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LÚCIA JORGE ABDALLA E difícil falar de uma pessoa com a qual não tivemos muita intimidade, apesar de tê-la conhecido bem e ter algumas dívidas de gratidão para com ela. Quem era Lúcia Jorge Abdalla, ou ainda é, se por acaso ainda estiver viva, coisa que não posso saber, pois há muito, muito tempo não tenho notícias dela.  Lúcia era uma mulher morena, bonita, elegante, charmosa, culta e conversa interessante.                Conheci esta mulher com todos os predicados acima como aluno em um colégio de São Caetano do Sul. Havia uma demanda muito grande por vagas e o Estado improvisou um colégio noturno em uma escola de primeiro grau sob o comando dela. Não havia nada. As instalações eram precárias. A secretaria funcionava no corredor de um banheiro, mas a Lúcia, uma batalhadora, não se abateu diante da falta de recurso e dava tudo de si para que a escola funcionasse da melhor forma possível. Selecionou os ...
Diálogo da profissão Este antigo diálogo em versos de uma criança ao ser inquerida sobre a profissão que gostaria de seguir, era contado por minha mãe quando éramos crianças. Não conheço a origem dos versos, mas já li partes em um outro blog. Como coletei o que presumo ser completo, resolvi publicar para preservar a memória da nossa cultura popular. Venha cá marotinho Diga o que queres ser Um valente soldadinho Para a pátria defender? Não titia não! Soldado morre na guerra a lutar. Então queres ser médico Para a vida salvar? Meu Deus que horror! Febre amarela, bexiga Tenho a vida muito amor Então queres ser um palhaço Que só faz saltar e rir? Palhaço quebra o espinhaço Para o circo não quero ir Então queres ser um bandido paspalhão? Andarás pelo mundo Sem ter uma profissão? Não titia, isso não Já sei o que quero ser Dono de confeitaria Quantos doces hei de comer! Coletado por Itanina Ladeia Lobo (1926-2012), possivel...
RELÍQUIAS DA CASA VELHA Uma casa tem muita vez as suas relíquias, lembranças de um dia ou de outro, da tristeza que passou, da felicidade que se perdeu. (Machado de Assis, em Relíquias da Casa Velha). Machado de Assis deu o nome de Relíquias da Casa Velha a um livro de contos, mas bom seria que tivesse escrito um belo conto com esse nome, pois as casas velhas guardam lembranças, segredos, tristezas, alegrias e às vezes tragédias.  De minha parte não tenho a pretensão de escrever um conto, ainda mais com esse título, mas vai aqui uma modesta crônica me apropriando do nome do livro do nosso maior escritor. A casa velha a que me refiro é onde passei minha infância e juventude num bairro de São Caetano do Sul. O inquilino saiu e foi preciso fazer a vistoria  do imóvel. A casa estava até bem cuidada  depois de alguns anos alugada. Alguns tacos soltos, um arranhão na pintura, mas nada muito grave que demandasse despesas para reparação.    ...
ANDRADINA Andradina parece um nome de mulher, mas é apenas uma cidade com nome feminino. A origem  vem de Andrade, um rico fazendeiro que se apossou daquelas terras para criar gado.  Como quase toda a região Noroeste Paulista, as cidades são planas, quase sem elevações. É um horizonte sem fim e o sol nem tem como se esconder no final das longas tardes de verão. Andradina, nome que eu ouvia desde menino quando as pessoas da família que moravam em Lavínia a ela se referiam. Uma grande cidade, a morada do rei do gado, um mitológico boiadeiro que virou uma canção da dupla Tonico e Tinoco que meu pai gostava de ouvir pelo rádio no final do dia. “Quem quiser saber meu nome/ que não se faça de arrogado/é só chegar lá em Andradina/ e perguntar pelo rei do gado”. Imaginava que para entrar em Andradina era preciso pedir licença para o rei que ficava sentado em um trono com chapéu, bombacha e botas gauchas, como se vestia meu tio José que também foi boiadeiro. Andradina era tamb...
'OS INTALIANOS" É assim até em nossos dias que os caboclos chamam os italianos no interior paulista. As modas caipiras de antanho grafam exatamente assim: “Os intalianos”, fazendo referências a um povo trabalhador, valente e defensor de suas famílias e propriedades. As belas italianas, como também as não tão belas, não tinham colher de chá e iam para a roça trabalhar na enxada de sol a sol. Com roupas longas e chapéus tipo sombreiro, era difícil ver as faces coradas quase sempre cobertas de poeira. Relatam sociólogos e historiadores, que em São Paulo foram incontáveis as moças italianas que fugiram de casa com homens negros, que ao contrário dos italianos, não permitiam que as suas mulheres fossem enfrentar os cabos de enxada.  As más línguas dizem que o motivo principal foi outro, mas são apenas suposições, pois nunca perguntaram para aquelas moças os motivos pelos quais fugiram de casa. Eu mesmo conheci uma senhora italiana casada com um senhor negro, que morava...
QUAL É A MÚSICA DO CHICO QUE VOCÊ MAIS GOSTA? Um velho amigo fã incondicional do Chico Buarque fez uma enquete com várias pessoas do seu relacionamento para saber qual era a música preferida composta pelo grande compositor.   Parecia fácil, mas qual o quê; todos vacilaram na escolha, pois seria mais simples escolher algumas das melhores. Não podia. Tinha que ser apenas uma, era um tiro só e não podia errar nem se arrepender. Diante da pergunta fiz um retrospecto geral na obra do compositor e optei por uma bela canção que ele fez com o Edu Lobo, Beatriz. Por que escolhi a Beatriz, uma das muitas canções que o Chico dedicou a um nome de mulher?  Depois de Carolina, Januária, Cristina, Joana Francesa e por aí vai, Beatriz, composta para o espetáculo Circo Místico, para mim foi a mais bela letra ou um dos mais belos poemas da música popular brasileira. Há quem diga que ele escreveu para a sua ex, a Marieta Severo. Bom seria se não fosse, para tão grande amor, tão cur...
CARLINHOS KALUNGA, UM MÚSICO "TUDO DE BOM" Kalunga é a designação dada aos descendentes de escravos que se refugiaram em quilombolas nos grotões do Estado de Goiás. Lá eles formaram comunidades autossuficientes, isoladas da civilização, se é que podemos chamar as cidades brasileiras de lugares civilizados. É também importante lembrar que Kalunga, em bom dialeto banto, significa “Tudo de bom”.  É aí que se encaixa o querido Carlinhos Kalunga, violonista, arranjador, produtor musical e compositor. Quem lhe deu o apelido não se sabe. Falei com seus amigos de juventude e ninguém tinha   informação   sobre a origem. Mas de qualquer forma o sentido banto lhe cai bem, pois o Carlinhos Kalunga é aquele sujeito sempre sorridente, de uma simpatia acolhedora. Carlinhos, músico de profissão e de paixão, começou cedo a lidar com o pinho, pois o pai, seu João Gonçalves, tinha muita afinidade com o velho violão que tinha em casa, num bairro da periferia de Santo André, n...