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O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO

Como se sabe, Jesus, tal como Sócrates, não deixou nada escrito e os Evangelhos que estão no Novo Testamento da Bíblia foram escritor posteriormente por: Mateus, Lucas, Marcos e João. Como existe um hiato da vida de Cristo dos doze aos trinta anos, o romancista e poeta português utiliza o romance para suprir essa lacuna. O romance considerado uma obra prima da literatura portuguesa, foi objeto de muitas críticas, principalmente, por parte da Igreja Católica, pois vários dogmas são colocados em xeque na obra. Mas como se trata de uma obra de ficção e em nenhum momento o tema é tratado com desrespeito, as críticas poderiam ser mais suaves. Saramago atua no romance como um narrador moderno a partir da observação de uma pintura e que se transporta para mais de dois mil anos, acompanhando Jesus desde a concepção até a sua morte. Apesar de ser um ateu confesso, o escritor mantém na narrativa alguns elementos sobrenaturais narrados na Bíblia, mas humaniza os pais de Jesus, colocando-os como...

A MÁQUINA DO TEMPO

Viajar para o futuro ou para o passado é um antigo sonho romântico da humanidade. O francês Júlio Verne, no século XIX, previa o futuro tecnológico com a Viagem ao Centro da Terra e Vinte Mil Léguas Submarinas. Sob sua influência, o inglês H G Wells publicou ainda no final do século XIX, a Máquina do tempo em que um cientista viaja a mais de 800 mil anos no futuro. Parece ser muito tempo, pois ninguém de bom senso acredita, pelo andar da carruagem ou das máquinas, que daqui a mil anos a raça humana ainda estará por aqui. Na ficção de HG Wells o viajante do tempo encontra seres humanos usando uma dieta vegetariana e com tamanho bem reduzido. Desconhecendo o fogo, vivem apavorados com seres subterrâneos carnívoros que os atacam a noite. Em 1931, o escritor inglês Aldous Huxley publica o Admirável Mundo Novo, uma distopia sobre o futuro bastante pessimista. O romance narra a história de um casal que tenta fugir do mundo novo, excessivamente mecânico e sem espaço para o amor e os afeto...

RUBENS PAIVA E VLADEMIR HERZOG

O filme Ainda estou aqui ajuda a reabrir outros casos obscuros que ocorreram durante a ditadura militar. Anos depois do Rubens Paiva, tivemos um caso com grande repercussão no Brasil e no exterior que talvez venha a merecer um filme. Vlademir Herzog foi um jornalista de origem judaica, cujos pais emigraram para o Brasil para fugirem do nazismo. Ele era diretor de jornalismo na Televisão Cultura, controlada pelo governo do estado. Na época o governador do estado era o banqueiro liberal Paulo Egydio Martins, indicado por Geisel. Paulo Egydio era amigo do empresário, dono da Metal Leve, José Mindlin, o então Secretário da Cultura do Estado, responsável pela nomeação de Herzog. Da mesma forma que Rubens Paiva, Herzog foi intimado a comparecer ao DOI COD, a polícia política do regime militar. Mas Herzog, submetido a torturas, faleceu nas dependências do Exército, na época comandado pelo General Ednardo D´Ávila Melo, um extremista de direita. Naquele momento vivíamos um momento de disten...

MANUAL DO MUNDO: UM CASO DE SUCESSO

O Manual do Mundo é um sucesso de criatividade e empreendedorismo. A criação do Iberê Thenório corre o Mundo ajudando os jovens e adultos a aprenderem sobre como as coisas são feitas e entenderem a origem de tudo. Ao acompanhar o sucesso do Iberê, não consigo esquecer o menino inteligente e curioso que conheci desde bebê nas visitas aos seus pais em Piedade, uma aprazível cidade no interior de São Paulo sob as sombras de velhas araucárias. Lá rolavam grandes papos e muita música. Por trás desse sucesso não poderia deixar de lembrar do velho Delcy Thenório, avô do Iberê, que conheci na Rhodia Têxtil em Santo André, quando lá trabalhei juntamente com seu filho Edélcio. Delcy era um cuidadoso burocrata, mas nas horas vagas, era um autodidata que conhecia tudo de botânica, mecânica e física, além de escrever versos bem rimados, abordando o cotidiano de pessoas simples e de forma bem-humorada. Em sua casa, várias vezes ouvíamos as leituras dos seus poemas, enquanto a saudosa Antonieta se...

