanças culturais e de comportamento. Geraldo Poeta, Zhorba, Jânio e outros tantos, foram se juntando à turma. O Geraldo era o único que era engajado politicamente. Uma esquerda brava, como diz o Saulo. O grupo se envolveu com teatro, festivais e a boemia. A vida era dura para a maioria deles. Muitos batiam cartão nas fábricas e escritórios, mas depois do expediente a turma ia para os bares ou para a casa de alguém para curtir um som, compor, cantar e declamar poesia.
Todos sonhavam com a possibilidade de mostrar o seu trabalho em festivais, na televisão e no rádio. Mas a vida era difícil, dura demais. “Quem não tem de ir pro céu, é à-toa olhar pra cima”, dizia o seu velho, seu João Mendes Azevedo, com a sua sabedoria mineira. Mas o Saulo continuava vivendo as suas paixões: música, futebol e pescaria. Ele fazia as suas escolhas e seus critérios dependiam da ocasião, da oportunidade. “A vida vale pelo prazer que ela pode proporcionar”, assim que ele ainda pensa.
Com os irmãos, Bacana e Batista e seu primo Daniel, montou o Quartetão, que ganhou até um contrato com a TV Paulista, depois Rede Globo. O grupo chegou a participar da gravação de uma faixa do disco Tropicália do Gilberto Gil e Caetano Velloso, seu grande orgulho. Mas muitas vezes o futebolzinho na vila era mais importante do que ir tocar na televisão. O grupo foi relaxando e ele acabou optando por cantar nas boates da cidade. Não gostava de ficar preso a compromissos. Preferia viver solto como passarinho. E foi assim que perdeu boas oportunidades no meio artístico. Sempre foi movido pelas paixões e nem sempre elas estavam no lado prático da vida.
Compôs belas canções com seus parceiros de longas jornadas, como "Maysa" com o Sinésio, uma homenagem à cantora logo após o seu trágico falecimento, mas nunca correu desesperado atrás do sucesso. Sucesso para ele era cantar com os amigos. Podia ser um rock, uma moda de viola ou Bossa Nova. Tudo valia a pena, pois sua alma nunca foi pequena.
Ontem ele estava no palco do bar Saramandaia, onde durante muitos anos mostrou sua arte. Os amigos organizaram uma homenagem para aquele que aqueceu corações com sua voz e belas canções durante anos a fio. Nem sempre o dinheiro era suficiente para as despesas, mas cantar foi o seu jeito de sobreviver, de ganhar a vida. O prazer de ser amado pelos amigos e admiradores para ele sempre foi o suficiente. Ele guarda alguma semelhança com o grande Garrincha. Não pelo vício que dizimou com o jogador, pois nunca bebeu; mas pela inocência, pela simplicidade e, principalmente, pela falta de uma visão pragmática da vida. Para ele basta um violão, uma bola, uma vara de pescar e a companhia da esposa, dos filhos e dos amigos.
O público que ele sempre quis estava diante dele. Não era um público comum. Era um público especialíssimo. Eram seus velhos amigos e companheiros de longas jornadas e amantes da música e da poesia. Eram também os filhos e netos dos seus companheiros que ouviam os pais comentarem sobre o maior cantor do Brasil. Estavam lá também a Silvia, companheira de grande valor, os filhos e netos.
Foram muitas canções, algumas interpretadas juntamente com seus antigos parceiros que se esforçaram para fazer bonito diante do grande interprete. As lembranças de acontecimentos pitorescos da sua vida, do seu jeito peculiar de ser, mostravam a outra faceta do artista. Um artista que não precisou da mídia para ser amado e admirado. Um humilde operário da canção que foi capaz de resgatar a solidariedade de todos num momento difícil de sua vida. Ontem ele estava lá, sentindo-se tão importante como se recebesse um Oscar pela sua carreira e com certeza ele não trocaria esta simples homenagem dos seus amigos por outra cheia de pompas na grande mídia.
Ele se lembrou de Minas, de suas raízes. Minas continua nele, desafiando o tempo, mesmo tendo sido adotado por São Paulo. As canções mineiras não acabam nunca neste velho bardo. As montanhas de Minas ainda fazem com que ele sonhe com as suas velhas cantigas de ninar. As montanhas mineiras podem até não existir mais, mas estarão presentes para sempre em suas canções.
Mas a festa não foi apenas do Saulo, como queriam os idealizadores. Foi uma festa de todos, pois velhos amigos se reencontraram. Não estavam mais solteiros nas mesas dos bares ouvindo o Saulo cantar. Desta vez trouxeram filhos e netos para a grande festa. A festa acabou, mas todos foram para casa leves e felizes como crianças, respirando poesia, amizade e solidariedade. As canções e a poesia da festa inundaram suas vidas inteiras.

