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"MINHA ALDEIA" de Valnice Vieira Bolla

Recebi o livro Minha Aldeia da minha querida amiga Valnice ou simplesmente Bolla, atriz, cenógrafa, figurinista, bonequeira e escritora. Sentado na rede, comecei a ler a brochura e fui recordando quando eu a conheci. Quanto tempo! quantas histórias! quanta generosidade! desse casal ( ela e o Zé Geraldo) que dedicou e dedica a vida às artes, sem concessões, por descuido ou poesia. Enfim, Bolla saiu do armário e colocou para fora seu lado de poeta e escritora. Quantas coisas bonitas ficaram nos seus alfarrábios escondidos nas gavetas do tempo! Mas enfim, temos em mãos as suas lembranças poéticas e suas reflexões expressas de forma muito particular, repletas de simbologias, da visão de mundo de uma criança que ela continua teimando em ser e, quiçá, nunca mude. Bolla me lembra um pouco a sua conterrânea Cora Coralina, pois nasceu em Goianésia no mesmo estado da poeta. De lá trouxe nas malas, na mente e nos bolsos, velhas lembranças como da casa de chão batido onde morou, do avô com seu t...

RUTH V. C. L. CARDOSO: A ANTROPÓLOGA E PRIMEIRA-DAMA

Ruth Cardoso, mestre e doutora em Antropologia pela Universidade de São Paulo, com passagens como professora visitante em universidades americanas e europeias, detestava ser chamada de primeira-dama, invenção norte-americana que foi imitada pelo mundo ocidental. O papel da chamada primeira-dama basicamente é acompanhar o presidente nas viagens internacionais, nas recepções de autoridades estrangeiras no palácio do Planalto e outras atividades relacionadas. Ruth tinha vida própria e não queria ser apenas uma figura decorativa no centro do poder político. Como professora, Ruth Villaça Correia Leite Cardoso, era extremamente dedicada aos seus alunos e orientandos. Estava sempre preocupada se estavam aprendendo. Gostava de discutir, conversar, ouvir os seus interlocutores, pois acreditava que ensinar era também uma forma de aprendizado. Até então, havia a LBA, Legião Brasileira de Assistência, em geral coordenada pela mulher do presidente quando esta tinha disposição e capacidade para ...

CRISTÃO: SER OU NÃO SER?

Quem já leu “A Servidão Humana” de Somerset Maughan, há de se lembrar do personagem principal, Phillip Carey, e as suas intermináveis discussões com Deus. Órfão de pai e mãe, ainda menino, é criado pelo tio paterno, um rígido clérigo conservador na Inglaterra vitoriana do final do século XIX, Phillip começa a ler tudo que cai em suas mãos, o que o leva a grandes dúvidas metafísicas. Depois de um breve período na Alemanha após concluir o ensino médio, onde descobre o teatro de Ibsen e a filosofia alemã, desiste da carreira eclesiástica e resolve ser pintor em Paris, mas já com sérias dúvidas sobre sua religiosidade, o que conflita com toda a sua formação em colégios confessionais. Para Phillip, o que havia mesmo restado da educação religiosa, era a moral cristã, mas não mais o cristianismo na sua essência. A releitura do romance, quase autobiográfico de Somerset, autor de outro grande romance, “O fio da navalha!”, me fez lembrar das ideias religiosas do meu pai. Ele era um livre atira...

