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sábado, 26 de junho de 2010

MEU PRIMO JOÃO

Na minha infância o primo João era um herói. Um herói de verdade, de carne e osso, com as suas qualidades, defeitos e contradições. Ele sempre esteve envolvido em aventuras e desventuras. Às vezes vivia nas nuvens, outras na vida real. Lembro-me de que um dia apareceu em nossa casa sobre uma Harley Davidson, a lendária motocicleta norte-americana, hoje ainda desejo de consumo de muita gente. Havia chegado de Araçatuba, interior de São Paulo, percorrendo mais de 600 km. Contava que havia sido uma viagem cheia de imprevistos, perseguições, acidentes e muitos perigos pelo caminho. As histórias que lembram o filme americano Rota 66. Tudo acontecia com ele. Amores impossíveis, episódios de valentia e as fugas espetaculares, como a de uma festa em que todos os rapazes da cidade, enciumados, cercaram a casa para pegá-lo. Ele, com a ajuda de algumas garotas, saiu pelo telhado e saltou sobre sua moto e disparou por um cafezal. A moto, já bem velha, quebrou várias vezes pelo caminho e ele com suas aptidões de mecânico, herdadas do pai, conseguia fazer os reparos, sempre de forma genial e improvisada.
Minha mãe pegou uma carona na garupa do sobrinho para ir ao trabalho. Esse dia foi inesquecível para ela que diariamente pegava um ônibus velho e barulhento para ir de São Caetano até a Mooca onde trabalhava nos anos cinqüenta. Durante meses e anos ela contava a eletrizante aventura de rodar a cem por hora nas avenidas pelas avenidas paulistas na garupa de uma motocicleta. Soube depois que na volta, trocou a moto por um caminhão e aproveitou a viagem para fazer um carreto. Desde muito jovem já tinha faro para os negócios.
O João serviu a aeronáutica no Rio de Janeiro, onde moravam seus avós maternos e de lá mandou uma foto com roupa de soldado que para nós era de capitão. E ele não deixava por menos e contava que pilotava aviões escondido do comandante. Numa dessas vezes teria sobrevoado o Rio de Janeiro, o que lhe valeu alguns dias no xadrez do quartel. Verdade ou invencionice? Nunca fiquei sabendo, pois nunca tive coragem de lhe perguntar. Papai não acreditava muito nessas histórias do João e sempre dizia: “É um bom contador de histórias, mas não sei se é tudo verdade” ou como dizem os italianos: “non sei se vero, ma beni trovato”. Mas ele adorava o João e se divertia muito com as suas histórias.
A vida aventureira parece ser uma saga da família Ladeia, que chegou ao Brasil no século XVIII e se espalhou de norte a sul. Meu tio Elisiário, irmão do pai do João, era também um típico aventureiro. Nos anos trinta, largou um bom emprego de guarda-livros no Rio de Janeiro para se engajar na revolução de 1932. Depois disso, nunca mais parou em lugar algum. Morou em vários estados do Brasil e países da América do Sul, de onde mandava cartas e fotografias, com dedicatórias aos pais e irmãos, algumas delas ainda conservadas em um velho álbum de retratos da família. Numa dessas viagens, foi preso em Buenos Aires sem documentos. Sua libertação somente foi possível graças às intervenções de parentes influentes de minha avó. Outro tio, José, resolveu ganhar a vida como boiadeiro ou tocador de boiadas. Transportava bois entre Goiás, Mato Grosso e São Paulo, mas morreu moço, com menos de 30 anos, ao cair de um burro bravo, e suas muitas histórias ficaram na memória dos irmãos e sobrinhos. Elas eram contadas por minha mãe nos serões que ela fazia nas longas noites de verão.
João ficou órfão de pai muito cedo. Sua mãe se casou novamente com um também viúvo, um italiano cheio de filhos. A vida para ele foi muito dura e ele teve várias profissões para sobreviver. Começou como sapateiro, depois mecânico, comerciante e finalmente fazendeiro e pecuarista. Estudar mesmo, só o primário. Ele foi um típico self made man, um homem que venceu na vida através de muito trabalho e também muita sagacidade. Casou-se com Rosa Barranco de uma família de espanhóis de nossa cidade com quem teve três filhos: Jorge, Sonia e João. Mudou-se depois com a família da esposa para o Paraná onde, tempos depois, conseguiu comprar suas próprias terras e cultivar café. Posteriormente se estabeleceu em Mato Grosso, na cidade de Cáceres, no extremo oeste do estado, como um típico pioneiro do velho oeste americano.
Era um sujeito realmente carismático, dotado de grande simpatia e boa conversa; conseguia se entronizar com facilidade em qualquer ambiente. Com muita lábia, sempre teve trânsito fácil entre autoridades e políticos. Dono de uma inteligência aguçada era capaz de se embrenhar em qualquer assunto, apesar da pouca instrução. Tinha uma memória surpreendente sendo capaz de recitar longos textos de filosofia ou de poesia.
Em 1983 fui visitá-lo em Cáceres, Mato Grosso, onde o encontrei bem estabelecido, com uma boa fazenda, gado e avião. Percorremos de carro suas terras no sem fim no cerrado mato-grossense, onde onças ainda vigiavam a floresta. Na sala da sede da fazenda expunha orgulhoso uma enorme pele de onça, fruto de uma caçada que durou alguns dias, pois a fera estava devorando o gado na invernada. Ao ouvir seu relato sobre a caçada da pintada, revivi os tempos de criança em que ouvia atento as histórias do primo. Apesar da caçada da onça, o João mostrou-se um fazendeiro preservacionista que não permitia caça ou corte de árvores em sua propriedade.
Mas nem tudo foi alegria na vida do velho João. Há alguns anos perdeu seu primogênito, Jorge, seu braço direito, juntamente com o neto em um acidente rodoviário. João não mudou seu modo de agir, mas tornou-se menos apegado às coisas, conforme uma recente conversa que tivemos por telefone. No ano passado passou por uma grave cirurgia, que lhe removeu a maior parte do estômago. Pouco tempo depois, ainda fazendo quimioterapia, resolveu pilotar o seu monomotor, acompanhado de um dos seus netos, João Vitor. O avião caiu ao aterrissar no aeroporto de Cáceres. O seu neto escapou ileso, mas o João ficou gravemente ferido e veio a falecer na última sexta-feira, após alguns dias internado.
Ai está um pouco da história do meu primo, João da Silva Ladeia, um herói anônimo, desses muitos que campeiam pelo Brasil e constroem o país, desbravando sertões e fazendo história e histórias.

Renato Ladeia

2 comentários:

  1. Esse é um homem que sempre admirei... Meu padrinho Joao Ladeia. Uma familia maravilhosa que amo tanto.
    Igual seu Joao Ladeia nunca mais teremos, pois ele foi um grande homem.
    Que Deus o tenha...

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  2. Ouvi muito acerca das proezas deste Senhor João.
    Meus pais foram amigo dele na juventude, em Lavínia no interior Paulista, e, hoje, prosando com meu pai sobre seus "gold times' ele mencionou esse fatídico ocorrido com o 'João da Rosinha', forma como eles o identificavam.
    Reportando às suas façanhas, poderia a dupla Leandro e Leonardo ter se inspirado no Saudoso João ao compor a música baile na roça.
    Parabéns Renato

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