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ARSÊNIO FERREIRA DE CARVALHO, UM PIONEIRO DO OESTE PAULISTA

Ele chegou a Araçatuba ainda nos anos 1920, quando a estrada de ferro Noroeste do Brasil ainda estava em construção. Trabalhou algum tempo na estrada como capataz, recrutando e comandando trabalhadores no árduo serviço de implantação da estrada pelas florestas, ainda ocupadas por índios e posseiros. Tempos depois, passa a trabalhar com um fazendeiro de muitas terras na região, o italiano Jeremias Lunardelli, que se enriqueceu comprando e ocupando terras devolutas ou de propriedade duvidosa no estado. Nessa época proliferavam os grileiros, assim chamados por forjarem escrituras falsas de propriedades de terras. Eles guardavam as escrituras em gavetas com grilos para que fossem ligeiramente devoradas pelos insetos e assim, dar a impressão de se tratavam de velhos documentos. Depois disso, reivindicavam as propriedades apoiados nas leis, que sempre estavam dos seus lados. O trabalho de Arsênio era demarcar essas propriedades e orientar eventuais ocupantes a saírem da terra, pois havi...

A MISSA DO GALO REVISITADA

Muitos anos se passaram desde uma aula de literatura brasileira quando a professora trouxe uma cópia mimeografada do conto Missa do Galo, do Machado de Assis e me lembro como se fosse ontem. Depois da leitura rápida, preenchemos um questionário sobre a compreensão do texto. Eu gostei e muito do conto do velho bruxo do Engenho velho, mestre na ironia e nas insinuações. Ainda hoje a figura da Dona Conceição, mexe com a minha imaginação. Uma mulher de uns trinta anos, magra que tinha uma certa leveza no andar, arrastando suavemente o corpo pela sala vestida com um roupão levemente solto no corpo.   O marido, como habitualmente fazia, dormia fora uma vez por semana na casa de uma amante. Pobre Conceição, aceitava de forma resignada à condição de mulher traída pelo marido que pouca atenção dedicava a ela. O adolescente de dezessete anos aguardava um amigo que o chamaria para irem juntos à Missa do Galo na corte. Ele um caipira de Mangaratiba, queria saber como era a missa na capita...
UMA MOÇA CHAMADA MARIA DAS GRAÇAS E foi num dia desses que precisei passar pelo Cemitério das Lágrimas em São Caetano do Sul, onde meus pais e meu irmão estão sepultados para resolver uns pequenos reparos no túmulo da família. Bem próximo vi o túmulo dos Ceolin e para minha surpresa estava lá o nome da Maria das Graças Ceolin (da Silva).  Fiquei ali imaginando quanto tempo se passou desde a última vez que a vi. Havia ido à missa na igreja do bairro e a encontrei com uma amiga e acabei por acompanhá-las num show do Holiday on Ice no Estádio próximo à casa dela. Sai mais cedo do show e acabei nem me despedindo. Passou uma eternidade desde aquela noite. Maria se casou teve filhos e estava lá sepultada desde 2015. Sua história acabou mais cedo do que a minha. Para quem acredita, está no céu, como todas as pessoas boas. Para mim, mergulhou no silêncio eterno e só será lembrada pelos familiares e amigos. Trabalhamos na mesma empresa, num escritório na Rua S...

O SOCIÓLOGO LUIZ ANTONIO DE CARVALHO FRANCO

Faleceu no dia 12/11/2019, o nosso querido amigo Luizão. Sociólogo, escritor e pesquisador na área de educação, publicou os livros: "A escola do trabalho e o trabalho da escola; Problemas de Educação Escolar; Breve Histórico da formação profissional no Brasil" entre outros.  Era um cara divertido e não perdia uma boa piada, mesmo nos piores momentos. Lembro-me uma vez em que lhe dei uma carona, depois de uma notável bebedeira. Eu perguntava o seu endereço e ele respondia: Rua Max Weber. Quando perguntamos para um transeunte se conhecia a tal rua, ele se lembrou que falou nome do autor que estava lendo e rimos muito. Luizão teve paralisia infantil, que afetou a sua mobilidade por toda a vida. Mesmo assim circulava por todos os lados com todas as dificuldades. Era um estudioso e quase um nerd e todos os seus livros eram cuidadosamente analisados com anotações nas páginas. Quando era presidente do Diretório Acadêmico da FFCLFSA, muitas vezes dormia no sofá, pois muitas ve...
É POSSÍVEL UM SOLOCASAMENTO? É realmente muito estranho, mas uma moça de Minas, chamada Jussara casou-se com ela mesma. Evidentemente não houve igreja ou o pai com seu melhor terno, levando-a para o altar, pois nenhuma igreja aceitaria tal cerimônia. Segundo consta, ela se casou ao ar livre, em meio aos passarinhos e borboletas num ambiente natural. Jussara, 38 anos, apaixonada por ela mesma e comprometendo-se a passar o resto dos seus dias em sua própria companhia, selou a união que será para sempre até que a morte as ou os separem. Alguém deve ter perguntado a ela: "Você Jussara concorda em receber como esposa ou como esposo o seu outro lado?" Ao dizer sim, selou-se o auto matrimônio ou solo casamento ou selfcasamento. A psicologia dirá que se trata de caso raro de egocentrismo e que a Jussara precisaria se tratar fazendo um bom número de sessões de análise para corrigir um desvio de personalidade. Os sociólogos dirão que se trata de uma ruptura com a convivênc...
MEU PÉ DIREITO “Meu pé esquerdo” foi o título de um filme sobre o caso real de   Christy Brown, um humilde jovem   irlandês que nasceu com paralisia cerebral. Mesmo sendo tetraplégico, aos cinco anos, ele consegue controlar o pé esquerdo, usando giz para rabiscar palavras no chão. Ajudado pela mãe, torna-se pintor, poeta e autor. O filme me fez lembrar de um aluno que tive num curso de graduação. O nome dele é José e não tem os dois braços, que foram perdidos numa tentativa de resgatar uma pipa numa rede elétrica aos dez anos de idade ou menos. O choque foi tão violento que os dois braços do garoto ficaram necrosados, mesmo   depois de várias tentativas de recuperação. Enfim, não houve alternativa a não ser a amputação dos membros. Assim, José cresceu e continuou estudando de acordo com suas limitações, chegando ao curso de graduação em Administração. Ele colocava um caderno no chão e fazia suas anotações com o pé direito. Da mesma forma fazia as provas, rece...

ÁGUA INDÓCIL DE ANA CLARA DE VITTO

Publicado em 26 de June de 2019 por  Renato Ladeia A poesia de Anna Clara De Vitto parece estar submersa, mas vem à tona em cada verso, arrebentando-se nas praias do inesperado e também do cotidiano. É uma viagem, por vezes, em pequenos poemas ou em outros mais longos. A praia e o Atlântico estão sempre presentes. Santos é o seu ponto de partida, a cidade onde nasceu e regressa numa relação quase uterina, profunda e repleta de incógnitas. Hoje na metrópole, a poeta resgata os sonhos e pesadelos com o mar em sua infinita grandeza e com todos os seus medos e dúvidas.  Mas o mar está presente em improváveis castelos de areia e em insistentes murmúrios e ais. No mar de concreto ela constrói, como o ladrilhador de Walter Benjamin, novos significados para as palavras, para a dor e para o tempo. Poesia não é sentimento, não é lembrança, não é acontecimento, já foi dito por Rainer Maria Rilke em Cartas para um jovem poeta.  Poesia é ficção, o poema não é confession...