www.celiamattoso.blogspot.com

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

UM HOMEM IMORTAL


Estava caminhando em um parque quando resolvi fazer uma pausa para descanso e logo em seguida um homem de uns quarenta e poucos anos, pele muito branca e pálida sentou-se ao meu lado. Pareceu-me que queria falar alguma coisa, mas mostrou-se pouco a vontade. Depois de alguns minutos criou coragem e perguntou se eu tinha cigarros. “Não fumo”, respondi prontamente e logo emendei “Não faz bem para a saúde”. Ele sorriu e disse: “Para as pessoas que tem uma vida normal, que nascem e morrem, realmente é preciso cuidar da vida, mas para mim isso não faz muito sentido”.
- Como assim? Perguntei curioso com o que o homem dizia.
- Eu não sou uma pessoa normal, respondeu.
- Como assim? Indaguei surpreso com a resposta.
- Pois é, sou um homem imortal, não vou morrer nunca. Tenho mais de duzentos anos nas costas e não sei quantos séculos ainda vou viver.
- Mas isso deve ser muito bom, disse fingindo que estava acreditando na história.
- Não é nada bom moço. Viver eternamente é um fastio. Não agüento mais esta vidinha. As mulheres que amei morreram e também morreram filhos, netos e bisnetos. Também venho há tempos enterrando amigos queridos e inimigos. A vida acaba ficando rotineira, sem graça e não acaba nunca. Não tenho perspectivas, positivas ou negativas e tudo vai se repetindo de forma monótona.
- Mas você pelo menos deve ser um sábio com tanta experiência de vida, com tantos conhecimentos da história? Perguntei, já começando a me interessar pela conversa do estranho.
- Isso é até interessante, mas tenho poucas pessoas com quem falar sobre isso. Alguns me perguntam se sou professor de história, mas nunca cursei nenhuma faculdade, pois meus documentos vão caducando de tempos em tempos. Atualmente estou sem nenhum, pois está ficando difícil conseguir um registro de nascimento sem autorização do juiz. Imagine um sujeito de quarenta e cinco anos tentando se registrar num cartório? É preciso ter testemunhas, certidão de batismo, certificado de reservista etc.
Ele era um homem comum, com jeito de gente normal. Explicou-me que havia conquistado a imortalidade quando estava com 45 anos e daí em diante, nunca mais envelheceu, ficou doente ou sentiu qualquer dessas coisas que acometem um ser mortal. Pelos seus cálculos já estava com duzentos e tantos anos. Já havia vivido em vários países e cidades do mundo, pois nunca conseguiu ficar num mesmo lugar por muito tempo, pois as pessoas começam a desconfiar de sua jovialidade após algumas décadas de convívio. Uma das coisas que o desagradavam era saber que não morreria nunca, estando, portanto, condenado a viver para todo o sempre. Seus filhos, netos e bisnetos já haviam morrido. Fazendo as contas, os seus trinetos já seriam mais velhos do que ele.
- E o que o senhor faz no Brasil?
- Estou por aqui há bem uns cento e dez anos. Entrei no Brasil por Manaus e lá permaneci por uns 30 anos. Depois fui para Belém, onde fiquei por uns 25 anos. Em seguida fui percorrendo as capitais do Nordeste permanecendo de dez a vinte anos em cada cidade. Depois vim para o sul e atualmente estou em São Paulo, onde permaneço uns dez anos em cada cidade.
Parecia uma conversa de dementes, mas comecei a me interessar pelo inusitado do tema, não tanto por acreditar na história do Juan Bernardo de Alcácer y Gonzales, mas porque ele era bem articulado e argumentava com certa lógica com seu sotaque espanholado. Digo certa lógica porque não parece muito lógico alguém se considerar imortal, mas mesmo admitindo que fosse uma ficção, tinha lá a sua coerência. A sua história pareceu-me muito, muito triste e se não fosse pelo fato de que não havia pedido absolutamente nada e só fazia se lamentar da sua condição; poderia ignorá-lo e imaginar que fosse um louco varrido, mas acabei ficando envolvido pela conversa. Cheguei a matutar que tivesse tentando me aplicar um golpe qualquer, como um empréstimo, mas ele só queria mesmo conversar e contar as suas mágoas por ter uma vida sem fim. Perguntei, um tanto relutante, se ele já não havia tentado o suicídio para dar cabo de sua vida, já que a vida eterna não lhe trazia felicidade. Respondeu que já havia tentado dezenas de vezes. Em algumas ocasiões havia colocado a vida em risco, participando de guerras e revoluções, mas sempre se saia bem, ileso. As balas, as explosões, incêndios, nada o atingia. Muitas vezes acabava sendo considerado um herói por salvar companheiros em perigo. Em outras era preso como inimigo, mas esses acabavam libertando-o sem molestá-lo.
