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NÃO VERÁS PAÍS NENHUM

O livro do novo imortal da Academia Brasileira de Letras, Ignácio Loyola Brandão, estava em minha estante desde 1981 e só agora, em plena pandemia, resolvi enfrentá-lo. Não é fácil, pois o romance narra com profundo pessimismo o futuro do país. Quem leu O Processo de Franz Kafka, 1984 de George Orwel e o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, deve saber do que se trata. Dá a impressão de que Brandão se inspirou nesses três clássicos da literatura para construir sua narrativa. O mundo brandonista, termo que estou lançando (rs), seria caótico, pois o clima estaria totalmente mudado com a seca atingindo a grande parte do planeta, rios com leitos secos, as chuvas teriam desaparecido e as florestas teriam ficado como reles lembranças nos livros didáticos ou na memória dos mais velhos. O mundo estaria se alimentando basicamente de alimentos que o autor chama de factícios, pois seriam produzidos em laboratórios com todos os riscos para a saúde humana. A floresta amazônica hoje cantada em prosa e verso seria apenas um grande deserto, maior do que o Saara, o que encheria de orgulho os ufanistas do futuro. Outro detalhe: o Brasil estaria reduzido ao Sudeste e Sul, pois as regiões norte e nordeste estaria nas mãos de potências europeias. O Brasil por sua vez controlaria regiões como o Chile. Enfim, o mapa mundi estaria totalmente alterado. Sem água disponível para todos, o racionamento seria cruel com os habitantes que receberiam fichas de consumo que são negociadas por baixo do pano a peso de ouro. Em razão da grande escassez de alimentos e água, a corrupção se tornaria mais intensa, com as pessoas vendendo fichas de água para comprar alimentos ou desfrutar de um prazer novo. O romance não explica de onde vem a água, mas provavelmente da dessalinização da água do mar, que tem um custo alto e por isso o consumo precisa ser controlado. A segurança é outro tópico abordado pelo romance. Com grande número de desempregados, refugiados chegando de todos os lados do que era o país e dos párias (pessoas contaminadas por produtos químicos incontroláveis) que percorrem as ruas como mortos ambulantes, as ruas seriam bem menos seguras do que hoje. Um grupo paramilitar ganha status de legalidade com a criação dos Civiltares (qualquer semelhança com as milícias é mera coincidência), que controlariam não só a segurança, mas todo o Esquema de corrupção que estaria generalizado. As informações seriam controladas, tal como em 1984 e seriam alteradas de acordo com os interesses de quem está no poder. Qualquer tentativa de subverter a ordem poderia resultar na prisão, morte ou internamento em manicômios. Os professores seriam vigiados durante todas as aulas e qualquer tentativa de estimular ou responder questões perigosas poderia resultar na aposentadoria compulsória, mas sem salário. O romance é narrado na primeira pessoa pelo personagem Souza, um professor de história compulsoriamente aposentado que sobrevive algum tempo num cargo burocrático numa repartição sem nenhuma finalidade. Souza é um cidadão pacato que vive anonimamente com sua mulher Adelaide, profundamente religiosa. O sobrinho de Adelaide é um corrupto oficial militecno, o único parente com quem o casal tem proximidade. O romance torna-se mais atual em função das posições claramente anti-ambientalistas do governo Bolsonaro, mostrando através da ficção, um mundo possível, mas não desejável para ninguém.

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