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ARSÊNIO FERREIRA DE CARVALHO, UM PIONEIRO DO OESTE PAULISTA

Ele chegou a Araçatuba ainda nos anos 1920, quando a estrada de ferro Noroeste do Brasil ainda estava em construção. Trabalhou algum tempo na estrada como capataz, recrutando e comandando trabalhadores no árduo serviço de implantação da estrada pelas florestas, ainda ocupadas por índios e posseiros. Tempos depois, passa a trabalhar com um fazendeiro de muitas terras na região, o italiano Jeremias Lunardelli, que se enriqueceu comprando e ocupando terras devolutas ou de propriedade duvidosa no estado.

Nessa época proliferavam os grileiros, assim chamados por forjarem escrituras falsas de propriedades de terras. Eles guardavam as escrituras em gavetas com grilos para que fossem ligeiramente devoradas pelos insetos e assim, dar a impressão de se tratavam de velhos documentos. Depois disso, reivindicavam as propriedades apoiados nas leis, que sempre estavam dos seus lados.

O trabalho de Arsênio era demarcar essas propriedades e orientar eventuais ocupantes a saírem da terra, pois havia ordem judicial para a desocupação. Feito isso, providenciava o cercamento e colocava placa indicando a quem pertenciam. Lunardelli, explorava essas terras ou então vendia-as a fazendeiros interessados. Com isso o italiano amealhou grande fortuna. Essas histórias eram contadas nas longas tardes ensolaradas quando eu ia visitá-lo nas minhas férias escolares.

Li uma referência ao Jeremias Lunardelli num livro de memória da escritora paulistana Zélia Gattai, “Anarquistas graças a Deus”. Ela conta que ele frequentava a oficina do seu pai, também italiano, na Alameda Santos em São Paulo. Ela menciona que um dos empregados da oficina, veio da Itália junto com o Lunardelli, mas ele o ignorava por ser apenas um empregado.

Com o dinheiro economizado como homem de confiança de Lunardelli, Arsênio comprou uma de suas glebas no município de Lavínia, uma área de 130 alqueiras de mata fechada. Com alguns peões, abriu uma picada na propriedade e por lá acampou, retirando madeira da mata e transportando até a serraria no povoado onde hoje se chama Lavínia, nome dado em homenagem a mulher do Franco de Mello, um grande fazendeiro local. Construída a casa de madeira, ele iniciou a exploração da propriedade, criando gado e plantando café, algodão, cana de açúcar, amendoim e milho.

Foi propriedade dele a primeira sede da prefeitura de Araçatuba, uma casa ao lado da estação, que ele vendeu para o município. Nesta cidade, que em 1933 se casou com Dona Alzira Ladeia Lobo, mudando-se posteriormente para a fazenda com a mulher e filhos. Na época foi nomeado inspetor de quarteirão, título conferido a cidadãos respeitados na comunidade pelas posses e nível de conhecimento. Os inspetores tinham autoridade policial na ausência estabelecimentos policiais em regiões mais afastadas. Era uma forma do estado garantir a ordem, onde não havia a presença de autoridades. Um episódio burlesco ocorreu em 1969, quando o homem foi à lua, apareceu um estelionatário vendendo terrenos no satélite para alguns ingenuos colonos. Quando soube, com a autoridade conferida a um inspetor de quarteirão, pegou a espingarda e colocou o malandro para correr.

Nos anos 1940, converteu-se a seita Testemunhas de Jeová, tornando-se um a membro bastante ativo. A partir daí passou a se guiar pelos princípios estabelecidos na Bíblia Sagrada. Quando o visitava sempre dedicava algum tempo para lerpara ele algum trecho da Bíblia de sua preferência. Gostava de contar histórias dos antigos habitantes da região, incluindo aí os índios que encontrou durante a abertura da estrada de ferro, como também dos grandes fazendeiros como os Moura Andrade, fundador da cidade de Andradina.

Dona Alzira faleceu muito jovem deixando-o viúvo. Com setenta anos, as filhas casadas, contraiu novas núpcias com Dona Izabel Quinquinello, filha de um casal de portugueses que morava na própria fazenda.

Arsênio foi um dos muitos pioneiros e desbravadores esquecidos dos sertões paulistas que derrubaram matas para o plantio e criação de gado criando riquezas na região. Infelizmente, a história nem sempre faz justiça a todos os grandes heróis que fizeram esse país.

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