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O IRAQUE NUNCA ESTEVE TÃO PERTO

O Iraque não está tão longe. A expressão "está para lá de Bagdad" perdeu o sentido no mundo globalizado. Infelizmente, a violência que campeia por lá, também está por aqui. De repente podemos ser uma das vítimas ou nossos parentes, amigos e conhecidos. Estamos todos com as cabeças enfiadas na terra, como avestruzes, sem querer enxergar que chegamos a beira do abismo. Há tempos estamos vendo notícias que informam que grupos marginais roubaram quartéis do exército e das polícias militares. Outras dão conta de que os bandidos utilizam armas muito mais sofisticadas do que as disponíveis para nossos policiais. O embate torna-se desigual, desequilibrando o confronto. De um lado, temos policiais militares que têm esposa, filhos ou pai e mãe. Do outro, temos marginais que estão por conta da vida, ou seja, estão para o que der e vier, pois vieram de um ambiente em que a vida não tem mais nenhum valor, em que os vínculos familiares, quando existem, são bastante tênues. De um lado, prof...

A MORTE INOVADA

“Funeral é um negócio como qualquer outro e precisa ser inovado constantemente”. A frase, ouvida num jornal na TV me deixou um tanto chocado, pois me habituei a ouvir e ver a morte como algo funesto, desagradável e que coveiro ou o agente funerário eram as piores profissões do mundo, com todo respeito que todas as profissões merecem. Quando criança passava longe das funerárias e só de pensar que um ente querido poderia ser encaixotado me causava arrepios. Lembro-me que ao descobrir que um colega do colégio era filho do proprietário de uma agência, provocou o meu distanciamento dele tal como o diabo foge da cruz. Um carro funerário passando pela rua me provocava asco e olhava para o outro lado. A cor rocha até hoje me é desagradável, por mais que queiram me convencer que é uma cor da moda. Algum trauma de infância diagnosticaria um psicanalista interessado em algumas sessões de análise. Um medo infundado creio eu, mas pode ter origem nas histórias que eu ouvia quando criança, pintando a...

LUPICÍNIO RODRIGUES REVISITADO

Eu não sei se o que trago no peito É ciúme, despeito, amizade ou horror Eu só sei que quando eu a vejo Me dá um desejo de morte ou de dor O crime de Lindembergue Alves, que assassinou sua ex-namorada Eloá e feriu gravemente a amiga dela, Mayara, me fizeram lembrar dos versos do grande compositor gaúcho, Lupicínio Rodrigues, que foi classificado como shakesperiano por Augusto de Campos. O moço não sabia, tal como o poeta, o que ele trazia no peito, depois do fim de uma relação afetiva. O poeta, como diria Fernando Pessoa, é um fingidor, mas o amante nem sempre consegue sublimar a sua dor através da poesia ou outra forma não violenta. O desejo de morte ou de dor tomou conta do rapaz que não viu alternativa, a não ser mostrar para a jovem todo o seu sofrimento, ficando exposto ao risco de perder a vida e levá-la para o mesmo caminho. A relação tinha tudo para não dar certo. Ele com vinte e dois anos e ela com quinze. Ele, um garoto mal amado que procurava na família da namorada um aconche...

A CASA DO BARÃO

Passando por Monteiro Lobato, bucólica cidadezinha do Vale do Paraíba, vimos uma pequena placa “Sítio do Pica Pau Amarelo”. As lembranças do seriado na TV, dos livros do Monteiro Lobato, fizeram com que nossas resistências fossem minadas e pegamos a estradinha poeirenta para conhecer o tal sítio. A viagem foi mais longa do pensávamos, uma estrada que há muito não é conservada e entre subidas e descidas avistamos o casarão colonial que reina majestoso num pequeno vale. Fomos bem recebidos por vários cães que quase impediram que saíssemos do carro. Mas a proprietária, que não é parente do escritor, nos convidou a visitar a casa por módicos três reais. Contou-nos ela que seu avô comprou a fazenda de um negociante que por sua vez havia comprado do escritor, depois do seu fracasso como fazendeiro. Ainda bem, pois caso contrário o Brasil e o mundo teriam deixado de conhecer as fantásticas aventuras de Narizinho, Pedrinho, a boneca Emília, o Visconde de Sabugosa e outros personagens que povoa...

DORIVAL CAYMMI

Meu amigo Zéca cobrou-me uma crônica sobre o velho bardo da canção praieira da Bahia. Eu cá sem nenhuma inspiração para escrever sobre uma das maiores figuras da nossa música popular brasileira. Quem não conhece Caymmi? Minha mãe, já velhinha, não sabe quem é. Pois é, mesmo assim, apesar de não se lembrar, ela ainda consegue cantarolar algumas velhas canções como Maracangalha, Marina, Peguei um Ita no norte e outras. Ainda me recordo de ouví-la cantar em casa enquanto cuidava dos afazeres domésticos. Tinha uma voz de soprano e pelo que me consta era razoavelmente afinada. E assim, eu cresci ouvindo o Caymmi, pelo rádio ou através da voz materna. Que privilégio. Sua obra é mais conhecida do que ele mesmo. Caymmi foi um letrista inspirado que compunha com a simplicidade dos mestres, que sabia tocar forte em qualquer pessoa minimamente sensível. Quem não sente uma saudade danada ao ouvir “Peguei um Ita no Norte”, mesmo que nunca tenha morado no norte ou que tenha ido para o Rio de Janeiro...

LYGIA FAGUNDES TELLES

Barra de São João, uma pequena vila da cidade de Casemiro de Abreu no Rio de Janeiro, era onde passávamos nossas férias de verão. Um lugar bucólico, com a arquitetura colonial preservada em algumas casas, talvez pelo fato das praias não serem tão atrativas aos turistas como da sua vizinha Rio das Ostras. Mas era ali que ficava a casa onde morou o poeta Casemiro de Abreu e também onde ele estaria sepultado (diz o povo que o corpo foi roubado). Mas foi também ali, em frente ao Rio São João, num casarão colonial abandonado pelo descaso do poder público, que o grande pintor Pancetti morou por algum tempo, buscando inspiração para suas belas marinhas. Lá tudo andava devagar e devagar as janelas se abriam e fechavam observando lentamente os passantes. E foi ali, numa de nossas férias que o nosso querido Fiico, um sósia do Martinho da Vila, um sujeito simpático e bom de conversa, além de violonista de primeira nos contou que a escritora Lygia Fagundes Telles estava hospedada na pousada onde h...

MEU PRIMEIRO NERUDA

Comprei meu primeiro Neruda em meados dos anos 80, não me lembro ao certo e foi um acontecimento. Li os primeiros poemas ainda em pé na livraria e prometi, na hora de fazer o pagamento, que devoraria o livro e que satisfaria a minha ansiedade da poesia do grande poeta chileno. Qual o que! Li algumas páginas e o Canto Geral, era esse o nome do livro, ficou acumulando a poeira do tempo na estante. De tempos em tempos olhava para a brochura e continua prometendo que o leria em breve e nada de cumprir a promessa. A vida moderna, com muito trabalho, o nascimento da única filha, o stress e tudo o mais e fui deixando, para o futuro, a leitura. Às vezes lia algum dos poemas para minha filha antes de dormir, mas, sinceramente, ela preferia o Drummond. O verso “O vento brinca nos bigodes do construtor” era o seu preferido e ela ria de modo a ouvir-se de longe. Tempos depois um amigo, suspeitando que eu fosse um apaixonado pela poesia de Neruda me presenteou com os Versos do Capitão, com uma bela...