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O RELOJOEIRO

Um relojoeiro ajusta o tempo/ nos relógios antigos/ com suas pequenas ferramentas./ E se pudesse consertar o tempo gasto, lavado, desbotado, rasgado, desperdiçado? (Roseana Murray) Descobri que na rua onde eu morava com meus pais, em São Caetano do Sul, ainda existe um velho relojoeiro chamado Toni, cujo nome de batismo é Sebastião. Não sei como o apelido chegou a Toni, pois nem mesmo ele sabe. O Toni já está perto dos oitenta e ainda por cima carrega no abdômen um cateter para as sessões de hemodiálise. Lembro-me dele quando adolescente, na época em que se mudou para o bairro, pois era ele quem consertava o relógio cuco lá de casa, sempre que as crianças o desajustavam puxando suas cordas. Visitando minha filha que agora mora na casa em que passei a infância, encontrei o Toni, calvo, de cabelos embranquecidos pelo tempo, mas ainda ativo em sua antiga profissão, que segundo ele vem desde o seu bisavô que veio da Espanha. Sua casa, onde funciona sua oficina, é um quase um museu do relógio. Lá é possível encontrar antigos exemplares de relógios de parede franceses, alemães, suíços e italianos. Um exemplar que toca um trecho de Ave Maria de Guinot a cada hora, é uma de suas preciosidades. Toni ainda conserta as mágicas maquininhas do tempo. Com uma lupa ele ajusta cordas, aperta minúsculos parafusos, troca baterias e regula aquelas que atrasam ou adiantam, sempre com muito cuidado e precisão. Eu dou garantia pelo meu serviço, diz ele com orgulho. Todos os seus relógios estão à venda, mas por preços bem salgados para uma época em que as pessoas não estão muito preocupadas em consultar aparelhos analógicos para se orientarem na contagem do tempo. Relógios cuco, como o da minha mãe, ele tem vários, com preços variando entre 2500 e 3000. Preços altos para um tempo em que quase não se valoriza um “marcador de horas” pendurado numa parede ou sobre um móvel. Mas o Toni é um acumulador, como ele mesmo se define. Relógios de pulso e de bolso antigos, ele tem gavetas cheias. Mostrou-me um Ômega, um consagrado suíço, muito antigo que ainda funciona, parecido com o que meu pai tinha e que perdeu ou lhe roubaram. Lembro-me que ele lamentava a perda, pois o velho suíço se tornara muito caro para os seus tempos de aposentado. O relojoeiro que além dos relógios, é apegado em coisas antigas, como violões, um violino e até uma ampulheta do século XIX, não gosta das tecnologias digitais. Não usa Whatzapp e Internet nem se fala. Acha que se colocar seus relógios a venda pelas redes sociais, corre o risco de atrair ladrões. Com isso fica bem mais difícil para vender os seus preciosos aparelhos de marcar as horas. Mas ele não se incomoda e parece estar feliz na companhia das suas antigas máquinas, que ele diariamente dá corda para ouvir as badaladas do tempo. Quando lhe perguntei o que vai acontecer com a sua bela coleção quando partir, ele respondeu rindo: minha filha é que vai resolver. Como ela tem outra profissão e não entende nada das maquininhas, a tradição familiar vai se encerrar mesmo no Toni e provavelmente vai vender o lote todo na bacia das almas para o desgosto do velho, que estará em outra dimensão em outra dimensão da eternidade onde não se contam os anos e quem dirá as horas.

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