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O CINE VITÓRIA E A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA

Cine Vitória, fundado em 1953, em São Caetano do Sul teve os seus dias de glória como o melhor cinema da cidade.  Seu nome deve ter sido uma auto-homenagem ao seu proprietário, o empresário Vittorio Dal’Mas. O prédio chegou a ser sede da prefeitura nos andares superiores e, também, da ACASC, uma associação onde eram promovidos bailes e formaturas.

Próximo do Natal, lá pelo final dos anos 1950, fui lá pela primeira vez na companhia dos meus pais e irmãos. Com a melhor roupa que envolvia terninhos de calças curtas e gravatas borboletas fizemos um retrato familiar no Foto Mitto, na Manoel Coelho, próximo a estação ferroviária e clic. Estava pronta uma lembrança para ser enviada aos parentes do interior. Depois, caminhamos até o Cine Vitória, onde assistimos um longo e cansativo documentário sobre o fundo do mar na primeira sessão e em seguida o filme “Lá Escondida”, um dramalhão mexicano ambientado durante a revolução de 1910, liderada por Zapata. Minhas irmãs quase adolescentes falaram sobre o filme a semana toda e isso fez com que me lembre até hoje de um bom número de cenas.

Teve uma época em que lá não era permitida a entrada de homens sem paletó e gravata. Com o tempo a regra foi relaxando e cheguei a assistir bons filmes com camisa esportiva de mangas curtas em companhia de amigos ou de alguma namorada, cujos nomes ficaram perdidos nos escaninhos da memória. Depois ia para uma lanchonete que servia hot-dog com batatas palha, logo ali, na Manoel Coelho.  No Vitória, lembro-me bem, assisti o clássico Doutor Jivago, baseado no romance do mesmo nome do escritor russo Boris Pasternak, além de uma reprise de Laurence da Arábia outro clássico épico do cinema com três horas de duração.

Tal como no belo filme “A última sessão de cinema” que tem como palco a pequena cidade de Anarene, no estado do Texas, Estados Unidos, o Cine Vitória também chegou ao fim em 1 de setembro de 1998, exibindo o filme Armagedon, com apenas cem espectadores. Infelizmente, a reforma do cinema com a criação de duas salas, em 1995, não resolveu a falta de público. Nesse dia já não morava mais em São Caetano e só soube depois. Talvez tivesse ido à última sessão por nostalgia e relembrar seus áureos tempos, tal como no filme americano e guardando o ingresso como recordação daquele que foi ponto de encontro de namorados, políticos e amigos.

O filme de Bogdanovich, com Cybill Shepherd, fazendo a sua estreia, exibiu na tela o clássico faroeste “Rio Vermelho”, de 1948, com John Wayne. Os personagens da “Ultima Sessão de Cinema” tinham poucas opções de lazer na pequena cidade e se revezavam entre o bar com sinuca e o velho cinema. O filme é nostalgia pura e a história se passa entre o final da Segunda Guerra e a Guerra da Coréia, tempos difíceis no meio oeste norte-americano em que as pessoas viviam as duras perdas durante o conflito mundial e as possibilidades dos jovens serem convocados para mais uma guerra.

O Cine Vitória não era o único cinema da cidade, diferentemente de Anarene em que havia apenas um. Tínhamos “O Lido”, mais moderno e bem próximo, que também já chegou ao seu ocaso. Além do Lido, havia o Max perto da estação de trem, onde assisti bons filmes como “A primeira noite de um homem”, com o Dustin Hoffman e bem antes, o primeiro filme dos Beatles, “Help”, quando se ouvia mais os gritinhos das meninas do que as belas canções do quarteto de Liverpool.  Encerraram as atividades também os cinemas de bairros, como o Real e o Átila na Vila Gerty da família Santarelli, entre outros. Hoje quase todos são supermercados ou igrejas evangélicas.

O fechamento do Cine Vitória e outros cinemas, foi resultado de mudanças socioculturais, com a chegada dos filmes alugados nas locadoras que há tempos já estavam se espalhando pela cidade. E tal como na canção do Chico Buarque, a televisão mudou o hábito das pessoas e “Os namorados, já dispensam seu namoro, quem quer riso quem quer choro, não faz mais esforço não. E a própria vida, ainda vai ficar sentida, vendo a vida mais vivida, que vem lá, da televisão”.

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