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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

CAUÊ E O VELHO HOMEM DAS NUVENS

Cauê era um indiozinho tupi que vivia numa reserva indígena no interior do Brasil. A reserva era muito grande, mas existia um grande abismo que a separava da terra dos homens brancos. Os mais velhos sempre contavam histórias sinistras sobre o outro lado, o lado proibido. Sempre ouvira falar que os seres brancos eram violentos e pouco amistosos. Além disso, espalhavam doenças terríveis para os índios que morriam logo depois do contato com eles.
Cauê sonhava poder algum dia atravessar o abismo e encontrar-se com as pessoas do outro lado, mesmo correndo todo o tipo de risco. Sentia-se cansado dos limites de sua reserva. Já conhecia tudo: os rios, lagoas, quase todas as árvores e animais. Alguns ele dava até nomes. As tarefas da aldeia destinada aos meninos o entediava, pois queria correr o mundo em busca de aventuras, conhecer outros povos, outros guerreiros. Um dia Cauê resolveu partir. Pegou seu arco e flechas, uma sacola feita de palha com alguns alimentos e partiu em direção ao outro lado. Fugiu durante a noite para que ninguém notasse. Na rede em que dormia, colocou um boneco coberto para que ninguém desconfiasse e viesse atrás dele. Caminhou durante quase toda à noite pela floresta e somente quando chegaram os primeiros raios de sol é que alcançou as margens do abismo. O abismo era íngreme, repleto de pedras escarpadas e Cauê não conseguiria descer. Como era muito esperto, lembrou-se de algumas palavras mágicas que o Pajé dizia escondido em sua taba. O Pajé tinha poderes mágicos, pois curava os doentes e conversava com os espíritos. Foi dizendo cada uma das palavras que lembrava e pensou firmemente em seu desejo de atravessar o enorme abismo. Quando ele disse: “Atauana, atau, adiupi uirá”, um raio de sol desceu à sua altura e ele o agarrou com firmeza. Colocou seu arco sobre o raio e deslizou durante muito tempo até chegar ao outro lado do abismo. A montanha, do outro lado, ficava sempre envolta em espessas nuvens. Quando Cauê foi chegando, não viu mais nada, pois as nuvens eram tão densas que seus olhos ficaram embaçados. Ele sentiu um frio na espinha, pois começara a cair sem parar, sempre segurando seu arco sobre o raio de sol. Finalmente, chegou em terra firme ou quase... Ainda parecia estar sobre as nuvens, só que agora conseguia enxergar toda a paisagem a sua volta. Viu à distância, o território de sua tribo e só aí percebeu a longa viagem que havia feito.
Não viu ninguém por ali e o frio era insuportável. Suas mãos começaram a congelar. Seu corpo todo tremia sem parar e não havia abrigo para se proteger. De repente ouviu uma voz de trovão, que fez tremer o chão, chamando-o pelo nome. Virou-se e viu um homem longo, magro e bem velho. Tinha as barbas e cabelos brancos e compridos como se fossem pedaços de nuvem. Seus olhos eram tristes e profundos, mas parecia ser uma pessoa bondosa e justa.

“O que faz aqui?” perguntou o velho a Cauê.

“Vim à procura do outro lado do mundo. Quero conhecer os homens brancos.”

“Fez muito mal, muito mal. E você veio pelo caminho errado, o caminho dos sonhos. Agora precisamos de um abrigo para você. Não pode ficar ao relento neste frio e logo ficará muito escuro” - disse o velho.

“Mas como fazer um abrigo meu senhor? Não há árvores nem pedras por aqui.”

“Mas há nuvens, muitas nuvens e com elas poderemos fazer um bom abrigo para você se proteger.”