- Mas não tem medo de morrer? Perguntei curioso por saber a sua opinião sobre a morte.
- É impossível temer a morte, pois sei que ela não me atinge. Para mim a morte é um problema dos outros, seu e destas pessoas que estão aqui no parque. Fico insensível diante dela. Não me preocupa.
- E as mulheres? Você deve ter amado muitas mulheres e vai trocando de tempos em tempos quando vão envelhecendo, não é? Perguntei com certa ironia.
- Qual o que, moço! Sempre me casei com viúvas ou mulheres abandonadas pelos maridos. Mas elas duram pouco e logo em seguida vou procurar outras mais jovens. Com a minha idade e quase sempre com poucos recursos, não tenho lá grandes opções. Em geral tenho vivido do meu trabalho, fazendo um bico aqui, outro ali. Em todas as vezes que tive propriedade, acabei deixando para os meus filhos e netos, pois precisei partir para não criar problemas.
Como já estava ficando tarde e tinha compromissos, despedi-me do homem imortal e confesso que foi com certa tristeza. Ainda olhei de longe para aquela figura desconsolada sentada no banco do jardim e fiquei imaginando se fosse realmente real uma pessoa viver eternamente. Seria, como ele disse, um tédio. Fui refletindo pelo caminho sobre a imortalidade e conclui que realmente não valeria a pena viver mais do que uma geração. A imortalidade da alma apregoada pela maioria das religiões também colocaria o mesmo problema. Viver eternamente sem corpo, sem sensações, não sentir o aroma das madrugadas, não ver o por do sol, sem receber ou dar carinho físico para as pessoas que amamos, sem tomar um café quentinho nas manhãs frias de inverno? Penso mesmo que fomos feitos para sermos mortais, de corpo e alma. O problema é que o ego humano é muito grande para admitir um final. Temos complexo de deuses e perseguimos a imortalidade do corpo e do espírito.
No dia seguinte voltei ao mesmo lugar para dar uma nova caminhada e, quem sabe, encontrar o homem imortal. Qual o que! Nem sinal do tal Juan Bernardo. Depois de algumas voltas sentei no mesmo banco e logo fui procurado por um senhor que me perguntou: “Aquele rapaz que estava conversando com o senhor é seu amigo, parente? “Não, fiquei conhecendo ontem”, respondi um pouco surpreso com a pergunta. “Pois é, ele foi atacado por um bandido na saída do parque. Foi levado para o pronto socorro. Parece que não escapa desta, pobre homem.
A notícia foi surpreendente, pois afinal o meu conhecido “imortal”parece ter encontrado a sua hora e a sua vez e lamentavelmente como vítima de uma cidade injusta e violenta. Pensei em ir até o pronto socorro para confirmar se realmente havia morrido e encerrado o seu sofrimento, mas desisti. Concluí que algumas histórias devem terminar com algum ponto de interrogação, sem soluções possíveis. Tudo isso me fez lembrar o seriado Além da Imaginação, que foi exibido na televisão há muitos anos. Houve um episódio em que um sujeito imortal, tal qual como o Juan Bernardo, teria vivido mais de dois mil anos. Conhecera os grandes filósofos gregos, passara pela Palestina e assistira, ao vivo, a Paixão de Cristo. Mas tal qual o nosso Juan, já estava cansado de viver. No final do episódio, ele é assassinado por uma das suas ex-mulheres abandonada por ele. Enciumada, ela o perseguiu até encontrá-lo na saída da casa de uma nova namorada. Envelhecida ela viu aquele homem jovem que parecia ser seu filho, feliz por estar novamente apaixonado. Não teve dúvidas, disparou alguns tiros e viu o seu amado transformar-se em pó e ser levado pelo vento.
Quem sabe o Juan também tenha evaporado durante a viagem de ambulância até o hospital diante do olhar incrédulo do enfermeiro que o acompanhava? E eu cá com meus botões fiquei pensando por que não perguntei como ele teria conseguido a tal imortalidade.

Um comentário:

  1. A mim parece que vc já encontrou a imortalidade no Antonio. Parabéns! ìm lindo bb. Abrs. Geanete

    ResponderExcluir