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ABILIO MACEDO, O CONTADOR DE CAUSOS

Um dos personagens que povoou a minha infância era um alagoano chamado Abílio Macedo. Era nosso vizinho, mas não muito próximo. Entretanto, quase que semanalmente, ele passava em casa para uma boa conversa com meu pai. Era naqueles tempos em que a televisão ainda não havia usurpado os serões da família brasileira. As visitas eram constantes e as conversas fluíam do cotidiano, como problemas de saúde, de trabalho, política e o melhor de tudo, relatos dos velhos tempos, onde a memória tem um papel fundamental. A memória ia construindo ou reconstruindo fatos, histórias, verdadeiras ou quase verdadeiras. Hoje sei que o narrador sempre acrescenta algo seu, suas impressões pessoais sobre o que conta. Lembro-me que às vezes, sentado no chão, fazendo de conta que brincava com um carrinho ou qualquer coisa, ficava atento àquelas histórias dos tempos antigos. Aí que entrava a memória do seu Abílio. Ela falava dos tempos do cangaceiro Lampião, personagem temível do nordeste brasileiro. Meu pai in...

ERASMÃO E O SEU FILHO PIRAHY

Escrever um livro, ter um filho e plantar uma árvore são os passos necessários para se tornar um homem de verdade, diz o velho aforismo. Poucos são aqueles que podem cumprir todas essas tarefas. Para quem mora em apartamento plantar uma árvore deve ser um desafio maior do que escrever um livro. Ser pai, salvo em casos de problemas de natureza biológica, parece ser o mais fácil de todos. Mesmo assim a adoção pode resolver o problema, pois o que importa é ter um filho, criá-lo, educá-lo, mesmo que tenha sido gerado por outro. Agora escrever um livro, não é coisa para qualquer um. É preciso ter inspiração e sobretudo muita transpiração, principalmente se o sujeito resolver criar uma obra de ficção, com personagens coerentes e verossímeis. Começo essa conversa fiada para falar do nosso velho amigo Luiz Carlos Erasmo da Silva. O Erasmo foi uma alcunha que recebeu nos tempos da Jovem Guarda pela sua semelhança com o músico Erasmo Carlos companheiro inseparável do Roberto Carlos. O apelido...

LÁZARO GARCIA, UM PADRINHO DOS VELHOS TEMPOS

Antigamente ter um padrinho era coisa séria, tanto para as crianças, como para os padrinhos. Os compadres eram escolhidos a dedo. Precisavam ser pessoas de confiança e que fossem verdadeiros amigos, pois pela tradição, na ausência dos pais, o padrinho teria a responsabilidade pela formação do afilhado. A relação de compadrio foi uma instituição bastante importante no Brasil, principalmente na zona rural, onde ainda hoje tem alguma relevância. Antonio Cândido em seu estudo sobre os caipiras paulistas, Os parceiros do Rio Bonito, lembra que ao afilhado cabe respeitar o padrinho de modo especial e pedir-lhe a bênção sempre que for encontrado como a um pai. Deve ainda comunicar-lhe o seu noivado, como que pedindo uma autorização paterna. Dessa forma o padrinho sempre exercia uma especial influência sobre os afilhados, e em muitos casos, se sobrepunha a dos próprios pais. Numa conversa que tive com um africano do Senegal, da tribo dos Pels, Mamour Elimani Ba, ele contou-me que é um costume ...