DO AMOR E DO AMAR de Ana Marice Ladeia

Ana Marice Ladeia Depois da agradável leitura do livro de contos “Do amor e do amar”, fica a sensação de ter mergulhado na intimidade do cotidiano de diversas mulheres. Mulheres que amaram, que foram amadas e, também mal-amadas, mas sempre sob um olhar feminino. Como ela mesmo afirma na introdução, são histórias reais que ela ouviu e recontou sempre com imaginação, delicadeza e sem faltar a poesia, pois sem ela o amor não vibra, não toca as nossas almas. Pode-se dizer que é um livro escrito por uma médica, que escreve para se reencontrar consigo mesma, mas é também um resgate da mulher sertaneja e, ao mesmo tempo urbana, num ambiente ainda dominado pelas relações patriarcais em que ao homem tudo é permitido e à mulher sempre convém cuidar do lar e dos filhos. A autora escreve ou reescreve as histórias que ouviu, lapidando-as e como diria Walter Benjamim: “... imerge essa substância na vida do narrador para, em seguida, retirá-la dele próprio”. A narrativa revelará sempre a marca do n...

O RELOJOEIRO

Um relojoeiro ajusta o tempo/ nos relógios antigos/ com suas pequenas ferramentas./ E se pudesse consertar o tempo gasto, lavado, desbotado, rasgado, desperdiçado? (Roseana Murray) Descobri que na rua onde eu morava com meus pais, em São Caetano do Sul, ainda existe um velho relojoeiro chamado Toni, cujo nome de batismo é Sebastião. Não sei como o apelido chegou a Toni, pois nem mesmo ele sabe. O Toni já está perto dos oitenta e ainda por cima carrega no abdômen um cateter para as sessões de hemodiálise. Lembro-me dele quando adolescente, na época em que se mudou para o bairro, pois era ele quem consertava o relógio cuco lá de casa, sempre que as crianças o desajustavam puxando suas cordas. Visitando minha filha que agora mora na casa em que passei a infância, encontrei o Toni, calvo, de cabelos embranquecidos pelo tempo, mas ainda ativo em sua antiga profissão, que segundo ele vem desde o seu bisavô que veio da Espanha. Sua casa, onde funciona sua oficina, é um quase um museu do rel...

DONA ESPERANÇA

Esperança, um estranho nome para uma filha de imigrantes japoneses que aportaram na velha Mooca no começo do século passado, um bairro que até os anos 1940 era um típico reduto operário da Paulicéia. Quando menina ela foi estudar num antigo externato na Rua dos Trilhos, ainda no tempo em que havia trilhos na rua. A escola pertencia a três irmãs solteiras que vieram de Campinas. Lá foi alfabetizada e concluiu o primário. Como era muito estudiosa e aplicada se destacou entre as outras crianças e depois de formada ajudava as professoras com os novos alunos. Com a morte prematura dos pais, foi morar com as antigas professoras e ajudava em tudo, vendendo materiais escolares e dando aulas básicas de inglês que aprendeu com uma professora particular e outras tarefas. Mas Esperança ia além, pois como o bairro era carente de serviços de saúde, era ela quem socorria a população aplicando injeções até altas horas da noite. As professoras foram envelhecendo, vieram mais escolas públicas, o ba...

ARGEMIRO PIFFER, BEQUE CENTRAL DO TIME DA VILA

Argemiro, Miro ou Mirão, era nosso vizinho. Filho mais velho do seu Afonso, que era barbeiro nas horas vagas e aparava as madeixas dos vizinhos e garotada. Miro gostava de se sentar sobre o muro de sua casa sem camisa exibindo seu corpo atleta com uma águia tatuada no peito. Era uma águia simples, pois as técnicas de tatuagem ainda estavam bem distantes das atuais. Miro era também beque central do Estrela F.C de Vila Marlene, o glorioso time do bairro com seu garboso uniforme vermelho, que jogava num campo de terra batida que deixava os jogadores com as pernas e braços ralados após os jogos. O Miro era respeitado e jogava duro para segurar os ataques adversários, normalmente um time de outro bairro que vinha disputar uma cobiçada taça. Aos domingos e feriados eu não perdia um jogo do Estrela e nas vitórias ou derrotas eu acompanhava o escrete caminhando com as camisas nas mãos em direção à sede que ficava ao lado do bar do Serafim, um espanhol apaixonado por futebol. A sede era um b...