EVALDO, APENAS UM MUSICO

Era um domingo, dia bonito, ensolarado, um bom dia para passear. Eram cinco da tarde quando Evaldo com a mulher, filho e sogro foram num chá de bebê. Um casal de amigos estava esperando uma criança e organizaram uma festinha, como é tradição, para angariar presentes para o bebê. O músico Evaldo, de 51 anos, não tinha compromisso profissional no dia e seu cavaquinho havia ficado em casa descansando suas cordas. Chegando no bairro do Guadalupe, Evaldo viu uma patrulha do Exército, mas deu pouca importância para o fato. Como era um carro de família, com mulher criança e um idoso, nem seria parado e chegariam no horário combinado da festinha. Mal teve tempo de pensar quando ouviu vários disparos. Devem estar atirando em algum bandido que forçou a passagem, mas quando percebeu que os tiros estavam atingindo a lataria do veículo, desconfiou que o problema era mais sério e parou o carro. Em seguida uma bala o atingiu. Sentiu uma dor terrível e ainda teve tempo de pensar: “Quem fez isso comi...

VAGALUMES OU PIRILAMPOS

Quem nunca viu um vagalume desconhece uma das coisas mais interessantes da natureza. Os vagalumes ou pirilampos, são insetos que produzem uma luz fluorescente verde na porção abdominal e que aparecem no início da noite nas regiões com plantas e árvores. É curioso como um bichinho de 1 a 3 centímetros consegue emitir luz. Essa luz é provocada por uma substância chamada de luciferase que oxidada pelo oxigênio, provoca a luminescência. Em São Caetano do Sul ainda existia, na divisa com São Bernardo, próximo onde é hoje o cemitério e a Faculdade de Engenharia Mauá, um enorme matagal de onde vinham os vagalumes que invadiam as ruas próximas e os quintais. Isso acontecia no início da noite no verão, quando eles saem para o acasalamento. As fêmeas não voam e a luz é para atrai-las para o acasalamento. O que nunca entendi é como se as fêmeas não voam, como os machos são atraídos se ficam voando? Um mistério. Toda a garotada da rua saia para tentar capturar os bichinhos numa tentativa de pr...

UM VELHO LIVRO DE FRANCÊS

Encontrei recentemente entre meus livros, um didático de francês que pertenceu a um jovem que trabalhava na mesma empresa que o meu pai. O nome dele era Dirceu Rossoni, escrito em uma caligrafia caprichada numa das páginas.Tudo indica que era um aluno estudioso, pois todas as lições tinham anotações de traduções de palavras para o português. Quem era o Dirceu Rossoni? Lembro-me muito bem dele, pois esteve em casa algumas vezes. Meu pai sempre comentava que eu devia seguir o exemplo do Dirceu. Um rapaz estudioso, honesto e trabalhador. Os pais sempre procuram orientar seus filhos para seguirem bons exemplos e assim evitarem que caiam em maus caminhos pela vida. Dirceu era bem jovem, estando por volta dos 17 ou 18 anos. Quando entrei no ginásio, que atualmente corresponde ao 5.o. e 8.o ciclo do ensino fundamental, ele trouxe uma caixa de livros que havia usado no ginásio para que eu pudesse aproveitar. Usei alguns e outros ficaram na gaveta ou foram doados e não sei por qual razão o de...

SALVE O DIA DA BANDEIRA!

A bandeira brasileira tem um velho e saudoso significado para mim. Lembra minha mãe com uma saia de linho verde que ela gostava de usar e a deixava elegante e charmosa. Mas um dia ela enroscou a saia em algum lugar, fazendo um rasgo irrecuperável. Ficou triste, muito triste. E para consolá-la pedi que me fizesse uma camisa com o tecido. Não é ela topou! Mãos a obra. Sentada em sua Brivenix, uma máquina de costura inglesa, onde eu li as primeiras palavras na língua de Shakespeare: Made in England, ela costurou, em poucas horas uma bela camisa de linho verde. A cor me deixava preocupado, pois poderia sugerir que eu havia trocado de time, abandonando o velho clube do Parque São Jorge, mas eu gostava do verde e ponto final. Mas um fato novo estava para acontecer. A minha professora do segundo ano primário avisou que no dia seguinte comemoraríamos o dia da Bandeira Nacional e nos fez decorar o quase desconhecido hino, cujos versos ainda me encantam: “Salve lindo, pendão da esperança/ Salv...