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sábado, 27 de fevereiro de 2010

O CÃO E O OUTRO


Para Caterina Koltai

Os cães bem nascidos, com roupas de lã e com guias passeavam com seus donos pela praça sob um frágil sol de outono. Uma senhora obesa e arrogante levava o seu luluzinho, cuidadosamente penteado, ao colo, para evitar que se contaminasse com outros cães ou a sujeira do piso. Naquele espaço público, as classes sociais se diferenciavam pelas raças dos cães, cujos preços de mercado variavam de acordo com a raridade. Um Poodle Toy, por exemplo, pode custar até três mil reais, dependendo do pedigree. As coleiras, as roupas dos cães e demais adereços, também contribuíam para fazer a diferença. Para os cães, pelo menos é o que dizem os cinólogos, tudo se resume ao odor das roupas, das pessoas e das coisas. Eles não empinam o nariz como fazem nos desenhos animados, os cães das madames. Estão presos (pelas coleiras) às classes dos seus donos, mas não sugere que tenham noção de suas classes sociais, muito menos consciência de classe.
Um mendigo, também alheio às questões de classe, contemplava o movimento como se não tivesse nada, absolutamente nada a ver com aquelas pessoas que transitavam pela praça – e não tinha mesmo. Os mendigos, como diz uma amiga: “É a negação de tudo, da sociedade de consumo, das classes sociais, enfim, do sistema capitalista”. E ali estava ele, negando tudo com as suas roupas que poderiam até sugerir que estivesse imitando o Carlitos de Chaplin ou o Cantinflas (que também era uma imitação latino-americana do Chaplin). Vestia um velho e surrado paletó preto tipo jaquetão com um botão dourado remanescente. Por baixo do paletó vestia uma camiseta azul também bastante encardida. Usava uma calça jeans bastante desgastada e suja. Seus sapatos eram velhos e era pelo menos dois números menores do que o pé do seu dono. Digo isso porque estavam cortados nos bicos para acomodar o pé sujo e inchado do nosso enigmático personagem.
As pessoas passavam ao largo pela sinistra figura que fumava continuamente usando uma piteira, o que lhe dava uma certa distinção. Ele era o Outro. Era o Outro como um indivíduo não preso a uma classe; era o Outro por ser também negro e miserável. Às vezes, olhava para os passantes e cumprimentava efusivamente: “Bom dia cavalheiro!”; “Bom dia madame!”. Ninguém respondia e tampouco olhava para o nosso Carlitos tropical. Era um estranho, sem voz, sem cor, sem nome. Um estranho estrangeiro como muitos que vagueiam pelas ruas de São Paulo.
De repente, o cão lulu, escapou dos grilhões (perdão pelo exagero) da classe social de sua dona e foi ter com o mendigo que o abraçou efusivamente ante os olhares atônitos das pessoas que por ali passavam. O feliz encontro teve direito a lambidas no rosto e acalorados abraços. Do outro lado da praça, como que por encanto, um vira-lata ou um cão sem origem ou raça definida, um estrangeiro e além de tudo, desvinculado de qualquer classe social, se juntou ao lulu para fazer festa para o nosso personagem. Ele sem fazer qualquer distinção, aceita os carinhos e a alegria do cão; olha para a platéia e exclama orgulhoso: “Só mesmo os cães para reconhecer que eu também sou um ser humano, mesmo sendo um vira-lata”.
Perto dali, apenas uma senhora, que parecia ser uma estrangeira, de fora, observava com interesse a cena. Ela sorriu para o mendigo fazendo menção de que aprovava na íntegra a sua observação. Imaginei que ela estaria pensando com seus botões: “Somos realmente seres estranhos na terra. Tão estranhos que é preciso um animalzinho irracional para reconhecer-nos como pertencentes a uma mesma espécie”.

Renato Ladeia

Um comentário:

  1. O homem é um bicho espisito.
    Nada como um animal, nosso espelho, para lembrar-nos nossa estranheza.
    Um grande abraço, Renato.

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