RICHARD HENRY CLAYTON, UM INGLÊS NA MINHA SALA

Numa multinacional francesa apareceu do nada um inglês contratado para uma posição acima da do meu chefe. Inicialmente, ele não tinha sala e ficou acomodado numa pequena mesa que existia na minha salinha, ao lado do meu superior. Richard era um homem alto, magro e usava grandes óculos e não se incomodava em esticar suas longas pernas para os lados. Poderia pedir a minha mesa e ocupá-la sem maiores cerimônias, mas nunca aventou tal possibilidade. Era sempre um gentleman e revezávamos no cafezinho. Às vezes me servia e em outras eu o servia. Como um bom inglês, sentia falta do chá e eu acabei resolvendo, comprando uma chaleira elétrica que ele pagou com grande prazer. E assim, tínhamos chá todos os dias. O seu Afonso Salmeron Castilho, um velho faxineiro espanhol providenciava a bebida na salinha onde ficavam os materiais de limpeza. Richard tinha uns hábitos peculiares. Arregaçava a camisa social invariavelmente branca até o antebraço e lá enfiava o maço de cigarros Continental com fil...

LUTO: FLADEMIR BASSI LOPES

Recebi hoje a triste notícia da partida do querido professor Flademir com quem trabalhei durante vinte anos na FEI. Flademir um mestre sempre dedicado aos seus alunos e ao ensino. Trabalhou muitos anos como executivo na ZF e Otis na área de Compras e terminou sua carreira como professor de Teoria Geral de Administração na FEI durante mais de 30 anos. Para os colegas era um bom conselheiro pela sua grande experiência profissional e como mestre era também um ombro amigo para apoiar e orientar seus pupilos. Já afastado da vida acadêmica, dividia-se entre São Bernardo e São Pedro, onde tinha uma casa de veraneio. Mas no meio do caminho apareceu um câncer que o venceu hoje às 6 horas da manhã. Gostava de contar uma história quando sofreu um grave acidente nos anos 1980 e foi dado como morto. Sua família chegou a ser avisada, mas ele não desistiu da vida e sobreviveu por mais 30 anos. Esse era o grande professor Flademir. Meus sentimentos à esposa, filhos e netos do querido mestre.

NO SÉCULO PASSADO, QUASE TODOS ERAM RACISTAS

Quando Euclides da Cunha publicou seu livro mais famoso, Os Sertões, baseado na sua experiência como repórter do Estadão na cobertura da Guerra de Canudos, a “hierarquia das raças” era dominante na sociedade brasileira e no mundo ocidental, incluindo o meio acadêmico. No século XIX as teorias de Arthur Gobineau sobre a superioridade dos brancos era consagrada e D. Pedro II foi seu admirador e correspondente. Tinha-se como consagrado, que os povos europeus haviam conquistado a América e a África pela sua superioridade racial, fazendo jus a escravização dos povos nativos. Em Os Sertões, Euclides da Cunha, um engenheiro militar culto se esmerou em expor as teorias racistas que conhecia, em boa parte do livro, no capítulo em que descreve as populações do Nordeste. Atualmente muito se fala em Monteiro Lobato pelas inferências racistas em sua obra, principalmente na literatura infanto-juvenil. Por isso, já houve até propostas de censurá-la ou reescrevê-la, retirando passagem que indicam pos...

CARMEN MIRANDA

Na minha infância ainda se ouvia falar sobre a grande cantora Carmem Miranda, cujas canções que interpretou fizeram história e ficaram no imaginário do povo. Minha mãe sabia algumas que ela cantava e um irmão dela, que morava no Rio, garantiu que a via sempre por lá e assistiu vários shows que fazia ainda no começo da carreira. Como ainda era muito criança, pouca coisa me lembro sobre ela e a mais marcante era uma revista “O Cruzeiro” que havia em casa sobre o seu funeral, que minha mãe guardou por muitos anos. Foi um grande acontecimento que marcou a cidade maravilhosa. E agora, depois de tanto tempo, resolvi enfrentar a magnifica biografia de mais de 400 páginas sobre essa mulher espantosa, escrita por Ruy Castro, um competente biógrafo. Ouvindo os mais velhos, me lembro das conversas sobre o fato dela ter se americanizado, perdendo a sua brasilidade. Falavam como se ela houvesse traído o seu povo. Nada mais falso. Para começar essa mulher magistral, apesar do pequeno tamanho, n...

