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A OLIVEIRA DO CEILÃO Cansado dos negócios da carne no seu sentido literal, quando via diariamente cadáveres de bois, porcos e galinhas, um velho amigo dos tempos idos resolveu partir para a vida bucólica do campo. Passou nos cobres a sua rede de açougues, que apesar de bastante rentável, dava muito, muito trabalho, pois não tinha fim de semana ou feriado para o merecido lazer. Todo dia é dia de carne na mesa das pessoas.                Perambulando pelo interior viu muitas propriedades, algumas maravilhosas, mas que não cabiam em seu bolso. Até que um dia descobriu em Pinhalzinho, perto de Bragança, um bucólico sítio, com boa nascente e boa terra. Era uma antiga fazenda de café, com o seu velho terreiro sustentado por uma muralha de pedra cujas origens remontam os tempos da escravidão. Lá encontrou até uma pequena senzala, onde o primeiro proprietário mantinha sua escravaria. O velho casarão ele decidiu demo...
BEATRIZ Ela era uma atriz e bailarina e dançava nos sonhos do jovem rapaz. Ele dormia e acordava pensando nela, imaginando onde ela estaria. Em que palco dançava e representava para as multidões que a aplaudiam. Em seus devaneios ele via a atriz dançando só para ele, movimentando seu corpo como um pássaro no ar. As asas que ela não tinha, flutuavam como leves plumas ao sabor do vento. Não sabia onde ela morava, mas imaginava que fosse num enorme arranha céu e de lá descia todas as manhãs como um pássaro e pousava na calçada com a ponta dos pés. E todas os passantes abriam caminho para que ela seguisse voando em direção ao palco. Mas a vida da atriz e bailarina Beatriz era diferente dos sonhos do jovem apaixonado. Ela morava sozinha num quarto de pensão e às vezes nem tinha o que comer, pois seu pagamento atrasava por semanas. Chegava exausta, tarde da noite e deitava-se faminta numa cama imunda e fria. Encolhia-se como feto no útero para suportar o frio da madrugada paulista....
O CHAMADO DE ABRAÃO Abrão era jornalista e por muitos e muitos anos trabalhou na grande imprensa fazendo reportagens nas mais diversas áreas. Era até bem sucedido na sua profissão, mas não havia atingido o auge da carreira para alguém com mais de quarenta anos. Prevendo dias piores, fez um curso de pós-graduação em gestão para eventualmente ter o seu próprio negócio caso perdesse o emprego. A família de  Abrão era tradicional e pertencia a antigos troncos paulistas, cujas origens remontavam os primeiros tempos coloniais.             Sua vida amorosa estava caminhando, pois tinha um velho relacionamento com uma professora que já se estendia por mais de dez anos. Em verdade parecia mais uma relação de amizade do que um caso amoroso, mas convenhamos que o nosso personagem não estava muito apaixonado e queria mesmo era uma companheira inteligente para passar o resto dos seus dias. Sarah era professora, uma pessoa independ...
O CASAMENTO A família de Maria, apelidada por Mariquinha desde criança, mudou de cidade por causa da transferência do pai, que era professor primário. A vida era bastante difícil para uma família grande e a mãe contribuía para o orçamento doméstico dedicando-se à costura. Mariquinha, então com dezesseis anos, já ajudava a mãe nas costuras e também fazia as entregas de encomendas. Numa dessas entregas conheceu Epaminondas, filho de uma antiga família local, que outrora esteve muito bem financeiramente, mas vivia das glórias do passado. O moço não gostava de trabalho e os vários empregos que o pai lhe arranjara, acabava abandonando-os alegando, ora que o salário era pouco, ora que o serviço era por demais pesado. Trabalho com hora para chegar e para sair não fazia parte da vocação deste bom vivant. Mas ao conhecer Mariquinha começou a pensar em constituir uma família, pois já estava passando da idade. Assim insistiu com o pai que pedisse aos pais de Mariquinha a sua mão em casame...
O ALPINISTA SOCIAL Marco, decididamente, era um alpinista social, mesmo sem saber o que significava isso.  De família muito humilde decidiu que precisava fazer qualquer coisa para melhorar de vida. Rapaz bonitão, loiro de olhos azuis, fazia sucesso com as mulheres, mas estava mesmo interessado em dar o famoso golpe do baú. Não é que a oportunidade surgiu quando descobriu que uma família freqüentadora da igreja era muito abastada. O velho Aristóteles tinha lojas e uma construtora em ascensão, além de vários imóveis espalhados pela cidade. A moça era feia, desajeitada e, além de tudo, não era muito equilibrada. Para Marco não havia problema algum em desposar a moça, um pouco mais velha do que ele e com todos os predicados mencionados. O que interessava mesmo era o patrimônio do sogro que tinha dinheiro escapando pelo ladrão, conforme se comentava pelo bairro. Tudo indica, meus caros leitores, que a família estava com muita pressa em selar o compromisso da Cremilda com o moçoi...
O LUTO DE ESTEFÂNIA Pobre da dona Estefânia, perdeu um filho com apenas dezoito anos num trágico acidente. Ele foi junto com alguns amigos nadar numa represa em São Bernardo e acabou se afogando. Conhecia o Paulinho apenas de vista, pois eu era ainda um frangote na época.  Foi muito triste, pois era apenas um garoto com muitos sonhos pela frente.  Ele saiu com uma turma para nadar e aconteceu o inesperado.  Disseram que ele mergulhou fundo e se enroscou em um galho de árvore.              Logo depois o seu marido, um velho advogado de porta de cadeia, morreu com câncer, que em casa se chamava doença ruim, ou aquela doença que ninguém gostava de falar o nome. Fui com meu pai visitá-lo uma vez. Era um homem alegre e simpático que mesmo acamado sem poder andar, ainda fumava e dizia besteiras na frente de um menino. Meu pai ficava desconfortável e tentava a todo custo mudar de assunto, mas vira e mexe el...
A INSACIÁVEL Aninha, filha de um casal de portugueses morava numa casa de esquina, onde repousavam frondosas árvores, junto com os pais depois de um casamento que durou pouco e teve um final escandaloso. O marido, desconfiado da traição da mulher, colocou um gravador no quarto logo que saiu para o trabalho. A armadilha funcionou e de posse da gravação, desmascarou a mulher que o traia com um dos seus empregados, deixando-a sem eira nem beira.                Com o fim do casamento, Ana continuou tendo seus casos, que sempre terminavam de forma pouco civilizada, pois não aceitava as separações de forma pacífica. Quando o amante era casado, ela não deixava por menos e ia na porta da casa do ex para dizer todas as coisas que ficaram entaladas em sua garganta. Era uma mulher temível. Tanto pela sua fúria sexual, como pelas conseqüências resultantes da separação. Como era extremamente possessiva era inevitável que...