Ele então ensinou ao menino índio a arte de tecer com fios de nuvem. Primeiramente, tirou do bolso uma roca de fiar e foi apanhando chumaços de nuvens e formando longos fios. Depois, com um tear que levava em outro bolso, teceu uma grande lona, fazendo com ela uma tenda. Construído o abrigo, teceu com nuvens de cores quentes, tapetes e uma rede para Cauê se deitar.
Ele dormiu profundamente e quando acordou, percebeu que sua casa de nuvens havia desaparecido com os primeiros raios de sol, estando ao relento novamente. Gritou pelo velho homem das nuvens e perguntou pelo abrigo.
“Ora menino”, respondeu o velho com sua voz de trovão: “Nuvens são nuvens. Com o vento e o calor elas desaparecem.”
“Como vou dormir esta noite?”
“Você construirá tudo de novo. É um bom exercício e quem sabe poderemos melhorar a sua tenda. E mãos à obra, porque o tempo está fechando e hoje vai esfriar mais cedo”.
E assim construíram um novo abrigo, mas desta vez com fios reforçados para suportar o mau tempo que estava por vir. E assim, todos os dias ele construía sua tenda de nuvens. Cauê começou a sentir-se cansado de repetir a mesma coisa todos os dias. Procurou o velho e perguntou:
“Não se faz nada aqui a não ser reconstruir cabanas para dormir?”
O velho muito calmo respondeu: a vida é sempre uma repetição. O sol não nasce no horizonte todos os dias e todos os dias ele não desaparece para dar lugar à noite? Pois a vida é isso, sempre se repetindo. Às vezes mudamos alguma coisa, experimentamos coisas novas, que no final das contas acabam se repetindo também. Nada é sempre novidade. É preciso descobrir a beleza, a importância naquilo que sempre se repete, procurando melhorar as coisas, inventando outras e só assim, conseguimos superar o tédio e sentir alegria de viver, mesmo com a repetição.
E assim, todos os dias ele construía sua tenda de nuvens. Depois de muitos dias, o velho tomou sua mão e levou-o para um caminho que ele desconhecia. Andaram por muito tempo até chegarem a um lugar onde as nuvens começavam a ficar mais rarefeitas. Então o velho parou e disse:

“Agora você pode ir. Este é o caminho das coisas reais. Talvez por aqui você consiga uma boa cabana para se abrigar.” Dizendo isso, o velho deu-lhe as costas e desapareceu por entre as nuvens.
O menino caminhou durante muito tempo e começou a sentir o mundo real. Animais ferozes, rios profundos, árvores enormes e morros escarpados, difíceis de escalar. Cauê começou a sentir fome e medo, mas não encontrou nada para caçar. Os pequenos bichos haviam sido mortos por homens brancos ou animais maiores. Pássaros enormes comiam todas as frutas das árvores. Os peixes dos rios e lagos eram ferozes e raramente subiam à superfície.

Cauê com muito sacrifício conseguia sobreviver, dormindo nas árvores mais altas para se proteger dos animais ferozes. Pela manhã descia das árvores com o arco e flecha em punho e saia para caçar alguma coisa para comer. Muitas vezes passava o dia todo sem conseguir nada, indo dormir com fome. Ele começou a perceber que sua vida estava muito difícil e nada mudava, além das dificuldades para comer e sobreviver. Numa manhã decidiu voltar para a sua aldeia. Guiando-se pelo sol, começou a caminhar. Mas por mais que caminhasse não conseguia chegar a lugar algum. Foi então que se lembrou das palavras mágicas que disse ao atravessar o abismo em volta da reserva. De repente apareceram enormes nuvens que o envolveram e o levaram para longe. Sentiu-se voando como num sonho. Depois de algum tempo estava de volta ao território do Velho das Nuvens que o recebeu com bastante alegria.

“E então meu menino, conheceu o outro lado do mundo?”

Cauê contou-lhe todas as aventuras pelas quais havia passado e também seu desejo de retornar à sua aldeia, pois estava convencido de que era muito feliz junto aos seus pais e amigos.

O Velho homem das nuvens sorriu e disse: “Você veio pelo caminho dos sonhos e é por ele que você vai retornar”. Dizendo isso, ele pegou uma enorme corda tecida com fios de nuvens e a lançou ao longe. “Pronto”, disse o velho. “Agora você pode colocar seu arco sobre a corda e deslizar até sua aldeia”.

O menino assim fez e viajou feliz de volta à sua casa. Lá chegando foi ao encontro dos seus pais, irmãos e amigos e contou-lhes as novidades. Entretanto, ninguém acreditou muito no que ele disse e sempre riam todas as vezes que tocava no assunto. Mas Cauê estava feliz por ter retornado e passou a fazer com alegria e interesse todas as tarefas da aldeia destinadas aos meninos. Redescobriu o prazer em caçar e colher frutos e raízes na floresta, procurando inventar novas armadilhas para surpreender os animais e peixes. Passou a participar com prazer das cerimônias religiosas e festas de sua tribo e voltou a ser uma criança feliz e comum como as outras que moravam na aldeia.

Renato Ladeia

4 comentários:

  1. Renato,querido amigo...há algo diferente em tuas palavras...acho que a chegada do Tom te iluminou de vêz.
    Abraço,Kalunga.

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  2. Mestre, mestre! Tenho também um Cauê. Mas ele ainda está na terra dos homens brancos.
    Grande abraço.
    Dédo

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