MEU TIO CARIOCA

Meu tio Elisário foi para o Rio de Janeiro em meados de 1928 para estudar e trabalhar. Lá se hospedou na casa de um médico, parente de sua mãe, chamado Ajax Rabello. Era o meu tio carioca, como todos que no Rio moravam, tinham direito a alcunha, não importando a origem, como o pernambucano Nelson Rodrigues, a portuguesa Carmem Miranda ou o livreiro francês Baptiste-Louis Garnier. Mesmo antes de concluir o curso de guarda-livros, nome que antigamente se dava aos contadores, ele já estava trabalhando em um banco, fazendo escriturações contábeis com sua letra pequena e caprichada. No Rio ele vivenciou a grande crise de econômica de 1929, mas não chegou a perder o emprego. Contava em cartas para os pais que moravam em Araçatuba, interior de São Paulo, as novidades da capital federal. Citava que o presidente da República ia ao banco sem nenhum aparato de segurança, como um cliente comum. Outras vezes o via tomando um carro para ir a algum compromisso sem nenhum aparato, difícil de imagi...

PROSTATA CANTADA EM PROSA E VERSO

O homem que ainda não teve problemas com a próstata, não perde por esperar. Um dia ela se manifesta e pode ser de forma benigna ou maligna. Na maioria das vezes é benigna, com o aumento do tamanho que pode afetar a passagem da urina pelo ureter. Daí as noites mal dormidas que faz as pessoas levantarem várias vezes para esvaziar a bexiga. Para esse caso, tem solução se o sujeito tiver um bom plano de saúde. Quando é maligna, a coisa é mais complicada, exigindo a retirada do órgão e é bom torcer para o câncer não ter se espalhado para outros órgãos. Essa forma mais agressiva é mais rara, mas é bom não se descuidar, pois estatisticamente, com 100 anos de idade, temos cem por cento de chance de ter um câncer no órgão, como também a mulher ter um tumor no útero. Tive um amigo, que mesmo com a forma benigna, não se cuidou. Ele levantava de meia e meia hora para se aliviar, dia e noite. Com o tempo a bexiga perde a elasticidade e o indivíduo não consegue mais esvaziá-la totalmente, o que pod...

IGUALDADE SALARIAL PARA AS MULHERES

A nova lei que estabelece salário igual para as mulheres na mesma função me parece uma panaceia sem resultados práticos. Primeiramente, porque a CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) já prevê essa isonomia desde os anos 1940, quando foi promulgada pelo então presidente Getúlio Vargas. Assim, não importa se for mulher ou homem, quando as funções forem iguais, os salários devem ser os mesmos. Admite-se que em fase probatório os salários podem ser diferentes, mas depois de dois anos em funções iguais não há por que existir diferenças. Assim estabelece a lei no artigo 461: “Sendo idêntica a função, a todo trabalho de igual valor, prestado ao mesmo empregador, na mesma localidade, corresponderá igual salário, sem distinção de sexo, nacionalidade ou idade.” É sabido que na média, a remuneração das mulheres é inferior aos homens, mas isso ocorre de forma geral e não necessariamente por desobediência proposital na grande maioria dos casos. Se tomarmos, por exemplo, os ganhos das engenheir...

LTI A LINGUAGEM DO TERCEIRO REICH

O retorno, sempre indesejável das ideias nazistas ou fascistas, é sempre um motivo de preocupação, principalmente para aqueles sintonizados com os destinos da humanidade e defendem a liberdade de pensamento ou de credo. Acabo de ler a edição mais recente, de 2009, presenteada por um amigo. O livro é baseado no diário de um cidadão alemão de origem judaica que viveu a tragédia do III Reich. Klemperer era filho de um Rabino, mas converteu-se ao Luteranismo, mesmo sendo agnóstico, pois desejava ser um alemão como qualquer um e por fim, casa-se com uma pianista alemã, não judia. O autor era um professor universitário livre-docente em Filologia e também especialista em literatura francesa. Sua vida começa a mudar a partir da tomada do poder por Adolf Hitler em 1934 que se proclama chanceler e presidente da Alemanha, o Fuher. Em 1935 Klemperer é destituído do seu cargo na universidade no processo de “purificação nazista”. A partir daí, Klemperer passa a trabalhar como simples operário, ta...

