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Abotoou o paletó ou a história moderna da vestimenta, uma analogia ao De Pallio de Tertuliano Ao encontrar o amigo Zéca, despudoradamente, sem paletó no casamento do filho de um amigo, brinquei com a sua falta de “compostura”. Onde já se viu ir a um casamento sem paletó e gravata? Diante do seu sorriso matreiro, insisti que um paletó era uma indumentária essencial. Afinal, mesmo para partir desta para melhor, é preciso de um. O amigo riu da observação, mas continuou achando que a clássica peça do vestuário masculino era desnecessária e excessivamente burguesa para o seu gosto. E ainda avisou que contaria comigo para o caso de precisar de tal peça para o enterro. “Depois a gente se acerta no purgatório”, completou se divertindo. Essa conversa me conduziu à infância e me fez lembrar de um presente que meu pai deu a cada um dos meus dois irmãos menores. Era uma pequena gaita de plástico, uma coisa sem muita importância. Entretanto, aquilo me magoou profundamente. Ao perceber o meu desapo...

Jogava um pano legal em cima de mim ou uma singela homenagem ao Edson José da Silva, o Zéca

Era o casamento do filho de um amigo. Aí eu me pergunto: Com que roupa? Ponho a gravata ou não? Será que não ficaria um pouco exagerado ir de gravata num casamento e sem ser padrinho? Finalmente decidi colocar a gravata no pescoço meio envergonhado em usar uma roupa tão formal para encontrar com velhos amigos. Chegando a igreja percebi que todos estavam vestidos com costume risca de giz, impecáveis. O meu terno, marrom escuro, que pensei estar muito chique, ficou obscurecido pela elegância reinante. Mas no meio da igreja, sentado muito a vontade, com uma camisa listrada e arregaçada nas mangas, estava o Zéca, desafiando o mundo. Até o filho, um adolescente de dezessete anos estava impecável. Ele optou por uma vestimenta trivial, despojada, ainda que elegante, como sempre. Mas o Zéca é assim mesmo, detesta formalismo, detesta bares e restaurantes em que os garçons se vestem de pingüim e o chamam de doutor. “Não tenho nada contra os veados, mas detesto mesmo a veadagem”, costuma dizer qu...
Ao poeta do povo, Carlos Drummond de Andrade. Todos sabem que tu não eras do povo O povo, esse desconhecido... Era a tua poesia Mas as preocupações do povo Nunca foram os teus versos Porque tu sabes, como “poeta do povo” Que o povo não ama seus poetas Nem a poesia. Mas aqueles que o amaram (Que não eram do povo) Não se conformaram Com a morte do poeta E foram para as ruas do povo Declamar teus poemas Gritaram nos teatros, no rádio, na TV Que eras um poeta do povo. As crianças do povo Acredite, te amariam Mas os pais do povo Não tem olhos para a poesia. Mas minha filha ouve teus poemas E sorri quando leio o verso: “O vento brinca nos bigodes do construtor” E confessa ter entendido tudo Pois há poesia em tudo Até onde não há vestígios de poesia. Depois, cansada de ouvir versos Adormece nos ombros da poesia. Ela soube que o poeta morreu Ou melhor, adormeceu Para que o sempre o velasse Não chorou, por que as crianças não choram E os poetas não morrem ...
GERÂNIOS Meus olhos são janelas para o universo Por onde percebo minha humanidade Da minha janela vejo os gerânios florescerem De repente A cada primavera Meu universo são os gerânios coloridos Que espalham cores sob os raios de sol E pelo meu olhar percebo o universal das coisas O universal dos gerânios florescerem De repente Como a luz da manhã Como um encantamento Para meus sentidos Meus sentidos... São os gerânios coloridos A espalhar cores por onde minha vista alcança e Minha janela se abre Para o mundo Para o universo E eu não vejo nada além Do que os gerânios florescerem Meus olhos se prendem aos gerânios Mas eles partem com o fim da primavera Porém eles continuam em mim E aquém da janela que se abre: Eu vejo Pelos sentidos Gerânios na escuridão. 1/10/00 PAULICÉIA Salve Paulicéia Desvairada Percorro o trilho dos desvalidos As veias abertas e cansadas Dos seus heróis vencidos Salve Paulicéia insensata Dos becos estreitos e sombrios Com suas cores e vozes mulatas ...
O COTIDIANO A magia de um dia após o outro Encanta meus olhos E saboreio com o olhar de tudo A simplicidade do vai e vem Do sol e da lua Do claro e do escuro Da pele sedosa Das rugas que teimam Em pintar o tempo nas coisas. ERRO Errar é como atropelar O espaço O tempo Os pensamentos Que insistem em atravessar A contra mão do tempo Errar é atravessar Distraidamente As palavras dispersas. DÚVIDA Um texto Textura Um doce Rapadura Um beijo Desejo Mas é contra mão! Estou perdido Na contra direção Chega o inverno Que deita cobertores Em minha alma E eu? Não sou mais Do que uma criança A comer rapaduras Atrás da porta Que porta? Aquela do jardim Atrás da casa Qual casa? Qual tempo? LEMBRETE Não se esqueça de nada Das roupas Dos livros Dos recados Das pequenas coisas Dos detalhes Mais ínfimos Mais íntimos São eles que dão sentido Ao nosso cotidiano Aos dias Aos anos De nossa breve Mas infinita Vida. A MORTE Como é frio e solitário O nosso último ato É de solidão completa Nenhuma companhia Fec...
O ESTRANGEIRO Quando eram soberanos, ao alacufes eram chamados os “Homens”. Depois, os brancos os designaram com o nome com que eles designavam os brancos: os estrangeiros. Passaram a chamar-se entre si de “estrangeiros”. Em sua própria língua. Enfim, nos últimos tempos, eles se chamaram alacufes, a única palavra que ainda pronunciavam diante dos brancos, o que significa “dá, dá” – só eram designados pelo nome de sua mendicância. Primeiro, eles próprios, depois estrangeiros a si mesmos, enfim ausentes de si: a trilogia dos nomes reflete a exterminação (BAUDRILLARD, 1990:141 e 142) Os recentes episódios de deportação de brasileiros que tentavam desembarcar na Espanha merecem uma reflexão mais profunda da estrangeiridade. O problema não é recente na Europa e tampouco na Espanha. A diferença é que os barrados foram jovens mestrandos, de classe média, diferentes dos milhares que saem do Brasil a procura de novas oportunidades. O estrangeiro é bem vindo quando não ameaça o status-quo, não...
FLAVIO VIEIRA DE SOUZA Encontrar o Prof. Flávio pelos corredores da faculdade era sempre surpreendente. Tinha sempre um repertório novo de anedotas que contava como se fosse um adolescente e soltando sonoras gargalhadas. Ria de modo a ouvir-se de longe, brincava com ele parodiando o poeta português Fernando Pessoa. Além das anedotas, gostava também de poesias e em uma oportunidade me parou no corredor para declamar um longo e pouco conhecido poema de Pessoa. A sua memória era prodigiosa lembrando e saboreando cada verso, cada palavra como se estivesse lendo. Era sempre o mestre de cerimônias dos eventos da instituição, encerrando os trabalhos com humor e graça, fazendo trocadilhos espirituosos e inteligentes ou mesmo transformando em anedotas algum fato recente. A última vez que nos vimos, estava muito pálido e já falava com dificuldade. Conversamos alguns minutos e percebi que as suas forças estavam se esvaindo, mas continuava irônico e brincalhão. “Só dói quando eu rio”, teria...