BARRA DO UNA

Não nasci em Barra do Una, sobretudo não morei em Barra do Uma. Ela é apenas um retrato na parede, mas como dói. Os versos do velho Drummond são como uma famosa esponja de aço, pois nos socorrem em todos os momentos, sejam felizes ou não. Já vai bem longe o tempo dos acampamentos nas deliciosas praias na foz do Rio Una, litoral norte de São Paulo. Era para lá que a nossa velha turma dos tempos de estudante ia passar os feriados prolongados. A viagem era programada com antecedência de pelo menos uns quinze dias e saiamos direto da escola em direção à praia. Eram noites intermináveis, pois chegávamos ao Guarujá por volta de 1h da madrugada e ficávamos esperando a balsa até o dia raiar. Depois pegávamos um caminho pelas praias de São Lourenço, estradinhas de terra com pinguelas sobre os rios. Hoje, com certeza, não teríamos coragem de atravessar de tão toscas e inseguras que eram. Mas tudo valia a pena naquela época e como as almas não eram pequenas, ninguém reclamava de nada e só de pens...

LEI DE COTAS

O Brasil é um país complexo, pois a coisa mais difícil é encontrar uma pessoa que assuma ser racista. Pratica-se uma discriminação invisível, claro, pois nós brasileiros somos mestres na dissimulação. O Machado de Assis retratou isso muito bem em sua mais conhecida personagem, a Maria Capitulina , a dissimulada com olhos de ressaca. Sempre que o assunto surge em minhas retinas fatigadas me lembro de uma pesquisa da Datafolha . Nesta pesquisa cerca de 85% dos pesquisados afirmavam que não tinham nenhum tipo de preconceito, mas um percentual próximo, afirmava que já havia presenciado uma situação de preconceito, discriminação ou racismo. O Brasil é assim mesmo: os racistas são os outros, não nós. Mas quem é “nós”, meu Deus? Mas voltemos ao caso das cotas, que realmente é uma tremenda embrulhada. Quando o Brasil resolveu abolir a escravatura, o nosso querido e sonolento imperador estava providencialmente em férias na Europa ou no Egito , não me lembro ao certo e deixou o abacaxi para ser...

TENTATIVAS POÉTICAS

Bananeira O pé de banana Deu cachos Doces bananas E a lesma se lambuza No ácido doce E o bem-te-ví Regala-se Na jabuticabeira E o jabuti É apenas um nome em um indecifrável Dicionário. O mar O mar molha A praia dos meus sentidos E meus ouvidos Ouvem o marulhar Mas o mar Não chega ao planalto Alto e insone plano Para que o mar? Se a vida já secou Secou? Ou as dores do corpo Perderam O sentido do mar? Meu avô Meu avô Dormia um sono Sono de pedra Entre ossos E lembranças Que eram gravadas Na fina teia Do cálcio. Minha mulher Minha mulher Não é minha Pois ela é que me tem Povoa-me de beijos Arrasta-me Loucamente Para sua teia De desejos Eu que não sou nada Perco-me na lambança De seu território Infinito Onde se escondem Inefáveis prazeres. Minha filha Traça Silenciosamente Minha continuidade Mas se recusa A sê-la Ela quer ser Nada mais do que ela E eu Sigo a narrativa Inenarrável Dos seus olhos Cor de mel. dezembro de 2008

OS NOSSOS PRESIDENTES

Lembro-me ainda criança no final dos anos 60 o quanto era difícil escrever Kubitschek, o sobrenome de origem tcheca do presidente da República. Quem não conseguia escrever corretamente perdia pontos na prova e por isso me esmerava em escrever o nome complicado do primeiro mandatário. Naquela época via o presidente apenas em jornais e revistas, pois não tínhamos televisão em casa. Ainda criança cheguei a ver o JK na televisão numa entrevista. Ele falava com bastante desenvoltura e de forma muito otimista sobre o Brasil, apesar de ter ficado longe do país durante muito tempo. Uma das frases que disse foi: “Ao viajar de automóvel por São Paulo, fiquei espantado com o progresso, tive a impressão de estar nos Estados Unidos, com boas estradas e fazendas bem cuidadas”. Era um sujeito simpático, elegante e bem humorado, mas os seus críticos não perdoaram o caos financeiro que deixou pela construção de Brasília. O presidente que o sucedeu, JQ era muito carrancudo, sempre mal humorado e com o c...