UM CÁLCULO COMPLICADO

Não me refiro aos cálculos de diferencial e integral, assunto sobre o qual sou leigo. O cálculo a que me refiro é o renal. Somente aos quarenta descobri que tinha um, provavelmente por razões genéticas. É um cálculo chato, principalmente quando ele é expulso dos rins, cai na bexiga e encontra dificuldade para passar pelos estreitos caminhos adiante. Um desses cálculos parou meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra, como no poema do Drummond. Para resolver, tomei uns três litros de água até que a danadinha caiu pulando como um serelepe no mictório. Com um papel higiênico, a recolhi, lavei e fiquei olhando para ela e imaginando suas travessuras pelas minhas vias urinárias. Era um cálculo bem graúdo, quase do tamanho de um grão de feijão, mas todo áspero e disforme. Guardei a relíquia e a levei para o médico que avaliou como uma formação de oxalato de cálcio. Recomendação: tomar muita água durante o dia, pois assim dificulta a formação de novos cálculos nos rins. A coisa é re...

CONFISSÕES DE UM QUASE FUMANTE

Meu pai fumava um cigarro por dia, normalmente à noite depois do jantar. Nos fins de semana abria uma exceção e fumava também no almoço. Seu maço de Mistura Fina, considerado um quebra-peito ou fumo forte, durava até duas semanas. Mas um dia sentiu uma leve tontura depois de uma tragada e nunca mais fumou. Minha mãe fumava, mas às escondidas para não dar mau exemplo para os filhos. Mas depois que os filhos ficaram adultos, ficou livre do moralismo e passou a consumir um maço por dia. A cultura do cigarro era tão forte que uma atividade da garotada na minha época, era colecionar as embalagens de cigarros em que as marcas mais comuns eram trocadas por outras mais difíceis. Continental, Hollywood, Lincoln, Mistura Fina eram marcas fáceis e desprezíveis e só iniciantes se davam ao trabalho de pegar uma na rua. Um Pulmann valia dois Hollywoods. Um “Mescla Dourado” tinha um bom valor de troca, pois era mais raro. Marcas estrangeiras então, nem se fala, quem tinha uma conseguia até vendê-...

DIA INTERNACIONAL DAS MULHERES

Acho que um dia para as mulheres é pouco. Devia ter o ano internacional das mulheres, mas todos os anos, rs. Afinal, as mulheres são a maioria da população e são mães de todos os homens. Sem as mulheres o que seria de nós homens? Elas são tão preciosas que muitos homens não suportam viver sem elas. Vicente Celestino, com seu vozeirão, cantava o Ébrio, uma canção que fala da tristeza de um homem abandonado e busca na bebida esquecer as suas mazelas. As mulheres abandonadas, e não são poucas, se levantam e tocam a vida, pois o leite das crianças não pode esperar a passagem das dores do amor ou do desamor. Enfim, quase todas as canções falam das mulheres. Do perfume, da beleza, do sorriso, dos olhos, dos cabelos, da doçura... Desde os tempos medievais, quando os primeiros versos ou cantigas de amor foram registradas, elas são as protagonistas. São elas que deixam os homens sem rumo, sem eira e nem beira. O velho Machado de Assis dizia em um dos seus romances: “Ela me custou minha vida ...

...TER CARRO VELHO ERA UMA AVENTURA

Ter um carro no passado era o sonho de todo mundo. Um possante era a sensação de andar pelas ruas com segurança sem medo de chuva ou de ser assaltado com o carro em movimento, sair e voltar a hora que quiser, sem depender de ônibus ou trem. Pegar uma estrada e se sentir o dono do mundo com o vento acariciando o rosto. Tudo isso sem contar com a possibilidade de namorar a garota mais cobiçada do bairro. Tive um colega que seu rival passou de carro e a sua namorada o largou no meio da rua. Uma tragédia. Ele bebeu formicida, mas por sorte foi socorrido a tempo. Tudo por culpa de um carro. Nos fins dos anos 1950 e início de 1960 a moda entre os jovens de classe média era puxar carros estacionados nas ruas e dar uma voltinha. Quem fazia isso era o filho menor de idade do professor Sérgio Buarque de Holanda, um tal de Francisco. Mas a brincadeira acabou mal e ele e seu amigo foram pegos pela polícia. Como eram menores e com cara de filhinhos de “papai”, ficaram mofando na delegacia até a...