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HISTÓRIAS DE DESCALVADO

A fama de que Itu é a terra dos contadores de exageros está para ser recontada, pois em Descalvado eu ouvi alguns dos causos mais absurdos em toda a minha vida. Estava de passagem por lá e resolvi entrar numa padaria para tomar uma cerveja com o amigo Sinésio Dozzi Tezza nascido na cidade, onde viveu até a juventude, que me acompanhava. Enquanto bebericávamos fiquei olhando para a rua que lembrava o poema Cidadezinha qualquer do Carlos Drummond: “Um burro vai devagar/ Um cachorro vai devagar/ Devagar as janelas olham/ Eta vida besta meu Deus!” De repente minha atenção se voltou para uma conversa numa mesa ao lado. Um sujeito com uma voz um pouco aguda não parava de falar com seu acompanhante, foi quando ouvi as histórias mais inacreditáveis. Numa delas ele falava sobre um jogo de futebol que ele havia disputado quando muito jovem, a qual tento relatar com alguma fidelidade: - O beque fez o penarti na horinha que eu ia fazer o gol. Ah eu mesmo fui bater. Ajeitei a pelota, tomei a distâ...

O DIA DA POESIA, GARCIA LORCA E OS AMIGOS POETAS

O último dia 14 de março foi o dia da poesia e eu nem me lembrava da data. Mas confesso que não acho que a poesia precise de data; não porque a poesia não mereça, mas porque ela está acima das datas e não é necessário um dia para se ler poesia. Todos os dias são da poesia, pena que nem todos pensem assim. Um velho amigo sempre diz: “Esse mundo não tem mais poesia” e isso era o bastante para desmanchar o coração da mais renitente donzela. “As mulheres podem gostar de cartões de crédito, belos carros, roupas, jóias, mas são os poetas que tocam em suas almas”, repetia esse dom Juan incurável. Existiria poesia sem poetas? Eu acho que sim, pois a poesia está em todos os lugares e em todas as pessoas. Mas é preciso o olhar do poeta para decifrá-las, lapidá-las. É claro que existem os poemas brutos e os mais elaborados, mas são todos poesias. Há também aquela velha discussão de que letra de música não é poesia. Discussão estéril... Chico Buarque é um dos defensores desta tese, que cons...

A PELE DE JAGUATIRICA

Era uma vez Um Czar naturalista Que caçava homens Quando lhe disseram que se caçavam Borboletas e passarinhos Achou uma barbaridade ( Drummond ) José Pereira era um hábil caçador e nos tempos em que no oeste paulista ainda havia matas virgens, ele se embrenhava por elas para caçar. Não usava armas de fogo, apenas um longo punhal, muito afiado. Era filho de escravos africanos e talvez tenha aprendido com seu pai a arte dos seus antepassados que assim caçavam leões nas savanas africanas. Todos que o conheciam adoravam sua elegância, simplicidade e simpatia. Tinha sempre em mãos balas e guloseimas para presentear as crianças. Sua casa, que ficava perto da estrada, era repleta de flores e um pequeno pomar, onde a molecada se deliciava nas épocas em que as frutas entravam em tempo de madureza . Ele não se incomodava e tinha prazer e ver sua casa repleta de crianças. Como era um caçador suas paredes ostentavam peles de animais esticadas. Quando criança, nunca cheguei a pensar naquilo c...

JOHNNY ALF, UM RAPAZ DE BEM

Quando garoto pensava que o Johnny Alf fosse um pianista americano que tocava jazz aqui no Brasil. Depois vi que esse americanismo era fruto de uma época, do pós-guerra e da Guerra Fria, que alastrou a influência americana pelo continente. Pensava-se que para fazer sucesso era preciso ter um nome inglês. O português era, definitivamente, um idioma que não se encaixava muito bem no show-business da época. Alfredo José da Silva, carioca da Vila Izabel como Noel, não fugiu a regra. Negro, de origem muito humilde, órfão de pai, que morreu na Revolução de 1932 quando ele tinha três anos e com mãe empregada doméstica, escapou por pouco de destino que poderia ser o mesmo de milhões de jovens negros e pobres no Brasil. Teve a oportunidade de estudar piano erudito e isso mudou seu destino. Mas não foram apenas os clássicos que fizeram a sua cabeça. Também os grandes jazzistas como Gershwin e Cole Porter, através dos musicais americanos, tiveram influência notável em sua obra musical. Tocando...

O CÃO E O OUTRO

Para Caterina Koltai Os cães bem nascidos, com roupas de lã e com guias passeavam com seus donos pela praça sob um frágil sol de outono. Uma senhora obesa e arrogante levava o seu luluzinho, cuidadosamente penteado, ao colo, para evitar que se contaminasse com outros cães ou a sujeira do piso. Naquele espaço público, as classes sociais se diferenciavam pelas raças dos cães, cujos preços de mercado variavam de acordo com a raridade. Um Poodle Toy, por exemplo, pode custar até três mil reais, dependendo do pedigree. As coleiras, as roupas dos cães e demais adereços, também contribuíam para fazer a diferença. Para os cães, pelo menos é o que dizem os cinólogos, tudo se resume ao odor das roupas, das pessoas e das coisas. Eles não empinam o nariz como fazem nos desenhos animados, os cães das madames. Estão presos (pelas coleiras) às classes dos seus donos, mas não sugere que tenham noção de suas classes sociais, muito menos consciência de classe. Um mendigo, também alheio às questõ...

CAUÊ E O VELHO HOMEM DAS NUVENS

Cauê era um indiozinho tupi que vivia numa reserva indígena no interior do Brasil. A reserva era muito grande, mas existia um grande abismo que a separava da terra dos homens brancos. Os mais velhos sempre contavam histórias sinistras sobre o outro lado, o lado proibido. Sempre ouvira falar que os seres brancos eram violentos e pouco amistosos. Além disso, espalhavam doenças terríveis para os índios que morriam logo depois do contato com eles. Cauê sonhava poder algum dia atravessar o abismo e encontrar-se com as pessoas do outro lado, mesmo correndo todo o tipo de risco. Sentia-se cansado dos limites de sua reserva. Já conhecia tudo: os rios, lagoas, quase todas as árvores e animais. Alguns ele dava até nomes. As tarefas da aldeia destinada aos meninos o entediava, pois queria correr o mundo em busca de aventuras, conhecer outros povos, outros guerreiros. Um dia Cauê resolveu partir. Pegou seu arco e flechas, uma sacola feita de palha com alguns alimentos e partiu em direção ao ou...

GRANDE SERTÃO: VEREDAS

A travessia de Nelson Ladeia. Poucas pessoas leram realmente o Grande Sertão: veredas. É uma narrativa complexa,em que o narrador conta a história para alguém que pode ser o próprio escritor ou o leitor. A narrativa também não segue uma sequência linear, temporal. Há avanços e retorno no tempo. Riobaldo, o narrador, admite que o contador de história tem poder sobre o passado, o presente e o futuro. O autor inventa palavras o tempo todo na voz do seu narrador, a sintaxe é complexa e repleta de metáforas que fazem a leitura um um trabalho nada simples. É preciso de concentração, paciência e reflexão. Mas esta crônica não é sobre o livro, mas sobre meu irmão Nelson para quem emprestei uma antiga edição do Grande Sertão: Veredas do Guimarães Rosa. Ele estava apaixonado pelo escritor após a leitura de Sagarana. Leu e releu o livro e todas as vezes que nos encontrávamos ele dizia que o Grande Sertões: veredas havia se tornado o seu livro de cabeceira, sua bíblia. Mas para mim a e...