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sábado, 10 de janeiro de 2009

BARRA DO UNA


Não nasci em Barra do Una, sobretudo não morei em Barra do Uma. Ela é apenas um retrato na parede, mas como dói. Os versos do velho Drummond são como uma famosa esponja de aço, pois nos socorrem em todos os momentos, sejam felizes ou não. Já vai bem longe o tempo dos acampamentos nas deliciosas praias na foz do Rio Una, litoral norte de São Paulo. Era para lá que a nossa velha turma dos tempos de estudante ia passar os feriados prolongados. A viagem era programada com antecedência de pelo menos uns quinze dias e saiamos direto da escola em direção à praia. Eram noites intermináveis, pois chegávamos ao Guarujá por volta de 1h da madrugada e ficávamos esperando a balsa até o dia raiar. Depois pegávamos um caminho pelas praias de São Lourenço, estradinhas de terra com pinguelas sobre os rios. Hoje, com certeza, não teríamos coragem de atravessar de tão toscas e inseguras que eram. Mas tudo valia a pena naquela época e como as almas não eram pequenas, ninguém reclamava de nada e só de pensar nos mergulhos nas águas cristalinas e a roda de MPB quando começava a escurecer, dava um ânimo danado na gente.
Barra do Uma, ainda no início dos anos 70, era apenas uma pequena vila de pescadores que foi aos poucos sendo apropriada pelos especuladores imobiliários que foram expulsando os caiçaras, comprando seus terrenos a preço de “banana”. Naquela época, apesar dos casarões escondidos atrás das humildes residências dos nativos, ainda dava a impressão de casas entre bananeiras, pomar, amor e cantar. Era tudo devagar e devagar também as janelas olhavam.
Ao chegar armávamos nossas barracas na praia ou no quintal de um caiçara que trocava a hospitalidade por farinha e açúcar, coisas essenciais para eles. Depois era só alegria e muita música até o último dia de feriado, quando a tristeza baixava só de pensar em retornar para a neurose da cidade grande e pegar no batente.
Lá aconteciam coisas inusitadas, como uma dupla de cantadores de fandango, gênero musical presente entre os nativos do litoral desde o Paraná. A música é muito parecida com as catiras ou cateretês do interior de São Paulo, mas com alguns ingredientes característicos. Foi o Tau Scucuglia quem encontrou a dupla e a levou para o acampamento. Como a maioria do grupo era de Ciências Humanas, foi uma boa oportunidade para conhecer a cultura popular da região. Outra figura que conhecemos por lá foi um velho boêmio que depois de uma desilusão amorosa, largou casa, mulher e filho e foi viver na Barra do Una. Contava ele que chegou por lá sem eira nem beira. Dormiu três dias na praia e só depois foi procurar abrigo. Como era técnico em eletrônica, passou a fazer consertos de rádios, televisores, geladeiras, enfim, o que aparecia. Tudo em troca de peixe ou “depois eu pago”. Pobre Heitor Tolezano, um homem triste e amargurado. Sempre que bebia (quase todos os dias), falava sobre o filho que adorava e desandava a chorar copiosamente. Numa outra ocasião, apareceu uma índia com duas filhas adolescentes que fugiam dos caiçaras, que tentavam estuprar as meninas, fato corriqueiro com os pobres índios. Elas foram abrigadas no acampamento e tratamos de expulsar os caiçaras embriagados. Elas passaram a noite no acampamento e até traduziram uma música que o Pepito estava cantando: A djiu pi uirá poture/Aguadi haa care/ cunhaim djiu pii/ aramiu aahaata. Pela manhã, em segurança pegaram o caminho da aldeia que ficava há alguns quilômetros dali. Os índios, de uma tribo Tupi, levavam seus artesanatos para a vila e eram escandalosamente explorados pelos comerciantes caiçaras. Eles trocavam belas peças (arcos, flechas, tapetes etc.) por uma garrafa de cachaça ou um quilo de farinha de mandioca. Essas peças eram depois revendidas aos turistas por preços bastante elevados.
Os ricos proprietários dos imóveis da vila, que ainda mantêm um ancoradouro no Rio Una para seus barcos e iates não gostavam da nossa presença, pois temiam que nós atraíssemos novos campistas para o local, acabando com a tranquilidade da Barra do Una, um pequeno paraíso no litoral norte. Hoje, do que foi outrora, pouco restou. O rio está poluído com esgoto doméstico e o local está praticamente todo ocupado para casas de veraneio que aumentam a poluição e o lixo. O receio da burguesia de fato se concretizou. Acabou a Barra do Uma, uma paradisíaca praia do litoral norte de São Paulo.

Renato Ladeia

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