Renato Ladeia

8 comentários:

  1. Nesta crônica que realça a biografia do amigo Saulo, a riqueza dos detalhes registrou a trajetória simples do cantor poeta que o mundo artístico oficial não destacou deixando prá nosso bem o destaque. O Renato, outro artista anônimo,sabe que a vida é feita desses momentos inesquecíveis, simples, onde o som e a palavra se confundem e em forma de canções os tornam eternos. De eternidade, o que se tem de prova é que o som propagado se une e em uníssono jamais perece. Parabéns!

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  2. Amigo poeta e cronista Renato. Fantástica a sua crônica. Um retrato escrito do que foi, é e será o Saulo. Eu como grande amigo do Saulo de Tarso, seu parceiro e conhecedor das profundezas da sua alma, afirmo que aprendi a conhece-lo muito mais, após a leitura das suas palavras homenageando o homenageado, merecidamente, Saulo de Tarso Azevedo, o maior do Brasil



    Sinesio

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  3. " Olha que isso aqui tá muito bom
    Isso aqui tá bom demais
    Olha quem tá fora quer entrar
    Mas quem tá dentro não sai ... " ( Dominguinhos e Nando Cordel )

    Caramba... Isso aqui tá bom demais.
    Não para mais. É um mar de fotos, crônicas, poesias, e-mails, textos
    permeados de emoção ...
    Ficou todo mundo maluco. Maluco Beleza.
    Como escreveu mestre Dédo numa canção feita há muitos anos para o
    Carlinhos quando ele foi morar no Rio : " A amizade é um pouquinho
    mais bela do que o próprio amor ".
    Beijo pra todos.
    Zéca da Silva

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  4. Grande, Renato. Parabéns e obrigado pelas fotos. Eu não estava lá, mas através deste espetáculo "litero-visual" me emociono que se estivesse.
    Obrigado
    beijos a todos

    Enzo Ballarini (Magoo)

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  5. Grande, Renato. Parabéns e obrigado pelas fotos. Eu não estava lá, mas através deste espetáculo "litero-visual" me emociono que se estivesse.
    Obrigado
    beijos a todos

    Enzo Maggo Ballarini

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  6. Prá você ver a odisséia que foi necessária para reunir esse povo... teve de vir gente de todos os cantos do país? Tá certo isso?? Quiçá tenha servido prá por mais lenha no fogão no sentido de nos reunirmos mais amiúde... PELA REATIVAÇÃO DAS FESTA JUNINA JÁ!
    :)
    Parabéns pela crônica, Renato
    Elcio

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  7. Temos aqui uma graciosa sinopse da vida de Saulo de Tarso Azevedo - O Melhor do Brasil. Nasceu para cantar e compor. Renato Ladeia mais uma vez soube eternizar um momento. Desta vez escrevendo. E quem quiser conhecer o mestre homenageado, basta ler este poema. Encantador. Dédo.

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  8. Puxa que legal gente! Foi muito bom ter lido esta crônica, que prova que todos estão vivos. Só eu que sai de cena, mas um dia a gente se encontra. Se Deus quiser.

    Delegado Padilha

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