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O BAR DO XANDÓCA

O velho Thenório , com os seus cabelos brancos encaracolados e seu sorriso simpático, pitava o seu cigarro de palha e de vez em quando tomava um trago de cachaça à base de pitanga, que ele mesmo preparava. Sentado ao lado da lareira, observava o movimento dos cães e das pessoas que circulavam pela casa, quase sempre com visitas que vinham para ouvir os seus velhos causos ou ouvi-lo tocar violão e cantar as suas belas canções. “As canções são eternas. Depois que caem no domínio público, alcançam a eternidade. A mesma sorte não tem a literatura e tampouco a pintura. A pintura é efêmera como os bambus”, dizia para uma pequena platéia atenta e interessada em ouvir os seus comentários. Ao falar sobre pintura, uma mulher que o visitava e que estava olhando um pequeno quadro na parede, perguntou: “Onde o senhor conseguiu este quadro?”. Era uma pequena pintura a óleo de um velho amigo que há tempos não via e nem sabia se ainda vivo estava. ...
MEU PRIMO JOÃO Na minha infância o primo João era um herói. Um herói de verdade, de carne e osso, com as suas qualidades, defeitos e contradições. Ele sempre esteve envolvido em aventuras e desventuras. Às vezes vivia nas nuvens, outras na vida real. Lembro-me de que um dia apareceu em nossa casa sobre uma Harley Davidson, a lendária motocicleta norte-americana, hoje ainda desejo de consumo de muita gente. Havia chegado de Araçatuba , interior de São Paulo, percorrendo mais de 600 km. Contava que havia sido uma viagem cheia de imprevistos, perseguições, acidentes e muitos perigos pelo caminho. As histórias que lembram o filme americano Rota 66. Tudo acontecia com ele. Amores impossíveis, episódios de valentia e as fugas espetaculares , como a de uma festa em que todos os rapazes da cidade, enciumados, cercaram a casa para pegá-lo. Ele, com a ajuda de algumas garotas, saiu pelo telhado e saltou sobre sua moto e disparou por um cafezal. A moto, já bem velha, quebrou várias vezes pel...

BARRA DE SÃO JOÃO

Casa  onde Pancetti morou Em Barra de São João acontece de tudo e não acontece nada. As praias são de tombo e as ondas quebram violentamente na praia. Quase ninguém as freqüenta a não ser algum turista desavisado, preferencialmente os paulistas. Mas o lugarejo é tranqüilo, com ruazinhas arborizadas com velhas jaqueiras e com muitas primaveras nos jardins, dando uma sensação gostosa de paz e tranqüilidade há muito perdidas nas grandes metrópoles. Foi lá que nasceu o poeta Casimiro de Abreu e onde foi sepultado conforme seu último desejo. O seu túmulo está no cemitério da igreja, mas dizem que o corpo não está lá e que foi “roubado” na calada de uma das antigas noites do século dezenove. A casa do poeta, restaurada, fica às margens do Rio São João é hoje um museu onde um crânio humano está exposto e alguns afirmam que é do poeta dos “Meus Oito Anos”. Olhei severamente para o crânio e questionei como Shakespeare em Hamlet: “To be or not to be”, mas fiquei sem resposta. O cas...

BUTIÁ

Butiá na verdade não existe mais. È apenas uma fotografia desbotada e um quadro singelamente pintado, mas deixou saudades e muitas. Ficava em Descalvado, interior de São Paulo, para onde a nossa turma ia passar alguns fins de semana prolongados nos longínquos anos 1970. Era uma pequena vila e tinha até uma estação de trem, herança dos gloriosos tempos em que o café era o ouro verde do estado. Também não faltava a igrejinha, aconchegante onde os fieis depositavam as suas esperanças no futuro das almas. O sino da igreja, contava o famoso Zé Dozzi, num dia de forte temporal, caiu do campanário e trincou. Ele como zeloso fiel tratou logo de consertá-lo. E afirmava, sem medo de ser chamado de faroleiro, que soldou o sino com ouro puro doado pelos moradores, que abriram mão de anéis, alianças e correntinhas. Por isso quando o sino tocava, o som se espalhava no ar com certo brilho que somente uma imaginação fértil pode perceber. E o menino Jesus em retribuição à generosidade do povo de Bu...

HISTÓRIAS DE DESCALVADO

A fama de que Itu é a terra dos contadores de exageros está para ser recontada, pois em Descalvado eu ouvi alguns dos causos mais absurdos em toda a minha vida. Estava de passagem por lá e resolvi entrar numa padaria para tomar uma cerveja com o amigo Sinésio Dozzi Tezza nascido na cidade, onde viveu até a juventude, que me acompanhava. Enquanto bebericávamos fiquei olhando para a rua que lembrava o poema Cidadezinha qualquer do Carlos Drummond: “Um burro vai devagar/ Um cachorro vai devagar/ Devagar as janelas olham/ Eta vida besta meu Deus!” De repente minha atenção se voltou para uma conversa numa mesa ao lado. Um sujeito com uma voz um pouco aguda não parava de falar com seu acompanhante, foi quando ouvi as histórias mais inacreditáveis. Numa delas ele falava sobre um jogo de futebol que ele havia disputado quando muito jovem, a qual tento relatar com alguma fidelidade: - O beque fez o penarti na horinha que eu ia fazer o gol. Ah eu mesmo fui bater. Ajeitei a pelota, tomei a distâ...

O DIA DA POESIA, GARCIA LORCA E OS AMIGOS POETAS

O último dia 14 de março foi o dia da poesia e eu nem me lembrava da data. Mas confesso que não acho que a poesia precise de data; não porque a poesia não mereça, mas porque ela está acima das datas e não é necessário um dia para se ler poesia. Todos os dias são da poesia, pena que nem todos pensem assim. Um velho amigo sempre diz: “Esse mundo não tem mais poesia” e isso era o bastante para desmanchar o coração da mais renitente donzela. “As mulheres podem gostar de cartões de crédito, belos carros, roupas, jóias, mas são os poetas que tocam em suas almas”, repetia esse dom Juan incurável. Existiria poesia sem poetas? Eu acho que sim, pois a poesia está em todos os lugares e em todas as pessoas. Mas é preciso o olhar do poeta para decifrá-las, lapidá-las. É claro que existem os poemas brutos e os mais elaborados, mas são todos poesias. Há também aquela velha discussão de que letra de música não é poesia. Discussão estéril... Chico Buarque é um dos defensores desta tese, que cons...

A PELE DE JAGUATIRICA

Era uma vez Um Czar naturalista Que caçava homens Quando lhe disseram que se caçavam Borboletas e passarinhos Achou uma barbaridade ( Drummond ) José Pereira era um hábil caçador e nos tempos em que no oeste paulista ainda havia matas virgens, ele se embrenhava por elas para caçar. Não usava armas de fogo, apenas um longo punhal, muito afiado. Era filho de escravos africanos e talvez tenha aprendido com seu pai a arte dos seus antepassados que assim caçavam leões nas savanas africanas. Todos que o conheciam adoravam sua elegância, simplicidade e simpatia. Tinha sempre em mãos balas e guloseimas para presentear as crianças. Sua casa, que ficava perto da estrada, era repleta de flores e um pequeno pomar, onde a molecada se deliciava nas épocas em que as frutas entravam em tempo de madureza . Ele não se incomodava e tinha prazer e ver sua casa repleta de crianças. Como era um caçador suas paredes ostentavam peles de animais esticadas. Quando criança, nunca cheguei a pensar naquilo c...